Reencontro Ricky Baptista na Base das Lajes, numa cerimónia de homenagem a Joe Kittinger, um mítico piloto americano, promovida pela GlexSummit, que este ano se realizou em Angra do Heroísmo. E é durante um almoço informal oferecido pelo comandante americano, o coronel Brian L. Hardeman, que surge esta ideia de aproveitar a nossa conversa para um Brunch com, no fundo um perfil de Ricky, que conheci como responsável pelas Relações Públicas das Lajes, durante uma reportagem há dois anos, mas que agora é vice-presidente da Câmara Municipal da Praia da Vitória, uma das duas cidades da ilha Terceira e aquela que é mais próxima da base portuguesa, uma das mais estratégicas para os EUA a nível mundial..É, pois, enquanto comemos uns camarões panados e umas asinhas fritas e bebemos um copo de tinto português que Ricky me conta como um filho de emigrantes açorianos no Canadá, que fez estudos universitários de gestão e depois na área da saúde e do desporto, acabou por fazer da ilha onde nasceram os pais a sua casa e nela criar uma família, pois é casado com Diana e pai de Oceana e de Cassiano.."Os meus pais emigraram da Ilha Terceira para Toronto em janeiro de 1969 com a minha irmã mais velha que tinha, na altura, 2 anos. Como muitos açorianos, foram em busca de uma vida melhor, sempre com intenção de regressar. Com o passar dos anos e a família a crescer com o meu nascimento em 1976, as raízes foram-se firmando. Vínhamos à Terceira para ver os avós, mas encontrar o momento certo para voltar foi sempre difícil. Tendo os meus pais a oportunidade de darem ensino superior à minha irmã e a mim, a perspetiva de voltar ficou ainda mais distante", conta Ricky, que está na cerimónia em honra de Kittinger (saltou em 1960 de um balão de hélio de uma altitude de 31300 metros, um recorde) na qualidade de autarca, mas não deixou de ser da casa. Está com licença sem vencimento, mas, diz, o futuro não passa pela política e sim pelo trabalho na comunicação das forças americanas..Claro que não há tempo para fazer toda a conversa em pé enquanto comemos uns acepipes e combinamos continuar depois, já finalizado o evento que o Clube de Exploradores de Nova Iorque, parceiro da portuguesa Expanding na organização da GlexSummit, montou na base das Lajes e que permitiu que Ricky me apresentasse não só o número um americano, mas também o número dois, que estava de saída, mas, como já contarei, é uma figura que tem estudado as relações luso-americanas..Já sem preocupações de respeitar protocolo, continuo a conversar com Ricky, que me explica mais em pormenor o processo que o fez trocar o Canadá por Portugal. "Depois de ter adquirido a carta de condução, fiquei viciado nas férias de verão na Terceira. Durante os meus anos de universidade tive vontade de terminar a licenciatura e passar um ano na Terceira para perceber o estilo de vida de cá. Em julho de 2000 mudei-me para a Terceira com o intuito de ser professor. Vinte e um anos depois continuo na Ilha, nunca fui professor, mas cheguei a vice-presidente da Câmara Municipal da Praia da Vitória", conta, sorrindo, mas com evidente orgulho no que realizou..No Canadá, enquanto estudava na Toronto Metropolitan University e depois na York University, Ricky fez aquilo que é muito natural no outro lado do Atlântico: trabalhou numa lavandaria e depois numa loja da Toys R Us. O trabalho nunca o assustou e ganhou uma ética profissional que é muito comum nos emigrantes e seus filhos. Uma ética de trabalho que lhe tem sido muito útil nestas ilhas e neste país que adora, como confessa: "Para mim, descrever e resumir os Açores seria um pedaço do Paraíso. Quando olhamos para a paz, a segurança, o sentimento de pertença, os Açores têm todos estes atributos. É claro que existem áreas que podemos melhorar, como em qualquer local. E Portugal é uma referência histórica com uma belíssima cultura que influenciou os quatro cantos do globo. Acredito que uma das razões que me levou a sair da minha terra natal, foi a minha herança portuguesa, a de explorar o que não conhecemos"..Sobre as Lajes - e em setembro assinalam-se 50 anos sobre a Guerra do Yom Kippur, em que os Açores foram essenciais para o fornecimento de armamento americano a Israel - muito se tem escrito, e eu próprio no DN várias vezes abordei a questão da relevância geopolítica da base, mas em 2021 tive oportunidade de finalmente a conhecer por dentro junto com o repórter fotográfico Leonardo Negrão. O título da reportagem foi "Os Açores serão sempre de grande valia para a América. Um "porta-aviões" no meio do Atlântico" e sem a ajuda de Ricky, pelo lado americano, e da aspirante Marta Costa, da Força Aérea Portuguesa, esta não teria acontecido. Ainda me recordo de irmos ao café-restaurante Ocean View, que se esforça por ter um ar de América, seja para uns matarem saudades de casa, seja para outros experimentarem um pouco o que foi o ambiente de outrora na base, quando eram milhares os americanos e famílias a viver na Terceira. Os pratos do dia eram então Chicken Wing Special e pizza.."Continuo a ser, com muito orgulho, um funcionário das Forças dos EUA nos Açores. Antes de ser eleito para a câmara, era o Chefe das Relações Públicas para o destacamento Americano na Base Aérea Nº4. Estou em licença sem vencimento. Quando acabar a minha missão política, espero voltar às minhas funções na base", explica Ricky, que diz sempre ter gostado do que fazia, nomeadamente a ponte entre os americanos, de passagem, e a população terceirense. "Enquanto Chefe das Relações Públicas para o 65th Air Base Group tinha que garantir que todos compreendiam a nossa missão. A relação que os Americanos têm com a população terceirense já vem de há mais de 80 anos. Esta vertente do trabalho era fácil mas nas relações institucionais onde há sempre mudanças de liderança é importante que prevaleça o diálogo, transparência e compreensão entre todas as partes. Muito importante também é a relação com as famílias dos militares americanos que não os acompanham para a ilha Terceira. Através de redes sociais, vídeos, é muito importante que a família perceba que a missão nas Lajes é importante e os seus familiares estão a dar um contributo para um mundo melhor. A parceria feita entre a Força Aérea Americana e a Força Aérea Portuguesa é uma das melhores no mundo"..Quando pergunto sobre a importância das Lajes, o luso-canadiano assume que vai dar uma opinião tendenciosa. Que seja: "vi de muito perto as missões que passavam por lá. As Lajes nunca perderam a sua importância. Houve foi uma forma nova de projetar forças mais eficientes através do Agile Combat Employment (ACE). No ramo militar é importante continuar a evoluir e tornar os processos mais eficientes para estarmos sempre um passo à frente do adversário. Um dos destaques enquanto Chefe das Relações Públicas foram as missões dos bombardeiros furtivos B-2 Spirit que eu acompanhei de perto quando paravam na Base. A questão é simples, se a base das Lajes não fosse importante, uma aeronave daquela magnitude nunca teria parado aqui. É importante reforçar a importância da missão da Força Aérea Portuguesa na Base das Lajes, seja através do Comando da Zona Aérea dos Açores ou a Base Aérea N.º 4. São fundamentais para a população Açoriana e a segurança no Atlântico"..Foi graças a Ricky que não só conversei agora com o número dois da base, o tenente-coronel Shawn Littleton, como combinei com este uma entrevista inspirada por um ensaio académico que o militar americano publicou online. Ou seja, por momentos, o papel de relações públicas ressurgiu, embora informalmente. E o resultado desta segunda colaboração de Ricky com o DN foi já este verão a publicação de uma entrevista intitulada "As Lajes são a base estrategicamente mais significativa a que os EUA têm acesso na Europa"..Se a base é a base, e fora trocadilhos, Ricky tenciona voltar à sua base, o que o levou então a esta experiência na política local? "Oficialmente, fui apresentado à política pela primeira vez quando a Dra. Andreia Vasconcelos, atualmente Diretora Regional de Solidariedade Social do governo regional dos Açores, me convidou para ser o número 2 na sua candidatura à Câmara da Praia da Vitória em 2017, pelo CDS-PP. Aceitei o convite e gostei da experiência da campanha", responde Ricky. Que acrescenta : "Oficiosamente, a minha introdução à política aconteceu durante a minha passagem como membro da Comissão Representativa dos Trabalhadores na Base das Lajes. O comité não era filiado politicamente, mas precisava ter muitos contactos políticos para exercer influência. Depois, em 2021, a Dra. Andreia Vasconcelos convidou-me para representar o CDS-PP na candidatura de coligação com o PPD-PSD. Aceitei o convite e ganhámos as eleições". A presidente da câmara é Vânia Ferreira..Ricky sublinha que ter um trabalho ao qual pode regressar lhe dá uma grande liberdade e também paz de espírito: "Acredito que, para que a política funcione bem, precisa de pessoas que não precisam da política. O impacto que um eleito tem na comunidade é motivo de grande motivação e é algo de que gosto muito. O segredo é sermos dedicados a uma causa, firmes nos nossos valores e abertos ao diálogo e às diferentes opiniões. É um desafio diário. Reconheço esse desafio, pois ajuda-me a reafirmar a minha visão para o futuro e para a forma como gostaria de ver sociedade a funcionar"..Sobre ideologias políticas, e se se identifica com alguma, a resposta é mais vaga, mas percebe-se que a experiência de vida no Canadá e o contacto estreito com os EUA via militares têm influência: "Em primeiro lugar a minha missão como autarca é servir a nossa comunidade. Claramente que tenho de pensar como é que o poder local pode ajudar os cidadãos. A inovação nunca pode ser travada mas sim incentivada. Nem sempre as coisas correm como nós planeamos, mas eu sou defensor de que não há ninguém melhor para impulsionar a economia, criar riqueza e melhorar a sociedade do que os próprios cidadãos.".Praia da Vitória partilha a ilha com Angra do Heroísmo, cidade património mundial, mas tem também a sua beleza e um charme especial pela extensa praia que lhe dá nome, com "Vitória" a ser uma distinção de D. Maria II pelo contributo da terra para a causa liberal, pois nela chegou a ser travada uma batalha que resultou na derrota dos absolutistas. "Como representante do município fui várias vezes convidado para dizer algumas palavras a grupos que vieram de diferentes países como o programa ERAMUS+. A minha linha de introdução é simples e direta "Welcome to Praia da Vitória, the best municipality in the Autonomous region of the Azores!" E assim se pode descrever Praia da Vitória. Uma cidade onde como já referi, se pode ver um dos mais sofisticados aviões do mundo e ao mesmo tempo ver um senhor a andar de burro. Um lugar onde o novo mundo coexiste com o velho mundo que produz um calidoscópio de cores e beleza que enche os olhos e, mais importante, a alma. Embora eu adorasse descrever o município da Praia da Vitória, a realidade é que ela precisa ser sentida. Venham conhecer a Praia da Vitória", lança o número dois da autarquia..O mandato vai até 2025 mas os planos de Ricky não têm datas rígidas: "Como já disse, tenho toda a intenção de voltar à base. Fundamentalmente, é uma das razões pelas quais entrei na política. Precisamos de pessoas na política que estejam prontas para contribuir para uma sociedade melhor e isso só pode ser feito por pessoas que serviram em outras funções. Sinto que tenho um bom percurso antes de entrar na política, academicamente e no setor privado. Essas experiências ajudam-me a enquadrar os problemas que encontramos e ajudam a encontrar soluções. Se o meu regresso à base será após este mandato de 4 anos ou, por algum motivo, será mais longo do que isso, não posso responder. De momento, não me vejo como um político de carreira. No final a decisão vai ser sempre do eleitor, é ele quem tem a palavra final se eu continuo ou não!".O apoio da família foi essencial para Ricky assumir o desafio político. Conversamos sobre a reação: "Bem, começando com o meu filho, ele tem quatro anos e não está na idade de entender totalmente a minha profissão. Ele só pergunta à minha esposa onde estou, quando não estou em casa. E faz questão que eu esteja presente no Dia do Pai! A minha filha, que já tem nove anos, entendeu que eu mudaria de emprego temporariamente. Disse-lhe que precisava da sua compreensão porque o que eu estava a tentar fazer era trabalhar para criar um futuro melhor para ela e para o seu irmão. Ela entendeu e tem apoiado muito as minhas responsabilidades, embora refira frequentemente que "o pai desde que entrou para a câmara nunca mais esteve presente na festa do seu aniversário". Quanto à minha esposa, a Diana, de todas as pessoas na minha vida, ela foi quem mais se sacrificou. Por falta de um termo melhor, ela tem sido o suporte da família e entende o meu desejo de retribuir à comunidade"..Despedimo-nos voltando ao tema da figura pública, pois nesta cerimónia nas Lajes Ricky esteve lado a lado com o seu colega autarca de Angra do Heroísmo, Álamo de Menezes, também com o vice-presidente do governo regional, Artur Lima, e ainda os dirigentes do Clube de Exploradores de Nova Iorque e Manuel Vaz, da Expanding e criador do conceito Glex, além do comandante da base e outros militares. É uma exposição pública a que vai procurando adaptar-se, sem se deslumbrar: "Quando fui eleito, fui tomado por sentimentos de humildade e responsabilidade. O dia em que eu perder esses sentimentos, é o dia em que devo deixar o cargo. Desde que assumi este cargo, tem sido uma aprendizagem constante. Não esperava a atenção que ser vice-presidente de uma câmara traz. Respeito profundamente o cargo que ocupo, o título que tenho e a instituição que represento. É da maior importância para mim estar disponível para ouvir as preocupações dos nossos cidadãos, pois essa é uma das principais razões para ser eleito. Posso não ser capaz de satisfazer todos os pedidos, mas isso é uma parte importante de governar, fazer escolhas difíceis. Esforço-me para tomar as melhores decisões baseadas em informações possíveis", diz. À saída, passamos por uma fotografia de 2003 onde estão o presidente americano George W. Bush e os primeiros-ministros britânico, espanhol e português. Um testemunho da cimeira em que Bush - juntamente com Tony Blair, José Maria Aznar e José Manuel Durão Barroso - decidiu avançar com a guerra no Iraque, que derrubou o regime de Saddam Hussein. Um dos muitos acontecimentos que têm marcado a história da Base das Lajes, criada no final da Segunda Guerra Mundial..leonidio.ferreira@dn.pt