"Os portugueses são muito criativos na solução de problemas"

Fundador da plataforma líder em segurança informática para sistemas de finanças descentralizadas (DeFI), a viver em Portugal, elogia a qualidade dos engenheiros nacionais. E tenciona recrutar mais, agora que angariou mais de 4 milhões de euros para a sua Immunefi

Cerca de duas semanas após ter angariado 5,5 milhões de dólares (4,7 milhões de euros) em financiamento para a sua empresa, Mitchell Amador é um homem otimista: com o futuro da sua empresa, a Immunefi, líder de bug bounty - "caça de erros" informáticos - e serviços de segurança digital em plataformas de finanças descentralizadas (DeFI); e com o futuro do setor em que trabalha, a chamada Web3, o mundo das criptomedas e do blockchain.

Talvez alguma explicação seja necessária. Sucintamente, se a chamada Web 2.0 foi a internet das redes sociais, a Web 3.0 é a rede onde se criam e transacionam criptomoedas, como a famosa Bitcoin e outras, que existem apenas no mundo digital. Estas redes são totalmente descentralizadas, isto é, não existe uma autoridade, um utilizador ou máquina que vale mais do que os outros. E aqui se trocam valores digitais que ascendem aos biliões.

Fazem-se nestas redes praticamente todas as operações comuns nos mercados financeiros "normais", entre as várias moedas digitais existentes. É isto o DeFI - Decentralized Finances. Mas o software utilizado é livre, desenvolvido pela comunidade, e alguém tem de caçar os erros que, inevitavelmente, todos os programas informáticos contêm. Esta é uma das funções da Immunefi, que atualmente protege mais de 50 biliões de dólares em fundos de utilizadores, fundada por Mitchell Amador, o atual presidente, juntamente com Duncan Townsend e Travin Keith, em parte porque Amador sentiu que os seus próprios investimentos em DeFI estavam mal protegidos.

Uma das estratégias adotadas, com êxito, pela Immunefi foi a de trabalhar diretamente com white hackers - "piratas bons" - que descobrem os problemas de software mas em lugar de pedir recompensas às vítimas avisam os potenciais visados de que eles existem. Outro, claro, é contratar os melhores técnicos. Especialmente neste último caso, Portugal é um terreno fértil para contratações. Ainda que...

É "problemático" recrutar em Portugal

"Recrutar em Portugal é bastante problemático", diz Amador ao DN, numa entrevista por e-mail. E explica porquê: "Há engenheiros fantásticos aqui, o que pode tornar o processo de contratação muito competitivo. As melhores empresas em Portugal recrutam talento logo à saída da universidade e têm relações diretas com os professores e nós estamos a competir com elas."

Conseguindo - atualmente tem a tempo inteiro três especialistas portugueses e recorre a outros independentes -, Amador garante que gosta de trabalhar com os especialistas formados cá. "Descobri que os engenheiros portugueses são muito criativos na resolução de problemas. São capazes de usar seja o que for que tiverem à mão para criar uma solução e, desde que funcione, já é bom. Isto é muito útil para a expedição rápida", afirma.

Mas se o bom e velho "espírito do desenrasca" aplicado ao século XXI é uma mais-valia - "Eles conseguem fazer muito com recursos limitados, o que é crucial num ambiente de startup, onde o dinheiro é sempre limitado" -, a formação adquirida é altamente elogiada: "Os engenheiros portugueses possuem, além do mais, excelentes competências técnicas. Os alunos do Instituto Superior Técnico e da Universidade do Minho, em particular, demonstraram ser altamente qualificados."

"Portugal tem uma cultura excelente, um ótimo clima e está cheio de gente de valor. Isso, para mim, é mais importante do que viver num polo fintech."

Esta preferência pelo país acabou por se transmitir para a sua vida pessoal. Apesar de ter nascido em Vancouver, Canadá (filho de pais portugueses), Amador decidiu viver em Portugal. Afinal, Portugal, diz, "tem uma cultura excelente, um ótimo clima e está cheio de gente de valor. Isso, para mim, é mais importante do que viver num polo fintech".

A Immunefi, essa, está sediada em Singapura. Os seus colaboradores estão espalhados um pouco por todo o mundo. Os tais 4,7 milhões de euros angariados recentemente, "em cerca de um mês", segundo Amador, serão gastos "quase totalmente em contratação de pessoal, neste ano".

Mas é preciso ter sempre presente uma coisa: "A maior parte dos white hackers que trabalham connosco são caçadores de bugs e nós não precisamos de os contratar para trabalhar com eles. É como agentes livres que fazem o seu trabalho mais valioso para a comunidade." Cada um, individualmente, de uma forma, claro está, descentralizada. Para ajudar a criar algo de novo. Afinal, "o ambiente de cibersegurança da Web 3 ainda só está a começar."

"Rui Pinto parece ser um hacker muito talentoso"

Provavelmente o mais conhecido "pirata informático" nacional, Rui Pinto surge na conversa, quando lhe perguntamos se este encaixaria na categoria dos white hackers que a Immunefi poderia aproveitar: "Rui Pinto parece ser um hacker muito talentoso", considera Mitchell Amador. "É muito típico os white hackers de chapéu branco terem convicções éticas muito fortes, mas desconheço se ele tem quaisquer aptidões de DeFi e só contratamos hackers peritos em DeFi."

ricardo.s.ferreira@dn.pt

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