José Sócrates, principal arguido na Operação Marquês, está novamente sem advogado. Sara Leitão Moreira pediu esta terça-feira, 24 de fevereiro, em audiência de julgamento, renúncia com efeitos imediatos por considerar que não lhe foi dado tempo suficiente para preparar a defesa do antigo primeiro-ministro. Para fazer face às renúncias sucessivas de mandatários de Sócrates, o tribunal ordenou que a Ordem dos Advogados seja notificada para nomear um defensor para o antigo governante, tendo interrompido, em seguida, o julgamento, sem data para ser retomado."Uma vez que a situação de renúncias sucessivas ao mandato por parte da mesma defesa prejudica de sobremaneira a realização da justiça, a fim de assegurar a continuidade da audiência sem mais sobressaltos, entende-se justificar-se a nomeação de defensor especificamente para os presentes autos pelo tempo necessário, para garantir os direitos de defesa [de José Sócrates]", sustentou a presidente do coletivo de juízes, Susana Seca.A advogada, que tinha sido nomeada há cerca de duas semanas, pediu cinco meses para se inteirar do processo, mas o tribunal concedeu dez dias para o fazer, o que Sara Leitão Moreira considera ser insuficiente. "Se não me deixam fazer o meu trabalho, eu não estou aqui a fazer nada (...). Eu não sou um figurante", disse aos jornalistas, no Campus da Justiça. "Um advogado para fazer o seu trabalho tem de ter meios e tempo necessários para o fazer. Não tendo, a única via possível é não compactuar com denegação da justiça", argumentou. "Neste momento, estamos perante uma situação de denegação da justiça", acrescentou Sara Leitão Moreira, a terceira advogada de Sócrates, depois de José Preto e Pedro Delille, que também renunciaram.Sara Leitão Moreira disse ainda que um "advogado não se verga, luta pelos direitos dos seus constituintes, por uma aplicação justa e adequada da lei". "Para mim, não é isso que está a acontecer. Pelo menos não foi isso que aconteceu comigo", declarou a advogada, referindo, no entanto, que acredita na justiça.A advogada tinha pedido cinco meses para se inteirar do processo, mas, a 9 de fevereiro, a presidente do coletivo de juízes, Susana Seca, concedeu apenas 10 dias e marcou o reinício do julgamento para esta terça-feira.Na sequência desta decisão, Sara Leitão Moreira interpôs, na segunda-feira (23), recurso da decisão, tendo, no início da audiência de hoje, solicitado ao tribunal que se pronunciasse sobre a admissão da contestação, o que foi remetido pelas juízas para momento oportuno. Na resposta, a defensora apresentou a renúncia à defesa de José Sócrates."O mandato nos presentes autos foi aceite de forma, livre e consciente. […] Contudo, em momento algum foi colocada a possibilidade de o tribunal violar o direito […] ao acesso a um processo justo e equitativo", justificou Sara Leitão Moreira, que abandonou a sala mesmo depois de ter sido informada de que a renúncia só se efetivaria quando o seu cliente fosse notificado.A saída da sala de audiências originou uma participação à Ordem dos Advogados por parte do tribunal, para apuramento de uma eventual infração disciplinar.Sara Leitão Moreira considerou o prazo de 10 dias "manifestamente insuficiente" e uma "afronta aos direitos fundamentais", referindo-se ao processo Marquês como tendo uma "monumental composição" e "especialíssima complexidade", segundo a CNN Portugal.À saída do tribunal, quando questionada sobre o que tinha conseguido ler do processo Marquês, a advogada respondeu que foi "muita coisa, mas ao mesmo tempo nada que seja relevante na monstruosidade que é este processo".Sara Leitão Moreira sucedeu na defesa do antigo primeiro-ministro a João Araújo, falecido em 2020, e a Pedro Delille e a José Preto, que renunciaram ao mandato em, respetivamente, 4 de novembro de 2025 e 13 de janeiro de 2026.Esta é a terceira vez que o julgamento é interrompido devido à renúncia de um advogado de José Sócrates, que desde meados de setembro tem estado ausente das audiências, com a autorização do tribunal e tal como os restantes arguidos.Nas duas ocasiões anteriores, o ex-governante foi representado em várias sessões por um advogado oficioso, tendo a defensora de escala chamada hoje e estado presente apenas para que o tribunal determinasse a notificação da Ordem dos Advogados para designar um mandatário.José Sócrates, de 68 anos, está pronunciado (acusado após instrução) de 22 crimes, incluindo três de corrupção, por ter, alegadamente, recebido dinheiro para beneficiar o grupo Lena, o Grupo Espírito Santo (GES) e o 'resort' algarvio de Vale do Lobo.No total, o processo conta com 21 arguidos, que têm, em geral, negado a prática dos 117 crimes económico-financeiros que globalmente lhes são imputados.Os ilícitos terão sido praticados entre 2005 e 2014 e, no primeiro semestre deste ano, podem prescrever, segundo o tribunal, os crimes de corrupção mais antigos, relacionados com Vale do Lobo. Com Lusa