Explicação aos pássaros: durante muitos anos, os brancos nascidos em Angola, como o meu pai, tinham um Bilhete de Identidade onde, na raça, eram identificados como brancos de segunda. Depois, o mar à nossa volta. A baía, a ilha, a Samba, o Mussulo, o Morro dos Veados, a foz do Cuanza, os picnics com imensa gente, as águas quentes e cristalinas, o pôr-do-sol que só existe em África, as chuvadas torrenciais. Em seguida, os cheiros: a maresia, a peixe, a marisco, a fruta, todo o tipo de fruta, e as árvores nos quintais, mamoeiros que cresciam disparados para o céu, bananeiras, pitangueiras, mangueiras, cajueiros. Os animais: pastores alemães, cágados, coelhos, pombos, saguins, chimpanzés. As acácias, com as suas flores vermelhas, que delimitavam várias ruas e foram motivo de tantos poetas. O convívio constante, nas casas de uns e de outros. As festas, onde se convidavam 80 e apareciam 120. O futebol nos Coqueiros, o Sporingué, o basquetebol, o andebol, o hóquei, o atletismo..Finalmente, a universidade. A consciência política. O Centro Cultural. Os filmes e as suas mensagens. O Jornal Mural. A luta pela independência. As cisões entre universitários. A guerra civil. Os tiros, as granadas, as bazukas, as rajadas, as bombas, os mortos, a falta de água, de luz, de comida. O cheiro a morte, a pólvora, a chumbo. Sair de casa agachado com a inconsciência de desconhecer que se podia não voltar. Tudo por fazer. Um país novo a construir. E melhor, muito melhor do que aquele que existia. Até que o sonho se desfez..Cheguei a Portugal no dia 28 de outubro de 1975. Vim num avião que tinha ido buscar os funcionários da Shell e apanhei boleia com três amigos. Estávamos a ser perseguidos e ameaçados publicamente. Chegámos à conclusão de que não era o país com que sonhávamos que iria nascer depois de 11 de novembro. Outros amigos decidiram ficar. Foram presos, torturados, uns enlouqueceram, outros morreram, outros ainda, felizmente, sobreviveram e têm trajetos pessoais e profissionais de indiscutível sucesso em Portugal..Como era essa Angola que já não existe? Penso que está retratada num poema que escrevi há vários anos intitulado Bilhete de Identidade. Nasci branco de segunda Calcinhas ou kaluanda Nasci com os pés no mar Em São Paulo de Loanda Brinquei de pé descalço Em poças de águas castanhas Tive lagartas da caça Não escapei às matacanhas Comi manga sape-sape Fruta-pinha tamarindo Mamão a gente roubava No quintal do velho Zindo Pirolito que pega nos dentes Baleizão, paracuca E carrinhos de rolamentos Numa corrida maluca Tinha o Gelo, tinha a Biker Miramar e Colonial O Ferrovia, o Marítimo Chás dançantes no Tropical O N’Gola era só ritmo O Liceu uma lenda Kimuezo e Teta Lando E os Ases do Prenda Havia velhas que fumavam E velhos com ar de sábio Enquanto novas músicas Se insinuavam na rádio “E a cidade é linda É de bem querer A minha cidade é linda Hei-de amá-la até morrer” Quem não estudou no Salvador? Quem não se lembra do Videira? E das garinas de bata branca Nossas colegas de carteira? Depois havia o Kinaxixe Futebol era nos Coqueiros Havia praias, um mar quente Savanas imensas, imbondeiros E havia o som do vento O cheiro da terra molhada As chuvas arrasadoras O fogo das queimadas E havia todos os loucos Do progresso e da guerra A Joana Maluca, o Gasparito A desgraça daquela terra Nasci branco de segunda Calcinhas ou kaluanda Nasci com os pés no mar Em São Paulo de Loanda Depoimento recolhido por Alexandra Tavares-Teles