Objetos que mudam de cor e cheiram a rosas ou chocolate

Imagine objetos cor de laranja, feitos de tecido ou de papel, em forma de coração que, de repente, mudam para branco com o calor ou o toque e cheiram a rosas

Brincar com as cores é o que Gabriela Jobim, investigadora do Centro de Ciência e Tecnologia Têxtil da Universidade do Minho, em Guimarães, propõe com a sua inovação. A designer têxtil criou uma paleta própria de cores sensoriais, com inúmeras e infinitas possibilidades de alterações cromáticas, aromas e aplicações.

"Crio cores sensoriais que mudam ao toque. O verde fica amarelo, branco, cinzento, ou rosa; o lilás muda para azul ou rosa; o castanho passa a laranja ou vermelho", refere a também artista plástica.

Para melhor entender, imaginemos, por exemplo, uma flor vermelha, feita de tecido. Gabriela Jobim criou este objeto com esta tonalidade que, quando exposta ao calor de um secador, ou ao calor da mão, muda para amarelo. "Tudo depende do pigmento que coloquei quando criei a cor", explica. É tão simples quanto isto: "O fenómeno de mudança de tonalidade é causado pelo estímulo externo." Gabriela adiciona depois uma fragrância nos materiais crómicos através de microcápsulas. "Quando aplicado no objeto, o aroma só exala ao toque, quando as microcápsulas explodem pela pressão das mãos". Ou seja, não vai cheirar nada se apenas tentar cheirar o objeto. Tem de o tocar para sentir o aroma. Um objeto pode ter fragrância de flor, de fruta e até de chocolate. Neste caso em concreto, a flor vermelha de tecido, esta foi criada para ter fragrância de morango.

Gabriela Jobim diz que pode criar um aroma próprio, como marca sensorial de uma marca ou empresa, por exemplo. Sempre que faz uma demonstração pública dos materiais, a investigadora dá aos participantes uma pequena amostra, como por exemplo, corações cor de laranja, feitos de papel ou de tecido, que mudam para branco e cheiram a rosas. Ou borboletas azuis, também de tecido ou de papel, que ficam brancas e cheiram a maçã. Ou ainda um tecido verde, com a forma de uma maçã, por exemplo, que muda para vermelho e expele uma fragrância da flor rosa se tocado.

A também especialista em design emocional está, assim, a investigar as "potencialidades de materiais sensoriais e interativos em superfícies". Explica que os materiais inteligentes, que usa nas superfícies têxteis dos objetos que cria, possibilitam alterações de cores através da interação, gerando novas informações sensoriais aos utilizadores. Por material inteligente entenda-se aquele que "responde de forma controlada ou prevista aos estímulos do meio ambiente, alterando as suas propriedades materiais, geometria, propriedades mecânicas ou eletromagnéticas".

Desde vestuário, têxteis-lar, papel, polímeros, resinas, acrílicos, madeira, cimento e peles, as cores sensoriais podem ser aplicadas nos mais variados suportes. "Nem todos reagem da mesma forma, e a aplicação e experimentação em diversos materiais acaba por ser mais uma forma de pesquisa em design experimental".

Gabriela Jobim aproveitou para investigar o comportamento humano e os sentidos. Concluiu que o cheiro tem uma forte influência nas sensações das pessoas e é um fator importante de motivação no comportamento humano. Afeta áreas do cérebro que trabalham com as emoções, memórias, sentimentos e motivação, que pode levar a uma resposta comportamental específica. Mais, explica, "cromismo significa mudança reversível de cores e, por extensão, de uma mudança reversível de outras propriedades físicas. Devido às propriedades de mudança de cor, os materiais crómicos são chamados de materiais camaleão".

A investigadora está a desenvolver testes com as cores sensoriais em objetos, nos laboratórios do "Perception, Interaction and Usability", espaço de investigação aplicada do Centro de Computação Gráfica, da Universidade do Minho. É constituído por uma equipa vocacionada para o estudo do ser humano, o seu comportamento, adaptação e interação com o mundo à sua volta.

"Desenhar o Amor"

"O projeto que talvez me dê mais prazer é um pessoal e voluntário que desenvolvo nas escolas", conta a investigadora da Universidade do Minho. Gabriela Jobim chamou-o de "Desenhar o Amor". Faz uma demonstração das cores sensoriais e, de uma forma abstrata, fala de cores e amores. As crianças experimentam o disco das cores e um catálogo Pantone. Visualizam imagens de objetos, pessoas, famílias, natureza, animais e atividades. E desenham, através de cores e aromas, o que entendem ser o amor. "Criamos as cores sensoriais juntos, e isso já é uma grande alegria".

Gabriela Jobim já criou, no Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima de 2013, um jardim sensorial e interativo, que foi visitado por 120 mil pessoas. Aqui expôs metades de maçãs, desenvolvidas em impressão 3d, que coloriu e aromatizou. A mostra acabou por se transformar num laboratório para a investigadora testar os materiais em diversos suportes. Os visitantes podiam ver a alteração visual cromática e sentir o cheio a maçã. "Tinham um código que, via telemóvel, permitia ouvir músicas ou ler mensagens".

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