O cônsul insubordinado que salvou mais de 30 mil judeus da morte

Três dos netos de Aristides de Sousa Mendes fizeram a viagem de homenagem ao avô e falam do orgulho que sentem

Estima-se que Aristides de Sousa Mendes tenha salvo mais de 30 mil judeus. "Talvez a maior ação de salvamento feita por uma só pessoa durante o holocausto", refere o site da Fundação Aristides de Sousa Mendes. Existem duas: uma em Portugal criada sobretudo pela família e outra nos Estados Unidos que surgiu pela mão de um dos netos, Sebastian, mas também de sobreviventes e familiares destes.

"Nasceu no quintal do Sebastian. A Lissy foi a primeira presidente", diz Mariana Abrantes de Sousa, que se divide entre Portugal e Nova Iorque e está ligada à Fundação. Curiosamente é da mesma zona de Aristides, Cabanas do Viriato (Viseu), mas só em 1986 soube a história daquela família. "A carreira do colégio dava duas vezes a volta à casa do Passal. Ninguém falava daquela casa que estava em ruínas. Só nos Estados Unidos soube a história da minha terra", conta.

Sebastian - Sebastião em português, seguindo o nome do pai (10.º filho de Aristides e da mulher Maria Angelina) - não conheceu o avô, mas cresceu a ouvir os feitos de um homem que contra tudo e contra todos salvou milhares e acabou na miséria, castigado pelo seu governo por causa disso. "Desde muito pequeno que o meu pai contava com muito orgulho a história do meu avô. Em 1951 escreveu um livro sobre o pai: "Flight through Hell" (Voo pelo Inferno em tradução literal). Mandou-lho para ele lhe dar a opinião", recorda. Isso foi três anos antes de o cônsul morrer e já o pai de Sebastian vivia há muito nos Estados Unidos, país pelo qual lutou em 1943.

"Sei que o meu avô tinha muito orgulho de representar Portugal e de ter salvo os refugiados. Era advogado, conhecia bem a constituição. Era uma pessoa muito humana e o que fez foi qualquer coisa como desobediência é ética", diz, assumindo que esta, embora não sendo a primeira, tem sido uma viagem muito emocional. "E todos os dias se torna mais um pouco à medida que vamos conhecendo a história de cada um".

É casado com uma lusodescendente e tem um filho: Gabriel Aristides Duarte. Aristides como o bisavô. Um nome difícil de dizer? "Um bom nome para aprender", remata. Gabriel, agora estudante universitário, fez para a escola um projeto sobre o bisavô. Sebastian reforça a simbologia do avô "tão importante" numa altura em que milhares de refugiados fogem da guerra, a mesma mensagem que o Gerad, outro neto de Aristides, faz questão de afirmar.

António Mendes conheceu o avô e lembra-se bem dos tempos difíceis que a família passou depois de Salazar o ter mandado vir para Lisboa e aplicar-lhe um processo disciplinar por incumprimento da circular 14: proibia a emissão de vistos a judeus. Aristides emitiu milhares e mandou fazê-lo de forma indiscriminada e sem custos. Foi impedido de seguir a vida diplomática, de praticar advocacia e sem direito à reforma.

"Ele morreu quando eu tinha cinco anos. Sempre tive uma imagem forte, de carinho. Era muito simpático. Uma das últimas imagens que tenho foi de ir a casa dele, em Cabanas do Viriato, com a minha mãe e levar uns pastéis de nata. E ele apareceu à janela", recorda. António, a mãe e o pai (o sexto dos 14 filhos de Aristides) viviam em Portugal. "A vida foi complicada. Salazar não proibiu nada [referindo-se à informação que os filhos de Aristides tinham sido impedidos de frequentar o ensino superior em Portugal], criava sim um ambiente de medo e de pouca simpatia para com determinadas famílias", diz, lamentando as portas que se fecharam quando o pai dizia o seu nome à procura de um trabalho.

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