O cientista original e divulgador improvável que se tornou um ícone

Stephen Hawking sobreviveu 50 anos a um diagnóstico fatal e fez da vida um exemplo de estudo, de investigação e de plenitude, a que não faltou o humor

Juntou várias áreas da física que estavam separadas, como a cosmologia e a termodinâmica, popularizou esses objetos tão misteriosos que são os buracos negros e ainda teve ideias novas sobre eles, escreveu um dos livros mais famosos de sempre, "Breve história do Tempo", que vendeu mais de 20 milhões de exemplares em todo o mundo e, sobretudo, limitado como estava, numa cadeira de rodas há décadas, sem poder proferir uma palavra de forma natural devido à doença, foi um dos maiores comunicadores de ciência dos nossos tempos e conseguiu ainda viver uma vida cheia. Até ontem. Stephen Hawking tinha 76 anos.

Formado em física, na Universidade de Oxford, o jovem Hawking, então com 21 anos, tinha acabado de entrar na Universidade de Cambridge, para se doutorar em cosmologia e relatividade geral, quando o destino lhe pregou a mais amarga das partidas: o diagnóstico de uma doença neurodegenerativa progressiva e fatal, a esclerose lateral amiotrófica. Os médicos deram-lhe cinco anos de vida. "As minhas expectativas foram reduzidas para zero aos 21 anos", recordou ele numa entrevista ao The New York Times em 2004, para concluir: "Tudo desde então é um bónus." E ele aproveitou de forma exemplar esse bónus, que acabou por se prolongar por mais 50 anos, apesar de todas as limitações físicas - no final já só mexia poucos músculos.

"Vivi cinco décadas mais do que os médicos haviam predito", disse no documentário "Hawking", exibido em 2013. E explicou: "Tentei fazer bom uso do meu tempo", "porque todos os dias podem ser o meu último, desejo tirar o máximo de cada minuto".

Com uma mente fervilhante e original, aprofundou os estudos da física, ligando áreas que estavam separadas, como a cosmologia e a termodinâmica, por exemplo, escreveu livros de divulgação científica para o grande público , que os acolheu de mãos abertas, casou-se por duas vezes, teve três filhos, viajou, deu conferências, e fez questão de testar os próprios limites. Como em 2007, com a NASA, num voo parabólico que cria as condições de gravidade zero a bordo de Boeing 727 transformado e que serve justamente para esse treino dos astronautas.

Na altura, a sua foto, com "o maior sorriso que podia ter", como ele próprio disse, correu mundo e Hawking não poupou palavras. Para ele, que estava confinado a uma cadeira de rodas desde 1974, e que desde 1986 já só comunicava através de um sintetizador de fala, a experiência foi de "verdadeira liberdade" e acrescentou: "Fui um super-homem naqueles minutos."

Dez anos depois, no ano passado, o físico britânico anunciou uma nova aventura. Com esta iria mais longe, ao espaço, depois de ter aceitado um convite de Richard Branson para viajar num voo da Virgin Galactic, que fará voos suborbitais (não chegam a entrar em órbita, mas chegam a uma altitude que já é considerada "espaço") para turistas. A viagem, porém, não chegou a concretizar-se.

O físico português Carlos Fiolhais, que coordenou a tradução portuguesa do seu "Aos Ombros de Gigantes, As Grandes Obras da Física e Astronomia" (Texto Editores) e escreveu a sua introdução, e que para a coleção Ciência Aberta, da Gradiva, escolheu também algumas das suas obras, como a sua autobiografia "Uma Breve História de Mim", lembra o cientista, mas também o homem e o comunicador de ciência "improvável", que foi Stephen Hawking. "Tinha tudo contra si, mas conseguiu tornar-se um ícone da divulgação científica", sublinha.

Para Carlos Fiolhais, o grande legado de Stephen Hawking foi a forma "como entrou nas nossas vidas", não apenas como o cientista "original" que foi, mas sobretudo como "um grande comunicador de ciência, talvez o maior dos nossos tempos", como afirmou ao DN.

"Apesar de todas as limitações, e contra todas as impossibilidades que a doença lhe parecia prometer, contra todas as hipóteses, conseguiu comunicar como poucos", diz o físico da Universidade de Coimbra . "Quem diria, que alguém que não podia falar seria o maior porta-voz da ciência", nota, sublinhando que o físico britânico deixa também a "mensagem humana", de que, apesar das circunstâncias e dos problemas, "temos de viver a vida o melhor que pudermos e, mesmo nas maiores contrariedades", tal como Hawking fez, "saber tirar o melhor da vida".

Por todo o houve mundo houve reações de pesar e homenagens. Dos cientistas aos políticos, passando pela sua universidade, todos recordaram ontem a sua mente brilhante, o seu humor e o seu exemplo.

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