Número de diplomadas é muito superior mas as reitoras ainda são uma exceção

Mulheres dominam no Ensino Superior, tanto entre os diplomados como nos doutoramentos. Área da Educação domina as preferências, com uma diferença mínima para a Saúde e Proteção Social.

Em 2019 (última atualização do site Pordata), do universo de 83.193 diplomados, quase 50 mil eram mulheres, contra cerca de 33 mil homens. Há mais de 30 anos que Portugal tem mais mulheres licenciadas do que homens. Nos doutoramentos, a tendência é a mesma. Nos últimos dez anos, o número de mulheres com o grau mais elevado no Ensino Superior também é superior ao dos homens. Estão, ainda, em maioria nos laboratórios do Estado e superam os homens como investigadoras nas instituições de ensino superior. O nosso país tem conseguido, assim, superar a média europeia. Num estudo publicado em 2018 pela Comissão Europeia, Portugal era o segundo país da UE com mais investigadoras a trabalhar no Estado (60%), ficando apenas atrás da Estónia.

Este ano letivo 2020/2021, dos 396.909 alunos matriculados no Ensino Superior, 214.731 são mulheres. Das áreas frequentadas, o Ensino é onde se encontram mais mulheres, com uma diferença mínima para a Saúde, apesar de haver cada vez mais inscritas em cursos das áreas de ciências e engenharia. Contudo, apesar de haver mais mulheres com o título de doutoradas, são os homens que ocupam maior número de lugares na docência no Ensino Superior. Os professores do sexo masculino são mais de 19 mil, enquanto as mulheres ainda não chegaram às 16 mil. Nos cargos de liderança das instituições de Ensino Superior há também um desequilíbrio. Segundo dados de 2020, do projeto europeu SAGE (Systemic Action for Gender), entre os trinta presidentes ou reitores das universidades e politécnicos portugueses, apenas cinco são mulheres (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Universidade Católica Portuguesa, Universidade Aberta, Universidade de Évora e Instituto Politécnico do Cávado e Ave) e só um em cada quatro professores catedráticos é do sexo feminino. Números que se refletem num registo de apenas 13% de mulheres reitoras ou presidentes de um instituto politécnico.

Caminho mais "penoso" para as mulheres

Madalena Sofia Oliveira, investigadora e docente no ensino superior, com doutoramento na especialidade da Psicologia (linha de investigação em vitimologia), tem uma carreira consolidada, conseguida com muito sacrifício. "Engravidei durante o processo de doutoramento e só concluí esse processo quando a minha filha tinha três anos. Foi um processo penoso, pois conciliar a atividade laboral e o projeto de doutoramento com a maternidade demonstrou ser um dos meus maiores desafios enquanto mãe e profissional. Portanto, se todo o processo de doutoramento é tumultuoso e angustiante, associá-lo à maternidade torna-o altamente desafiante. Atualmente, continuo a dividir-me entre a docência a investigação, numa tentativa concertada entre a vida profissional e pessoal, o que por vezes se revela uma tarefa hercúlea.", sublinha. Para a docente, "a pandemia veio agudizar ainda mais esta situação, ao transformar o lugar casa num espaço comum de tarefas", estando, "num momento a dar aulas, no momento seguinte a tratar de roupas, a fazer investigação ou a orientar e apoiar a filha".

Madalena Sofia Oliveira diz ainda sentir claras desigualdades de género. "Ainda continuam demasiado enraizadas na sociedade as assimetrias de género, pois se é verdade que as mulheres acedem em maior número ao ensino superior e existem simultaneamente mais mulheres doutoradas em Portugal, os cargos de chefia continuam a ser maioritariamente ocupados por homens", salienta. Para a docente, "esta situação verifica-se na academia, nas empresas e na política". "Se é certo que ao longo das últimas décadas temos assistido a algumas mudanças legislativas importantes, a verdade é que a tão almejada igualdade continua muito aquém do desejado", refere.

Madalena Sofia Oliveira vai mais longe e afirma haver mais mulheres a executar "mais trabalho não remunerado" do que homens. "No que concerne ao exercício das tarefas domésticas, as mulheres continuam a auferir por tarefas iguais às dos homens valores inferiores pelo seu trabalho. As mulheres continuam a ser as mais violentadas nas relações de intimidade, mais assediadas no contexto laboral e sexual e as raparigas as mais abusadas sexualmente. E isto deve-se à cultura do poder do género masculino sobre o feminino", conta. A doutorada espera que o Dia da Mulher, que hoje se assinala, "sirva para alertar e consciencializar a sociedade civil que os direitos das mulheres são direitos humanos". "A única coisa que as mulheres ambicionam é ter direitos iguais, é garantir equidade nas contratações, nos lugares a que temos direito por mérito e não que sejamos discriminadas só em razão do nosso género", conclui.

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