Neurocientistas viram em direto o cérebro a aprender

Equipa de Rui Costa desvendou o processo neuronal. Descoberta pode ajudar no futuro pessoas com perturbações obsessivo-compulsivas e de adição

É uma situação familiar: aprendemos a jogar um jogo de vídeo, por exemplo, e há uma sensação de satisfação à medida que vamos evoluindo naquilo. O cérebro funciona assim mesmo: retira prazer do simples facto de aprender coisas novas e é por isso que tendemos a repetir a as ações que nos levam até lá. Já se sabia que era assim, e a psicologia até lhe deu um nome - é o princípio de Thorndike, segundo o qual as ações que produzem reforços positivos são repetidas mais vezes. Agora um grupo de neurocientistas, que inclui o português Rui Costa, da Fundação Champalimaud, deu mais um passo e conseguiu ver isto pela primeira vez a acontecer no cérebro de ratinhos.

A equipa observou este tipo de padrões neuronais em ação, numa situação de aprendizagem por repetição, e verificou que há ao mesmo tempo a libertação, por parte dos neurónios, de uma substância chamada dopamina, também chamada a hormona da recompensa, porque induz no cérebro uma sensação de prazer, ou recompensa.

"Não é segredo para ninguém que temos prazer em fazer coisas das quais gostamos, como jogar o nosso jogo de vídeo favorito", diz Rui Costa, citado num comunicado da Fundação Champalimaud. Os resultados do estudo, que são hoje publicados na revista Science, "revelam que o cérebro aprende a selecionar os padrões de atividade que produzem sensações de bem-estar e que se remodela para reproduzir esses padrões de forma mais eficiente", sublinha o neurocientista.

No anterior trabalho da equipa, já emergia esta tendência. Como explica outro dos autores, José Carmena, da Universidade da Califórnia, já se tinha observado, "através de um modelo de interface cérebro-máquina, que os padrões de atividade neural que levam a uma recompensa são repetidos mais vezes", explica José Carmena.

No trabalho que publicam hoje, os investigadores mostram como conseguir reproduzir estes padrões neurais de repetição, associando uma determinada sequência de sons musicais à administração de dopamina nos ratinhos.

Os novos dados podem "permitir explicar como funciona a aprendizagem por repetição", diz Rui Costa, mas não é tudo. Para o neurocientista, isto poderá trazer também uma nova luz e uma nova abordagem aos comportamentos obsessivo-compulsivos (anormalmente repetitivos) ou de adição, "em que o circuito de feedback que liga a ação à recompensa fica descontrolado". A equipa já está, por isso, a trabalhar nesse sentido, diz Rui Costa, especificamente no desenvolvimento "de um programa de computador que possa ajudar a treinar o cérebro para diminuir a frequência de padrões repetitivos", quando eles estão descontrolados.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG