"É como se o sismo tivesse sido ontem"

Jovens portugueses angariam fundos para reconstruir vila com 222 casas, um hospital e uma escola nos Hilamaias

25 de abril de 2015. Um sismo de intensidade 7.8 na escala de Richter atingia o Nepal. Mais de quatro milhões de pessoas afetadas, mais de cinco mil mortos, milhares de feridos. Um ano depois, "é como se o terramoto tivesse sido ontem". Ainda há muito a fazer e é por isso que os portugueses Pedro Queirós, Lourenço Macedo Santos e Maria da Paz Braga continuam no país. Os fundadores da Associação Obrigada Portugal ajudaram milhares de nepaleses com bens de primeira necessidade, casas, um campo de deslocados. E concentram agora energias no Our Dream Village, A Nossa Vila de Sonho".
Pedro e Lourenço estavam no Nepal quando o terramoto aconteceu. Quando decidiram ficar, criaram o movimento Obrigada Portugal, ao qual Maria da Paz se juntou. Começaram com o projeto de ajuda imediata. "Fornecemos alimentos e outros bens a mais de 50 mil nepaleses nas regiões mais afetadas", recorda Pedro Queirós. À conta bancária do voluntário chegaram 120 mil euros para ajudar o Nepal, 90% provenientes de Portugal.
Numa segunda fase, perceberam que era preciso "reconstruir o país", pois havia "milhões de nepaleses a morar em abrigos. Uma situação de calamidade que ainda se mantém". Chegaram a um modelo de casas semipermanentes, "que defendiam a dignidade humana." Em seis meses, construíram 22 habitações antissísmicas, que atualmente são modelos para outros países. Com a ajuda da comunidade e "um esforço físico e psicológico sobre-humano" terminaram o projeto.
Na mesma altura em que começou o projeto Saudade, foi criado o Campo Esperança. Estávamos a 16 de maio, recorda Lourenço, e tinham chegado a Katmandu 350 pessoas resgatadas dos Himalaias "só com a roupa que tinham no corpo". Na capital do país, os portugueses construíram um campo de refugiados com a ajuda dos mesmos, uma espécie de "vila comunitária", que ainda se mantém. Mais do que infraestruturas, ocupá-los era uma preocupação: as crianças com aulas e os com adultos workshops.
Com vontade de fazer mais, os portugueses passaram de movimento a associação em novembro. "Para trabalhar de forma transparente e legal", justifica Maria da Paz. Our Village Dream é o projeto mais recente. "Consiste em recolocar 1200 pessoas em 222 casas permanentes nos Himalaias", explica a voluntária. O estudo geológico está feito, mas são precisos cerca de cinco milhões de euros. Para isso, procuram a ajuda de empresas e organizações, bem como de muitos anónimos, que até aqui fizeram a diferença. Até ao momento, já reuniram um milhão em materiais e 600 mil euros em numerário.
Em Portugal, têm sido feitas várias ações para ajudar o projeto. Amanhã, um motociclista português começa uma viagem de 11 mil quilómetros, entre o Algarve e Katmandu, para recolher fundos para ajudar as vítimas. Artur Brito, de 54 anos, que perdeu uma perna num acidente de moto, deverá chegar ao Nepal a 10 de junho, Dia de Portugal.
Um ano depois do terramoto, "a situação está igual". Melhorou em Katmandu, mas a parte rural continua destruída. Os portugueses - que "exportaram solidariedade" - sentem que mudaram a vida de muitas pessoas. O compromisso, dizem, é continuar a fazer a diferença no Nepal e, quem sabe, noutras partes do mundo. Recentemente, um sismo de intensidade semelhante atingiu o Equador. "E se fosse em Portugal?", questionam.

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