"Não está de todo descartada a hipótese de uma colonização de Marte"

O jornalista Nuno Galopim, que em 2015 publicou o livro Somos "Todos Marcianos", explica o fascínio da humanidade pelo planeta vermelho e acredita que lá chegaremos.

Porque é que o Planeta Vermelho exerce um fascínio tão grande e tão antigo sobre a humanidade?

As razões são muito antigas e as mais remotas explicam-se pelo simples facto de Marte ser, como alguns outros planetas, visível a olho nu. Por ser um ponto vermelho, e por isso diferente dos outros planetas visíveis a olho nu, cativou atenções e suscitou desde logo a criação de primeiras ficções. Uma segunda razão tem que ver com o facto de estar próximo. Quando, no século XVII, o telescópio entra em cena e começamos a poder observar um pouco melhor aquele disco vermelho, começam a surgir as primeiras interpretações possíveis para as imagens que, com o progresso da ótica, se vão tornando mais nítidas nas observações de Marte.

O Nuno, sendo jornalista e crítico musical, escreveu em 2015 o livro Os Marcianos Somos Nós, dedicado a este planeta. De onde vem o seu fascínio particular por Marte?

O meu caso particular tem que ver com o [livro e série televisiva] Cosmos, do Carl Sagan, que dedicava um episódio inteiro a Marte, no qual se mostrava como a história de um planeta se podia contar com a ciência mas também com a ficção. A história da nossa relação com Marte faz-se não só com as descobertas científicas mas com as muitas ficções que ali foram projetadas. Foi a ficção sobre Marte que atraiu homens para a ciência, como o próprio Carl Sagan. E o conhecimento científico também foi moldando as ideias presentes nas ficções sobre Marte.

Há uma ideia que parece ser recorrente nas ficções em torno de Marte: a existência de vida naquele planeta, mais do que noutros do sistema solar...

Houve nas ficções fantásticas dos séculos XVIII e XIX muitos olhares sobre os outros planetas, tendo-os todos como habitados. Havia vida em todos os lados. Aos poucos, a ciência foi-os descartando. E Marte, por ter características mais semelhantes às nossas - pelo menos julgava-se isto até há um tempo - manteve-se. Mas as primeiras ficções fantásticas imaginam vida em todo o lado. Floras exuberantes, faunas bizarras. Ainda hoje, no presente, sobre a vida em Marte a única coisa que podemos dizer é: "Não sabemos." As possibilidades de vida microbiana, subterrânea ou no passado estão ainda à espera de poderem ser comprovadas ou refutadas. Se bem que essa não seja mais neste momento uma das prioridades dos programas científicos. Nem da própria ficção científica.

Nuno Galopim ficou fascinado com Marte depois de ter visto Cosmos, de Carl Sagan

Com a chegada a Marte de uma missão da Agência Espacial Europeia, sente-se um pouco mais marciano?

Sinto-me marciano sempre que uma sonda lá chega. Porque aos poucos o que estes programas estão a fazer é a lançar bases de estudo para um eventual futuro em que aquele mundo possa ser explorado: não está de todo descartada a hipótese de uma colonização. Pode acontecer. Se houver capacidade para economicamente produzir recursos em Marte, a colonização será possível. É claro que não se fala nisso e fala-se de missões tripuladas para o ano de 2030. Até ver, foi lá o Matt Damon e poucos mais.

Há empresas como a SpaceX a falar em turismo marciano. Inscrevia-se nessas viagens?

Não, de modo algum me inscreveria num programa privado: há uma diferença substancial entre um programa espacial oficial, científico, e uma organização privada. O lucro estará certamente como objetivo primário a garantir na iniciativa privada. O respeito e o cuidado pela vida dos intervenientes será uma prioridade das missões oficiais.

Então já não conta ir a Marte?

Não. Acho que já passei o limite de idade para me inscrever nestes programas oficiais.

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