"Na Europa, 15% das mortes estão relacionadas com fatores ambientais"

Roberto Bertolini é representante da Organização Mundial de Saúde na União Europeia e esteve em Portugal para a apresentação do doutoramento em saúde ambiental da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Falou ao DN dos desafios da Europa e do mundo

Trabalha junto da Comissão Europeia. O que está a ser feito para melhorar a saúde pública?
Na área do ambiente, há uma nova diretiva a ser discutida para as emissões das pequenas e médias empresas. É positivo, embora menos ambicioso do que poderia ser.
Contudo, não se está a fazer revisão dos índices de poluição de ar nas grandes cidades, por se considerar que é difícil fazer mais reduções e aumentaram as emissões dos carros, o que foi um pouco desencorajador. Há resistências na introdução de medidas mais restritivas nas áreas da indústria alimentar ou de bebidas. É outro tipo de problema.
A lógica dos governos é que ter um ambiente saudável é demasiado caro?
A lógica é mais conservadora. Não se muda o que se pensa que está a funcionar e não se quer ter mais despesas quando se pensa que se podem evitar. Mesmo que elas os tornem mais competitivos a médio/longo prazo. Os custos são um falso argumento porque, quando se olha para um orçamento regional ou nacional, o que se gasta na proteção ambiental é compensado pela redução dos custos com a saúde, absentismo, hospitalização. Estimamos que por um dólar gasto se poupam 42.
Como envolver as empresas?
Às vezes tomar algumas decisões dá avanços em competitividade tecnológica. As empresas deviam pensar nisso. Há ganhos em termos de visibilidade: mostram que estão à frente dos outros, que vão querer comprar essas tecnologias, que depois se tornam mais baratas. Temos de tentar convencer os governos a colocar regras possíveis de cumprir, implementá-las e desafiar a indústria. Isto pode ser uma vantagem a médio/longo prazo.
Em 2012 morreram 12 milhões de pessoas por causa da poluição ambiental. Correto?
Estes números são globais e correspondem a cerca de 22,7% do número total de mortes, o que é bastante elevado. Na Europa é um pouco diferente: 15% das mortes estão relacionados com fatores ambientais preveníveis, como a poluição, contaminação da água, exposição a químicos, fumo passivo. Quando falamos de doenças provocadas pelo ambiente falamos de enfartes, AVC, asma, doenças respiratórias. Não são doenças raras, mas sim situações comuns e por definição preveníveis.
O que é possível fazer para mudar esta realidade?
A poluição do ar tem descido desde a década de 1950 até 1970 na Europa, mas depois estabilizou. As políticas foram bem implementadas, mas tornaram-se menos eficientes porque a poluição mudou. E temos novos riscos, como as alterações climáticas. Há coisas que podem ser feitas em pouco tempo. Na poluição do ar, quando temos níveis muito altos de contaminação podemos parar o tráfego ou restringir a circulação. Os resultados são praticamente imediatos. É claro que uma coisa é reagir a eventos isolados, outra coisa é reduzir de base. Podemos agir sobre os motores, na forma como as pessoas se deslocam na cidade, promover atividade física. Nos químicos é mais complicado porque temos de encontrar alternativas não tóxicas.
É difícil convencer os governos?
No passado havia tecnologia, mas não tanta como agora. Também os efeitos das alterações climáticas se tornaram evidentes com mudanças drásticas de temperaturas. As pessoas estão mais conscientes dos riscos. É claro que existem grandes interesses que estão contra estas mudanças, como as companhias petrolíferas ou a exploração mineira. São forças contra por razões económicas, que têm, em alguns casos, apoio de grupos políticos com a ameaça de fechar fábricas e desemprego. O que não é necessariamente verdade, pois podemos ter opções menos poluentes e menos desemprego.
Quais serão os principais desafios nos próximos anos?
Os desafios mais importantes são as alterações climáticas e a poluição do ar. As duas estão relacionadas e, reduzindo uma, reduz-se a outra. Índia e China são no momento os principais poluidores, por serem uma população enorme. Penso que ambos os países têm a tecnologia e a capacidade. É uma questão de opção política entre proteger o ambiente ou continuar com uma enorme produção.
Há estimativa de vidas salvas com essa mudança?
Em teoria poderíamos salvar os 15% de mortes relacionadas com a poluição ambiental. É claro que é quase impossível reduzi-las na totalidade, mas acredito que num curto espaço de tempo seria possível reduzir esta proporção em 20% a 30%. Hoje em dia temos a tecnologia e os meios para produzir energia sustentável, embora não por completo até termos a totalidade da tecnologia necessária para eliminar por completo o uso de combustíveis fósseis. Essa é uma das questões mais importantes. As alterações climáticas existem e se queremos evitar maiores danos temos de nos próximos dez anos reduzir drasticamente as emissões.
É importante criar um doutoramento em saúde ambiental?
A saúde ambiental não é uma questão abordada pela medicina e a saúde pública também não aborda estes tópicos de forma moderna. Esta iniciativa portuguesa é muito boa e fico feliz por contribuir. Está a tentar colocar este tema num contexto moderno, preparando um grupo de profissionais que podem estar depois no setor público e na indústria. Não existem muitos projetos como este na Europa.

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