Movimento Vizinhos à Janela ganha prémio de solidariedade civil da UE

Começou como uma brincadeira no confinamento de março num bairro de Oeiras e rapidamente se tornou uma obra social. "Este prémio vai abrir portas e permitir ajudar mais pessoas", diz o mentor.

O movimento Vizinhos à Janela, uma iniciativa dos moradores do bairro do Jardim dos Arcos, em Oeiras, criado durante o confinamento em março de 2020, recebeu ontem o prémio Solidariedade Civil do Comité Económico e Social Europeu (CESE) na categoria ofertas culturais. Para o CESE, este movimento "constituiu um exemplo brilhante de notável responsabilidade cívica e solidariedade durante a crise da covid-19".

O CESE, órgão consultivo que representa a sociedade civil ao nível da União Europeia, selecionou o Vizinhos à Janela como o melhor candidato português. "Pela força agregadora da sua música, ajudou a transformar um simples bairro numa verdadeira comunidade de entreajuda", justificou o órgão. O movimento foi um dos 23 premiados a nível europeu, numa cerimónia de entrega virtual de prémios realizada ontem pelo CESE, onde cada vencedor recebeu 10 mil euros.

Por indicação de uma vizinha, que tem um sobrinho que trabalha na União Europeia, Íñigo Hurtado, 50 anos, um catalão que reside há mais de 20 em Portugal e que é o mentor deste movimento, resolveu candidatar-se ao prémio em agosto. "Li o regulamento e batia certo. Apresentei a candidatura, mas confesso que nunca pensei que poderíamos ganhar. Eu sou o mentor, mas há muita gente a trabalhar neste movimento que atualmente recolhe 300/400 quilos de alimentos por semana para ajudar pessoas mais carenciadas", contou ao DN.

"Isto começou com uma brincadeira no confinamento de março, quando duas vezes por dia íamos para a janela cantar e bater palmas. Depois em finais de março, princípios de abril, a junta de freguesia contactou-nos no sentido de saber se podíamos ajudar a angariar alimentos para pessoas mais necessitadas. Falei com a junta, fiquei sensibilizado, e aqui no bairro foi só uma questão de nos organizarmos nos vários prédios. Atualmente ajudamos várias associações que trabalham com grupos vulneráveis e temos a ajuda de muitas empresas, mercearias e restaurantes. Ou seja, isto tornou-se um movimento social sério", explicou Íñigo.

"Este prémio é um reconhecimento e uma enorme satisfação, mas é sobretudo importante pelas portas que vai permitir abrir para ajudar mais pessoas. Obviamente que o dinheiro vai ser na grande maioria canalizado para ajudar associações. Às vezes parecia que o nosso movimento ia morrer, mas isto agora é um novo empurrão para continuarmos", prosseguiu.

Além da ajuda às várias instituições que auxiliam, parte do prémio monetário ganho já tem um destino: "Entre nós vizinhos temos um sonho, que é organizar aqui na praceta uma grande festa quando isto tudo acabar. Não sei se ainda neste ano ou só em 2022. A ideia é fazer uma paelha para 300 pessoas e podermos todos confraternizar juntos à mesma mesa e não apenas à janela. Se serei eu a cozinhar? Sim, mas vou precisar de ajuda."

Da janela para a área social

O movimento Vizinhos à Janela surgiu durante o confinamento de março, de 2020 inspirado em exemplos que surgiam de Espanha e Itália. Impedidos de sair de casa, os moradores do pequeno bairro do Jardim dos Arcos, em Oeiras, começaram a juntar-se à janela durante 10 minutos em dois momentos do dia - às 14.00 e às 20.00 -, uma forma encontrada para descomprimirem durante alguns minutos.

Desde cantar o hino e bater palmas, a músicas populares portuguesas (Maria Albertina ou Menina Estás à Janela), passando simplesmente por bater tachos e panelas ou agitar bandeiras, aqueles 10 minutos duas vezes por dia eram como que um libertar de emoções numa altura em que todos estavam confinados em casa. Uma forma de o bairro combater o isolamento com música e solidariedade e alterar por alguns momentos as rotinas do confinamento.

O movimento foi ganhando adeptos (leia-se pessoas à janela), expressão e organização. Foi criado um grupo no WhatsApp onde os vizinhos começaram a falar e a combinar entre si programas para fazerem à janela. E o movimento ganhou também páginas nas redes sociais. Foi assim, por exemplo, que a uma determinada hora do dia passou a haver um concerto de violino à janela, gentileza de Ana Freitas, professora de Música. A originalidade do movimento ultrapassou o bairro e chamou a atenção dos órgãos de comunicação social. Algumas televisões portuguesas chegaram a fazer diretos e até foi alvo de uma reportagem da TVE. Até porque aquele divertimento à janela passou a ser mais do que isso, com homenagens aos profissionais de saúde, polícias, bombeiros, homens e mulheres que recolhem o lixo e outras profissões que mesmo com o confinamento continuaram a trabalhar.

Numa fase posterior, em finais de março, princípios de abril, os moradores organizaram-se e criaram um movimento social de ajuda a pessoas carenciadas, angariando alimentos para entregarem à União de Freguesias de Oeiras e São Julião da Barra, Paço de Arcos e Caxias para auxiliar associações como a Sol Fraterno, Casa da Criança de Tires e a Família Solidária de Oeiras.

Mas a parte lúdica não foi abandonada. "Ainda no fim de semana estivemos à janela. Pedi uma licença por causa do ruído e agora vamos todos para a janela duas vezes por dia, mas só às sextas, sábados e domingos. É preciso não deixar morrer esta união. Começámos numa rua e chegámos às cinco", conclui Iñigo.

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