Mochilas pesadas e postura errada não causam escoliose

Especialistas alertam para a necessidade de sensibilizar pais e comunidade educativa para a identificação da escoliose, um desvio da coluna vertebral cujas causas ainda não são conhecidas. Amanhã é o dia mundial desta doença

Aos 12 anos, Beatriz descobriu um pequeno inchaço nas costas, que achava ter surgido depois de andar num carrossel com movimentos mais bruscos. Uma radiografia viria a diagnosticar, no entanto, uma escoliose, deformidade tridimensional da coluna, com rotação e desvio em vários planos. "Quando vi o exame, fiquei assustada por perceber que a coluna dela estava tão torta, "uma acentuada escoliose dorso- lombar". Falou-se na hipótese de ser operada, e a inquietação era muita", recorda a mãe, Sofia, ao DN. Beatriz, agora com 19 anos, diz que "não tinha dores, mas sentia algum desconforto". A ideia de ser submetida a uma intervenção cirúrgica também a assustava, mas a escoliose "nunca progrediu muito", pelo que não foi necessário.

Beatriz nunca soube ao certo o que terá provocado a escoliose. Uma das hipóteses que lhe avançaram estava relacionada com o "crescimento abrupto" que teve no início da adolescência. Mas não há certezas. "Não sabemos a causa, mas há várias teorias", diz ao DN Nuno Neves, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Patologia da Coluna Vertebral (SPPCV). Nenhuma delas está, no entanto, relacionada com muitos dos mitos que existem. "As pessoas têm tendência a achar que as crianças ficam com a coluna deformada porque levam a mochila só de um dos lados. Está mais do que demonstrado que isso não acontece. Tal como está provado que as crianças não vão ficar com escoliose porque se sentam de forma indevida, levam pesos às costas ou fazem determinados exercícios físicos." Por não ser conhecida a causa, frisa, é que se chama escoliose idiopática.

Segundo Nuno Neves, é estimado que "até 10% da população tenha algum tipo de desvio da coluna, por mais pequeno que seja" e "2% tem escoliose". A idiopática - a mais frequente - geralmente é identificada na adolescência, quando o jovem ou os pais notam "uma deformidade, um desvio nas costas, um ombro mais alto do que o outro, ou uma omoplata mais saída". Existem ainda outros sinais como uma das ancas mais levantada, cintura desigual, inclinação do corpo para um dos lados e proeminência da grelha costal (bossa torácica) ao fletir a coluna para a frente. Estima-se que esta deformidade afete cerca de 2% a 3% dos adolescentes.

Por si só, é uma doença que não dói. "É muito importante que os pais e professores estejam atentos, porque a escoliose não dá sintomas e na fase inicial a deformidade é muito ligeira e difícil de identificar", afirma o especialista, destacando que o dia internacional da doença, que amanhã se comemora, serve precisamente para sensibilizar a população para o problema.

No caso de Beatriz, a deformidade, apesar de muito acentuada - uma curvatura perto do 40 graus - "não é muito evidente do ponto de vista estético", pelo que por vezes até se esquece que a sua coluna não é normal. "Tenho alguns cuidados a pegar em pesos e ficava um pouco desconfortável a fazer alguns exercícios de aquecimento nas aulas de dança", adianta a estudante da área de teatro. Nuno Neves reforça que "pode haver uma dificuldade acrescida em algum tipo de atividade física, mas na maior parte dos casos o impacto é mais estético no imediato e de degeneração da coluna vertebral a longo prazo".

Manuel Passarinho, médico ortopedista, esclarece que a escoliose idiopática "não é inclinação lateral da coluna, mas é um fenómeno de torção, que é progressivo até à idade em que acaba o crescimento". Quando há uma inclinação entre os 20 e os 35 graus, é necessário o uso de um colete "que é um tormento para os miúdos, porque tem de ser usado durante 23 horas".

A escoliose é uma doença que atinge sobretudo as raparigas e com impacto na autoestima, porque, como explica o coordenador da ortopedia do Hospital Cruz Vermelha, "existe uma torção marcada do tórax, há uma assimetria entre o lado direito e o lado esquerdo", que muitas vezes é visível nas mamas. Paralelamente, destaca Manuel Passarinho, "pode haver um problema funcional, porque os órgãos que estão dentro da cavidade torácica - pulmão, coração, grandes vasos - podem começar a ter restrições e a ser afetados". Quando a curvatura ultrapassa os 45 graus, tal como quando há dor constante ou falência do tratamento conservador (fisioterapia e colete), "há indicação cirúrgica".

Muitas vezes, destaca Manuel Passarinho, há uma confusão entre "atitudes escolióticas, que não têm nada que ver com a doença, e a escoliose". Nestes casos, explica, "há uma inclinação lateral da coluna, mas não há torção. Esta está relacionada com atitudes posturais incorretas mantidas e continuadas, mochilas extremamente pesadas, posição de sentar, alteração dos grupos musculares. Mas é perfeitamente reversível".

Existem, ainda, escolioses neuromusculares, de progressão rápida, geralmente associadas a outras doenças, como a neurofibromatose, vários tipos de doença neuromuscular, paralisia cerebral.

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