"Exaustos", médicos de família escrevem carta aberta aos portugueses

Profissionais exigem estratégia para os doentes não-covid-19 e queixam-se de "exaustão" pelo "excesso de tarefas que inclui muitos fins de semana e feriados"

"Deixem-nos ser Médicos de Família". É com este apelo que os médicos de família iniciam uma carta aberta dirigida aos portuguesas e à qual o DN teve acesso.

No documento, os médicos de família alertam que durante a pandemia "se verificou um aumento da mortalidade por outras doenças" que não a covid-19 e que se realizaram menos 13,5 milhões de contactos presenciais médicos e de enfermagem nos Cuidados de Saúde Primários.

"Os médicos de família e outros profissionais de saúde têm sido permanente e continuamente mobilizados para tarefas relacionadas com a pandemia, sem possibilidade de responder às normais necessidades de saúde dos cidadãos que se viram desprotegidos no acesso aos Centros de Saúde, e daí a todo o Serviço Nacional de Saúde", pode ler-se.

Na carta, estes profissionais avisam que, devido à mobilização dirigida "aos 9% da população que até agora tiveram contacto com o vírus", "os Centros de Saúde estão desertificados e sem capacidade de reação ou de antecipação face às necessidades da população".

Os médicos de família questionam porque é que o Ministério de Saúde não definiu "qualquer estratégia exequível" para os doentes não covid-19. "Onde está a universalidade de cuidados? Questionamos porque é que se mantém o mesmo modelo desde há meses, não se adaptando à situação atual da evolução da pandemia. Onde está a personalização de cuidados? Questionamos porque é que nada foi feito para garantir a prestação de cuidados de saúde a todos os nossos doentes, na prevenção e no tratamento de doenças. Onde está a globalidade de cuidados? Questionamos porque é que todas as unidades do país têm de responder aos mesmos objetivos e nos mesmos procedimentos sem o necessário ajustamento local. Onde está a autonomia das Unidades de Saúde? Questionamos porque continuamos a ter um conjunto alargado e não comunicante de aplicações informáticas que obrigam a duplicar (por vezes triplicar!) o trabalho de registo. Os sistemas de informação servem mesmo para simplificar o trabalho?", prosseguem.

Estes profissionais queixam-se de "exaustão" pelo "excesso de tarefas que inclui muitos fins de semana e feriados" e de a sua voz ser ignorada "por quem tem o poder de decisão". "Há que alocar outros profissionais, abrir contratações e mudar o modelo de abordagem de combate à pandemia. Há que reabrir os Centros de Saúde em pleno, com adaptações locais se necessárias, e deixar os Médicos de Família fazerem o que sabem fazer bem. Queremos voltar ao normal e continuar a defender os nossos doentes, a orientá-los no sistema de saúde, a conseguir um planeamento eficaz, a retomar a acessibilidade aos cuidados e às nossas funções enquanto Médicos de Família, em todas as fases da vida, do nascimento até à morte!", exigem.

"Há que encontrar um equilíbrio que nos permita cuidar de todos os doentes. Conhecemos claramente os nossos deveres para com os cidadãos que em nós confiam. Exigimos as condições para o podermos continuar a fazer, tratando e cuidando de quem mais necessita, na doença e na saúde. Estamos aqui e continuamos disponíveis para ser parte da solução e não do problema. Os nossos doentes sabem que podem sempre contar com os seus Médicos de Família. Assim saibam todos", concluíram.

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