Juntos pelo mar a recolher lixo em Sesimbra

O mar não é infinito mas durante demasiado tempo foi considerado como tal. Este sábado, uma gigantesca operação de limpeza subaquática procurou alertar a comunidade para a urgência de uma nova atitude.

De farda azul, com o símbolo da Guinness World Records bem visível no casaco, o jovem fiscal, enviado a Sesimbra por esta organização, acompanha desde o início os preparativos para o que se propõe ser uma gigantesca operação de limpeza subaquática. São oito horas da primeira manhã deste Outono e, junto ao clube naval daquela vila costeira, a azáfama é grande, com centenas de mergulhadores a dirigirem-se às respetivas embarcações, munidos com sacos para recolha de lixo. O grande objetivo da jornada é tentar bater o recorde mundial do número de mergulhadores a participar numa operação com esta finalidade, que pertencia desde 2019, à Florida, nos Estados Unidos, onde foi possível reunir 633 voluntários em 24 horas. Aqui a meta proposta é chegar aos 700, sendo que às primeiras horas da manhã as inscrições já ultrapassavam o meio milhar.

Feito o primeiro briefing do dia, os barcos levam os mergulhadores para o porto de abrigo, junto ao molhe, onde há uma profundidade de 11 metros. Na popa do barco em que seguem também os jornalistas, Pedro Oliveira, da Haliotis, uma das escolas de mergulho participantes, vai dizendo que já viu aparecer de tudo um pouco neste tipo de operações, desde frigoríficos a bicicletas, passando por algo muito mais pequeno, mas extremamente tóxico como são as pilhas que usamos numa infinidade de brinquedos e utensílios domésticos. "Durante muito tempo as pessoas pensavam que o mar era infinito e que o que lá se lançava, pura e simplesmente desaparecia", desabafa.

A confirmar tais considerandos, após meia hora de mergulho, os participantes trazem para bordo um autêntico cemitério de garrafas e garrafões de plástico a que se somam um pneu, restos de uma rede de pesca, a retranca de um barco e - pasme-se - peças dum aspirador. Mas o trabalho está longe de concluído. A bordo, uma das mergulhadoras, munida dum canivete, procura devolver ao mar (e à vida) os pequenos organismos que fizeram deste lixo sua casa, desde anémonas a minúsculos cavalos-marinhos.

Embora "a possibilidade de entrar para o Guinness seja um aliciante extra, não é a principal motivação", diz ao DN Flávia Silva, da Fundação Oceano Azul. Com efeito, esta ação, realizada este sábado em Sesimbra, faz parte das celebrações do Dia Internacional da Limpeza Costeira, assinalado desde há 4 anos no terceiro sábado de setembro. Em 2022, o dia transformou-se numa semana inteira (entre 17 e 25 de setembro), com ações de limpeza em Portugal de Norte a Sul incluindo os Açores e Madeira. O primeiro balanço, salienta ainda Flávia Silva, "é muito positivo, com a participação de todo o tipo de organizações, de centros de mergulho, organizações não-governamentais, associações ambientalistas, empresas, autarquias, clubes desportivos, embaixadas estrangeiras ou escolas, num total de 150 atividades registadas, quer de limpeza costeira, quer de recolha subaquática."

Fundamental é também a função pedagógica de iniciativas como esta. Ao longo desta semana, por todo o país participaram em ações de limpeza cerca de 3500 alunos do 1.º ciclo, sem esquecer os meninos das zonas sem mar, como frisa ainda Flávia Silva: "Nestes casos, fizeram ações de limpeza em rios e ribeiros porque o lixo deixado ali acaba, fatalmente, no mar".

Recorde-se que, no âmbito da semana de limpeza de praia realizada em Portugal desde 2019, já foram recolhidas 192 toneladas de lixo marinho em aproximadamente 1.250 ações de limpeza costeira. Mas nem só os números maus são impressionantes. Nestes trabalhos já estiveram envolvidos quase 24 mil voluntários e 250 organizações.

dnot@dn.pt

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