Alex Rosen: "Ir a Chernobyl é turismo de risco"

O pediatra alemão Alex Rosen tem-se dedicado a investigar as consequências para a saúde do desastre na central nuclear ucraniana. Trinta anos depois da explosão, aponta o dedo ao governo russo pelo "secretismo"

Hoje cumpre-se o 30.º aniversário do acidente de Chernobyl. O que são trinta anos para a radiação?

Trinta anos, para uma catástrofe nuclear, é só o princípio. Mesmo que a memória das pessoas falhe acerca do que aconteceu em Chernobyl, o legado radioativo permanece. O grande problema da radiação é que as pessoas não a conseguem ver, nem cheirar, nem sentir o sabor, nem ouvir, é isso que a torna também tão assustadora.

Mas parece que o susto compensa, há excursões organizadas não só à central nuclear de Chernobyl como às imediações.

Autêntico turismo de risco. Se é seguro lá ir? Bom, se olharmos para o que as pessoas lá vão fazer, são conduzidas pelas ruas principais que já foram limpas e aconselhadas a não saírem desse percurso. Nesse sentido, acredito que a maior parte dos tours organizados sejam relativamente seguros. Mas é preciso ter em atenção que, apesar de as ruas estarem limpas, se houver vento que empurre o isótopo radioativo Césio 137 das florestas à volta, das folhas, ou das ervas, então há o risco de contaminação. Quem parte para essa viagem vai para uma zona perigosa, à qual os ucranianos chamam "zona morta" de Chernobyl. Eu não aconselharia os meus pacientes a irem, principalmente os mais jovens. A radioatividade não funciona instantaneamente, alguém exposto a uma pequena quantidade pode não adoecer de imediato, mas quanto maior for a exposição, o tempo e a dose, maiores são os riscos. Na minha opinião ir a Chernobyl em turismo é uma ideia estúpida.

Continuam a notar-se as consequências na saúde da população?

Foram muitos os afetados pelo desastre de Chernobyl. Milhares de pessoas tiveram de abandonar as suas casas porque estavam expostas a quantidades enormes de radiação. Outras viviam em cidades que não foram evacuadas, como Gomel ou Mogilev na Bielorrússia. Sabemos que essas pessoas, principalmente as que nessa altura eram crianças ou adolescentes, têm maior risco, não só de sofrerem cancro da tiroide, como cancro da mama, próstata, cólon ou cancro de pele. Também aumenta o risco de doenças cardiovasculares, problemas hormonais, doenças do foro psiquiátrico, cataratas, impotência, no caso dos homens e esterilidade, no caso das mulheres. Tudo isto aparece em proporção à quantidade de radiação recebida. Por exemplo, numa região onde caiu bastante chuva radioativa em Maio de 1986, é mais provável encontrar todas estas patologias que noutra que tenha recebido menos. É muito difícil associar diretamente um caso de cancro a Chernobyl, estas doenças não trazem uma etiqueta de origem, mas podemos basear-nos nas estatísticas.

E nos bebés?

As mutações nos genes causavam más formações ou doenças genéticas como síndrome de down, que aumentou muito em 1987. Não aconteceu só na antiga União Soviética mas também aqui, em Berlim. No ano a seguir ao desastre de Chernobyl os pacientes com a doença triplicaram. Também cresceu o número de abortos, a mortalidade nos recém-nascidos, e nasceram muito menos meninas que meninos (os embriões femininos são mais sensíveis aos efeitos da radiação). Se não olharmos só para a Rússia, Bielorrússia ou Ucrânia mas sim para toda a Europa, podemos perguntar-nos: quantas famílias terão sido afetadas por Chernobyl sem sequer saberem? O que também não aparece em nenhuma estatística é que muitas mulheres, por medo que os filhos sofressem estes problemas, decidiram interromper a gravidez.

Vai ser algum dia possível contabilizar o número de vítimas diretas ou indiretas, perceber qual o alcance deste desastre?

Temo que não. E por várias razões: Os indicadores que poderiam servir para medir os níveis de exposição à radiação nunca foram calculados. Na antiga União Soviética houve um grande secretismo em torno deste assunto, muitos indicadores foram até falsificados. Houve 800 mil pessoas que ajudaram nas limpezas da radiação, muitos eram militares do exército vermelho (do Uzbequistão, Cazaquistão, Sibéria). Foram enviadas para Chernobyl durante uma semana e depois mandados de volta para casa. Nunca foram medidas, nunca foram avaliadas por um médico. Sobre a saúde dessas pessoas não sabemos nada. Depois há muita informação que permanece guardada em arquivos, na Rússia, mas que não é analisada porque não há vontade política. Aquele país promove a energia nuclear e não tem qualquer interesse em que estes dados saiam à luz. Para já só temos estimativas. Se nos perguntarem quantos casos de cancro esperamos de Chernobyl, nós respondemos: largos milhares.

O mundo está agora mais consciente do impacto do nuclear, depois dos desastres de Chernobyl e Fukushima?

Eu gostava de acreditar que sim. Vejo que alguns países, como a Alemanha, são agora abertamente contra o nuclear. A China, por exemplo, não tem uma posição muito definida mas tem investido cada vez mais em energias renováveis. E depois, infelizmente, temos outros países como a França que permanecem convictos de que se ganha com a energia nuclear. Mas com tantos avanços tecnológicos, porquê ainda acreditar nesta forma obsoleta, cara e arriscada?

Berlim

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