IPO de Lisboa evita quimioterapia com teste a genes do cancro da mama

Testes genómicos são realizados num grupo específico de pacientes em quem o benefício do tratamento, após a cirurgia, oferece dúvidas aos médicos. Esta análise permite evitar efeitos secundários e custos hospitalares

O Instituto Português de Oncologia de Lisboa tem conseguido evitar que algumas dezenas de mulheres sejam submetidas a tratamentos de quimioterapia, graças ao estudo dos genes dos tumores extraídos da mama. Efetuados desde agosto de 2015 a um grupo específico de doentes, os testes genómicos evitam, assim, os efeitos secundários da quimioterapia, bem como despesas hospitalares desnecessárias.

O IPO Lisboa diz que foi "o primeiro centro português a utilizar um teste genómico para avaliar a necessidade de realizar quimioterapia adjuvante em doentes com cancro da mama cujo benefício da quimioterapia suscita dúvidas". Depois de terem sido apresentados e premiados em vários congressos nacionais, os resultados vão ser apresentados na próxima quinta-feira, dia em que Nadia Harbeck, médica e investigadora do Centro da Mama da Universidade de Munique, estará no IPO Lisboa para falar sobre testes genómicos.

Margarida Brito, do Serviço de Oncologia Médica do IPO Lisboa, explicou ao DN que existe "um protocolo de utilização de teste genómico para um subgrupo específico de doentes com cancro da mama", de acordo com o qual já foram pedidos 90 testes. "Esta abordagem permitiu não realizar quimioterapia em 69% das doentes sendo que, na ausência de teste genómico, a proposta seria realizar quimioterapia", frisou.

Anualmente são atendidas 900 a mil doentes com cancro da mama no IPO Lisboa (em Portugal surgem cerca de seis mil novos casos por ano) e, regra geral, todas fazem cirurgia. Mas pouco mais de 50% fazem quimioterapia. Umas não necessitam, outras oferecem dúvidas. Segundo a oncologista, o teste "é atualmente indicado apenas nas doentes com cancro da mama localizado recém-submetidas a cirurgia mamária, em que os critérios clínico-patológicos que classicamente são usados para definir o risco de ressurgimento do tumor, como seja por exemplo o tamanho do tumor na mama, oferecem dúvidas face ao beneficio de propor quimioterapia após a cirurgia". Para as doentes que se encontram nessa "área cinzenta", os médicos pedem os testes genómicos. "Se o teste evidenciar que o tumor tem alto risco de ressurgir a proposta de tratamento inclui quimioterapia, se o tumor for de baixo risco, não há indicação para realizar quimioterapia", esclarece.

Saudade André, anatomopatologista no IPO Lisboa, indica que os testes "analisam tecido do carcinoma da mama, obtido por biopsia ou por excisão cirúrgica e previamente processado para permitir o diagnóstico anatomopatológico", dependendo o número de genes estudados do teste usado. "O resultado é numérico e o valor obtido correlaciona-se com a probabilidade de recidiva da doença e com o benefício de adicionar quimioterapia à terapêutica da doente", afirma.

Evitar a quimioterapia, diz Margarida Brito, é "evitar efeitos secundários importantes tanto agudos como a longo prazo e pode ter impacto em outras questões como na redução de custos hospitalares e produtividade laboral dos doentes". Por outro lado, prossegue, na situação contrária, "os testes genómicos permitirem identificar tumores de alto risco que beneficiam com quimioterapia e cujo plano inicial não incluía fazer este tratamento".

Dois mil euros cada teste

Neste momento já existem alguns testes no mercado, e o valor ronda os dois mil euros por unidade. Um preço elevado, assume Margarida Brito, "porque estes testes realmente implicam tecnologias morosas e complexas". Em alguns casos, as amostras de tumores têm de ser enviadas para outros países para ser analisadas. "De alguma forma para isto pode também contribuir o facto de a quantidade de testes genómicos validados e comercializados ser ainda curta, o que torna a opção de escolha mais limitada."

O teste genómico feito no IPO Lisboa foi, segundo Saudade André, um dos primeiros a ser comercializados, razão pela qual se designa por "por assinatura genómica de primeira geração". E tem "nível de evidência 1", que "é o nível de evidência mais rigorosa, baseada em ensaios clínicos randomizados e controlados".

Na opinião da anatomopatologista no IPO Lisboa, não se pode falar de uma revolução no tratamento do cancro da mama. "Trata-se de um avanço na decisão terapêutica de determinados doentes, baseado na informação genómica dos tumores que a evolução tecnológica tem permitido obter nos últimos anos. Trata-se de complementar a decisão terapêutica do carcinoma da mama em casos específicos, de modo a torná-la mais personalizada, nomeadamente evitando a utilização da quimioterapia em doentes em que esta, no estado da arte atual, não se justifica."

Por agora, só as doentes com cancro da mama podem beneficiar destes testes. "Ainda só se encontram validados para o cancro da mama, mas existe investigação a decorrer em vários outros tipos de cancro, como cólon, próstata, pulmão, etc.", adianta Margarida Brito.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG