Os primeiros 'detetores de cancro'. Da molécula até ao homem

Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde da Universidade de Coimbra faz obra pioneira na produção e distribuição de radiofármacos

Antero e Francisco têm um lema simples, "da molécula até ao homem". Mas essa é uma longa viagem, desde o acelerador de partículas instalado numa "caixa-forte" num piso subterrâneo do Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (ICNAS) da Universidade de Coimbra até ao momento em que os radiofármacos ali criados chegam ao destinatário final. Esses medicamentos de diagnóstico ("detetores de cancro", numa definição simplista), de cariz inovador e distribuídos para hospitais de todo o país, são a face mais visível do trabalho pioneiro do ICNAS, que também investe na investigação e trabalha no desenvolvimento de radiofármacos para outros tipos de doenças.

"Pi-pi-pi-pi-pi": a pesada porta da "caixa-forte" que guarda o ciclotrão (acelerador de partículas) abre--se ao som de um estridente aviso sonoro, ao mesmo tempo que os investigadores Antero Abrunhosa (diretor de produção e responsável pelo Laboratório de Radioquímica) e Francisco Alves (físico-chefe do ciclotrão) mostram ao DN a joia da coroa do ICNAS. É ali, numa sala isolada por dois metros de betão por todos os lados para proteger da radioatividade, que os radiofármacos nascem. "Esta atividade tem três grandes passos: primeiro, fazer um átomo radioativo; depois, ligar este átomo radioativo numa molécula; terceiro, administrar ao doente [para realização de um exame de diagnóstico, através de uma modalidade de imagem médica, como a TEP - Tomografia por Emissão de Positrões]. Aqui, aceleramos partículas a uma tamanha velocidade de energia que elas conseguem penetrar no núcleo e transformá-lo num átomo diferente, que é radioativo", descreve Francisco Alves.

Essa é a face visível do trabalho diário do ICNAS, onde desde 2012 já foram desenvolvidos cinco novos radiofármacos (medicamentos nunca antes produzidos em Portugal), para diagnóstico de vários tipos de cancros, da próstata a tumores ósseos ou neuroendócrinos. "Estes medicamentos não são simplesmente cópias de outros que existem lá. Todos eles contêm uma componente de investigação e de inovação. Somos os pais deles, fizemos o nosso próprio desenvolvimento", sublinha Antero Abrunhosa. "Para além desses cinco radiofármacos que temos no mercado, todos com formulações desenvolvidas aqui na Universidade de Coimbra [o primeiro foi fluordesoxiglicose-UC], temos outros 15 que são usados em contexto de investigação, em projetos que temos em curso", acrescenta o responsável.

Uma all win situation

A importância desse trabalho é clara: facilita o diagnóstico em qualquer utente (por permitir exames de grande precisão) e ajuda a baixar a conta paga pelo Serviço Nacional de Saúde (que deixa de ter de importar tais medicamentos do estrangeiro). "Um exame destes tem um impacto tremendo, porque tem uma qualidade de diagnóstico superior à de exames funcionais. Em vez de função, pode ver-se uma imagem morfológica, anatómica, em ação. Pode ver-se que uma célula é tumoral ainda antes de ver uma massa enorme tumoral", explica Francisco Alves, lembrando que o ICNAS distribui os radiofármacos que produz para todos os hospitais nacionais que fazem esse tipo de exames, com tomógrafo. Fez parte da nossa filosofia não só construir um centro de investigação para fazermos a nossa própria investigação mas também providenciar este serviço ao SNS ou às forças que precisam", sublinha.

"É uma all win situation [situação em que todos ganham]. Com as receitas da distribuição de radiofármacos nós temos dinheiro para sustentar e fazer mais investigação, ao mesmo tempo que colocamos no mercado nacional radiofármacos que o SNS pode comprar a um preço muito mais em conta, fazendo chegar a técnica a mais doentes. Este é um modelo de gestão sustentada da investigação que faz sentido", aponta Antero Abrunhosa, recordando o impacto que a simplificação da produção e distribuição de gálio-68 feita pelo ICNAS teve no acesso dos utentes aos cuidados de saúde. "Ao conseguir produzi-lo por um novo método, criámos um impacto real na clínica. Antes de o produzirmos, o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) tinha feito cerca de 100 exames num ano. Depois, os preços baixaram enormemente e, ao fim de seis meses, o CHUC já tinha duplicado os exames que fizera no ano anterior. Isso é algo que nos dá um gozo especial, estamos a possibilitar às pessoas o acesso aos diagnósticos e a fazer coisas que são de vanguarda a nível mundial", refere.

Distribuição por todo o pais

A maioria destes radiofármacos é extremamente sensível - tem um tempo de vida útil bastante curto, que leva a que alguns só possam ser utilizados nas próprias instalações do Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde (onde também se fazem exames de modalidades de imagem médicas como PET, ressonância magnética, TAC ou SPECT). No entanto, a otimização da formulação de alguns deles - como foi o caso do gálio-68 - já permite que sejam distribuídos pelas principais unidades hospitalares nacionais. "Temos uma equipa de distribuição (é uma empresa autónoma), com saídas às 06.00, às 09.00, às 10.30, às 13.00 e estamos a pensar criar uma às 15.00, e saem com estas caixinhas a distribuir pelo país todo", descreve Antero Abrunhosa, pegando numa das caixas "blindadas" que seguem diariamente com os radiofármacos.

Essa é, no fundo, a última etapa da viagem "da molécula até ao homem" (que Antero diz ser o lema da casa). Uma longa caminhada desde o início de uma investigação - setor onde o ICNAS já é uma referência, a ponto de receber muitos estrangeiros que vêm completar a formação com mestrados, doutoramentos e pós-docs - até produção e distribuição. "Não há muitos centros que tenham esta capacidade de produção. Nós já somos uma referência na área. É uma coisa que nos orgulha, obviamente", conclui o diretor de produção.

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