"O urso teve uma presença histórica muito importante no país"

Admirado pela alta nobreza e visto como um competidor pelos mais pobres, o urso pardo habitou Portugal durante séculos. Desapareceu em 1843, embora se pensasse que a sua extinção tinha ocorrido em 1650. Esta é, segundo Paulo Caetano, uma das muitas histórias contadas no livro Urso Pardo em Portugal - Crónica de uma extinção, que lançou com Miguel Brandão Pimenta.

Porquê um livro dedicado ao urso pardo?

Porque o urso é o grande predador, um predador mítico das florestas europeias. Teve uma presença histórica muito importante no país, mas sabia-se muito pouco sobre ele. Há mais de 50 anos que não existe um artigo científico de qualidade sobre a presença do urso. E nós sentimos que podíamos dar um contributo de investigação e de maior conhecimento sobre esta espécie.

O que é que se pode encontrar na publicação?

Nos três primeiros capítulos é feita a crónica da extinção. Ou seja, fazemos um retrato da presença do urso no território português, começando na pré-história, avançando pelo período romano, islâmico e alta Idade Média e entrando na história. Fomos aos documentos de foral e traçámos o percurso ao longo dos séculos. Mostramos a sua regressão. Apesar de não ser abundante, existia de norte a sul do país. E foi desaparecendo até se refugiar nas montanhas do Gerês, já no século XVII, onde - pensava a ciência - tinha desaparecido em 1650.

Mas o livro tem novos dados sobre a data da extinção...

Conseguimos demonstrar a sua existência em Portugal até ao século XIX, até 1843, data da morte do último urso encontrado em Portugal. Foi morto numa batida a 2 de dezembro, no Gerês. Na segunda parte do livro, quisemos perceber que modificações é que o território sofreu que levaram a que a espécie se tornasse cada vez mais rara e acabasse por desaparecer.

E o que levou à sua extinção?

Por um lado a caça, mas esta sempre existiu e o animal nunca desapareceu. O que de facto está na origem da extinção são as modificações no habitat, ou seja, a destruição da floresta autóctone. O urso precisa de bosques ricos, onde possa caçar ou comer animais mortos, mas também de mel, frutas silvestres. A transformação sucessiva dos bosques para monoculturas de pinhal e em terrenos de cultivo ditou o desaparecimento do urso. O tema do fogo também está muito presente neste capítulo. Muitos animais bravios desapareciam por causa do fogo que constantemente os agricultores lançavam ao monte.

A última parte do livro é dedicada ao legado. O que é que o urso nos deixou?

O legado do urso passa pela arte, pelos painéis de azulejos, pelo folclore e pelas festas populares, nas quais o urso é uma figura presente. Passa pela heráldica militar e religiosa e pela toponímia. Existem nomes de localidades de norte a sul do país que se referem ao urso.

Existem registos recentes da presença da espécie perto da fronteira?

O último urso que entrou em Portugal e acabou morto foi em 1843. Neste momento, existe nas Astúrias e uma população muito residual nos Pirenéus espanhóis e franceses, mas até ao século XIX existiam populações no centro e sul da Galiza. Possivelmente este último animal visto em Portugal veio dessas populações. Hoje em dia, a população está a crescer nas Astúrias e, em alguns casos, já colonizou o norte de Castela e da Galiza. É normal que os animais dispersem 40, 50 quilómetros, mas foram sempre avistados do lado espanhol.

Será que algum dia vamos voltar a ter a espécie em Portugal?

É muito difícil que o urso se consiga instalar. Precisa de um território grande, sossegado e rico do ponto de vista da água e dos recursos para se alimentar. Quer pela degradação da floresta quer pela perturbação das zonas montanhosas, não temos nenhum território que possa albergar de forma permanente um núcleo reprodutor de urso. Um animal pode passar a fronteira e deambular por Portugal, mas a seguir vai embora à procura de alimento ou de parceiro sexual. Para isso acontecer, tínhamos de trabalhar muito no ordenamento de território.

Como foi a relação do homem com o urso ao longo dos séculos?

No início era uma relação de admiração, pela força, grandeza e poder que representava, mas, quando o homem começa a cultivar, transforma-se em hostilidade. Não só com o urso, mas com a generalidade dos predadores, devido aos danos que causavam. A partir da alta Idade Média, era visto como um animal daninho que destruía as culturas. Mas a alta nobreza continuava a vê-lo como um animal de poder e gostava de ter o exclusivo a sua caça. Os mais pobres viam o urso como um competidor e como uma fonte importante de proteína.

Ler mais

Exclusivos

Opinião

DN+ João

Os floristas da Rua da Alegria, no Porto, receberam uma encomenda de cravos vermelhos para o dia seguinte e não havia cravos vermelhos. Pediram para que lhes enviassem alguns do Montijo, onde havia 20, de maneira a estarem no Porto no dia 18 de julho. Assim foi, chegaram no dia marcado. A pessoa que os encomendou foi buscá-los pela manhã. Ela queria-os todos soltos, para que pudessem, assim livres, passar de mão em mão. Quando foi buscar os cravos, os floristas da Rua da Alegria perguntaram-lhe algo parecido com isto: "Desculpe a pergunta, estes cravos são para o funeral do Dr. João Semedo?" A mulher anuiu. Os floristas da Rua da Alegria não aceitaram um cêntimo pelos cravos, os últimos que encontraram, e que tinham mandado vir no dia anterior do Montijo. Nem pensar. Os cravos eram para o Dr. João Semedo e eles queriam oferecê-los, não havia discussão possível. Os cravos que alguns e algumas de nós levámos na mão eram a prenda dos floristas da Rua da Alegria.

Opinião

DN+ Quem defende o mar português?

Já Pascal notava que através do "divertimento" (divertissement) os indivíduos deixam-se mergulhar no torpor da futilidade agitada, afastando-se da dura meditação sobre a nossa condição finita e mortal. Com os povos acontece o mesmo. Se a história do presente tiver alguém que a queira e possa escrever no futuro, este pobre país - expropriado de alavancas económicas fundamentais e com escassa capacidade de controlar o seu destino coletivo - transformou 2018 numa espécie de ano do "triunfo dos porcos". São incontáveis as criaturas de mérito duvidoso que através do futebol, ou dos casos de polícia envolvendo tribalismo motorizado ou corrupção de alto nível, ocupam a agenda pública, transformando-se nos sátiros da nossa incapacidade de pensar o que é essencial.

Opinião

DN+ A Cimeira da CPLP em Cabo Verde: a identidade e o poder pelo diálogo

Não é possível falar da CPLP sem falar de identidade. Seja ela geográfica e territorial, linguística, económica, cultural ou política, ao falarmos da CPLP ou de uma outra sua congénere, estaremos sempre a falar de identidade. Esta constatação parece por de mais óbvia e por de menos necessária, se não vivêssemos nos tempos em que vivemos. Estes tempos, a nível das questões da identidade coletiva, são mais perigosos do que os de antigamente? À luz do que a humanidade já viveu até agora, não temos, globalmente, o direito de afirmar que sim. Mas nunca como agora foi tão fácil influenciar o processo de construção da identidade de um grupo, de uma comunidade e, inclusivamente, de um povo.