Novo bairro de Marvila vai ligar Expo ao Terreiro do Paço

Arquiteto italiano Renzo Piano desenhou requalificação do Braço de Prata em 1998. A extensão da Expo vai custar 450 milhões

Renzo Piano gosta de ler as cidades como livros, para que o novo não apague a história. Quando idealizou um bairro residencial para a zona oriental de Lisboa, no Braço de Prata, olhou para trás e desenhou 12 edifícios que, do alto, se assemelham a uma enorme fábrica. Era a sua homenagem à história e ao espaço onde em 1904 foi construída a antiga fábrica de armamento e material de guerra.

Os primeiros desenhos do Prémio Pritzker - equivalente a um Nobel da arquitetura - para os Jardins do Braço de Prata são de 1998. Mas as primeiras 28 casas, de um total de 499, só agora estão prontas a habitar. Fazem parte do primeiro de dois edifícios que retiraram oficial mente o desenho do papel. São os primeiros 80 milhões de euros de investimento, num total que deverá ascender a 450 milhões.

"São 12 lotes que correspondem a 12 edifícios, com 499 fogos. Depois temos 7000 metros quadrados de serviços, os escritórios, e mais 19 mil de área comercial nos vários prédios", detalhou ao DN/Dinheiro Vivo, João Brion Sanches, presidente da Norfin, empresa que assumiu este projeto em dezembro de 2013 e que hoje vai apresentá-lo a potenciais investidores.

Ao todo, o empreendimento conta com 244 mil metros quadrados de construção, o equivalente a 24 campos de futebol. E, no final, terá capacidade para receber 2500 pessoas. Praticamente 500 famílias. Por isso, mais do que empreendimento, a Norfin gosta de lhe chamar o novo bairro de Marvila. "É um bairro. É mudar toda uma zona da cidade, esta zona oriental de Lisboa. Na prática é fazer uma ligação urbana entre o que é hoje o Parque das Nações, a Expo 98, e a zona do Terreiro do Paço. Este é o grande pilar do desenvolvimento de tudo isso."

Quando começou a ser idealizado, Lisboa ainda vivia a febre da Expo 98. A falência do promotor, as dificuldades de licenciamento e, por fim, a crise que afetou todo o país, ditaram os anos da espera. "Felizmente foi um projeto que não se perdeu pelo tempo. É do melhor que se está a fazer em Portugal neste momento", assume Luís Lima, presidente da APEMIP, a associação que representa imobiliários e promotores, admitindo que a "falta de estofo financeiro" da antiga promotora podia ter ditado o fim do empreendimento.

Depois da crise, o projeto passou a ser financiado pelo Novo Banco e Caixa Geral de Depósitos. E o novo plano de crescimento envolve vários anos. "Sendo um bairro, é natural que demore algum tempo, e também depende obviamente do ritmo de crescimento e de construção que se quer imprimir", conta João Sanches. "A perspetiva que temos com os dois grandes stakeholders, o Novo Banco e a CGD, grandes financiadores do projeto, é ir construindo um lote à medida que 50% do lote anterior já estiver vendido. Neste ritmo demoraríamos outros dez anos a terminar tudo", refere, completando que, perante o boom imobiliário que Lisboa está a viver, "está em cima da mesa a possibilidade de acelerar este processo" para cinco a sete anos.

Dos primeiros 28 apartamentos (de T1 a T5 neste lote), duas dezenas já têm dono. Os contratos de promessa compra e venda estão assinados e faltam apenas as licenças de utilização para se avançar para as escrituras. Com outros "dois a quatro" já sinalizados por potenciais investidores, Sanches admite que, quando as primeiras famílias começarem a entrar, "em janeiro ou fevereiro", todo o edifício estará já vendido. Os preços vão de 400 mil a 2,7 milhões de euros.

"O mercado tem estado a responder muito favoravelmente ao desenvolvimento do projeto", refere , rejeitando a designação de empreendimento de luxo.

"Isto é um bairro, quando a pessoa faz um bairro não pode fazer um bairro de luxo. Lisboa felizmente não é uma cidade de luxo, nem Portugal é um país de luxo, e ainda bem. Portanto, isto é um bairro para viver gente normal. Mas é um bairro que queremos com grande qualidade. Em que os equipamentos, os materiais, paisagismo, proximidade do rio, nível de infraestruturas, revestimento dos prédios, tudo isto é de grande qualidade. Por isso, não é uma coisa de classe média baixa, é uma coisa de classe média, média alta, e terá, eventualmente, para os grandes apartamentos, uma componente de pessoas com grande capacidade financeira, porque são grandes e vão acabar por ser caros", diz Sanches.

E há portugueses entre os novos donos? Dos 28 que já sinalizaram a compra de imóvel, há tantos portugueses como estrangeiros. E, nesta segunda fatia, as nacionalidades são das mais variadas: ingleses, brasileiros, chineses, turcos... "Temos extraordinariamente 50% de portugueses e, portanto, gente que vê um projeto de grande modernidade aliado ao sentido de qualquer bairro. Para que se possa residir aqui, fazer as suas compras aqui, ter filhos a estudar aqui e até trabalhar aqui", refere o presidente da Norfin, sem esquecer que "é um bairro aberto", com jardins e espaços de lazer que são da cidade e dos seus moradores, não apenas dos novos residentes.

E dá uma nota para o futuro. "A nossa expectativa é que daqui a 20 anos tudo isto esteja ligado ao Terreiro do Paço, de um lado, à Expo do outro e que isso continue para Marvila, Beato, e com Alfama. Quem sabe se daqui a 20 anos temos uma cidade ainda mais bonita".

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