"Muitas pessoas sentem que o Paro fica satisfeito com festas"

Takanori Shibata nasceu no Japão em 1967 e é especialista em inteligência artificial e robótica

Começou a trabalhar em 1993 em robôs "inteligentes" capazes de imitar animais de companhia, com fins terapêuticos. Em 1998 criou a primeira versão de Paro, a sua foca robô, que reage ao toque e aprende a interagir com os seres humanos, e os estudos já demonstraram que a sua utilização ajuda a diminuir os sintomas da depressão e de ansiedade e nos idosos com demência contribui para reduzir a agressividade ou a desorientação, permitindo reduzir a medicação. O investigador esteve em Portugal para apresentar a sua invenção e falou dela ao DN.

Como se lembrou de criar um robô com inteligência artificial para aplicações terapêuticas?

Já conhecia a terapia com animais, com bons resultados, mas há pessoas que têm problemas de alergias, ou têm medo dos animais e, por outro lado, é difícil manter animais em hospitais e outras instituições. Pensei que um robô deste tipo seria um bom substituto, mas para ser aceites pelas pessoas tem de simular as reações dos animais reais, e é aí que entra a inteligência artificial, para tornar os robôs semelhantes a seres vivos, com autonomia e reações inteligentes. O Paro tem inteligência artificial, muitos tipos de sensores e vários sistemas motores, para mexer o corpo e a cabeça. A estimulação que recebe do ambiente e das pessoas induz as suas respostas.

O Paro aprende na interação com as pessoas?

Aprende dois tipos de coisas. Uma é o próprio nome, outra são comportamentos. Eu chamo-lhe Paro, mas se a certa altura uma pessoa lhe chamar outro nome e o repetir várias vezes, ele aprende gradualmente o novo nome e começa a responder ao chamamento. Tem também uma série de sensores por todo o corpo e quando lhe fazem festas, comporta-se de forma que isso se repita. Guarda memória da situação e aprende a repetir o comportamento que induz as pessoas a fazer-lhe mais festas. É o reforço da aprendizagem.

Pode-se dizer que fica satisfeito?

Depende da pessoa que interage com ele, mas sim, muitas pessoas sentem que ele está satisfeito. Se uma pessoa faz uma festa ao Paro e ele emite um som, ou olha para a pessoa, a pessoa pode sentir que ele está contente, como aconteceria com um animal.

Porquê uma foca robô?

Pensei que devia desenvolver robôs que não servissem para qualquer tipo de trabalho, porque seriam demasiado caros e talvez não muito eficazes. Não esperamos que os animais que temos em casa trabalhem para nós, mas gostamos deles, porque enriquecem as nossas vidas e podem funcionar como terapia. Escolhi uma foca porque tem uma forma fácil para ser agarrada ao colo e para se lhe fazer festas.

Porque não um cão, ou um gato?

Desenvolvi-os também, mas quando os testei, as pessoas preferiram o robô-foca. Talvez porque as expectativas são muito altas em relação a s cães e gatos, e quando os comparam com os animais reais, ficam desapontadas. No caso da foca, não havia grandes expectativas, mas com a interação aderiram a este robô. Escolhi a foca.

Como pode ser usado o Paro?

Pode ser usado em todas a idades, das crianças aos idosos que poderiam beneficiar de terapia animal. Nas crianças com autismo ou síndroma de Down, a interação com o Paro ajuda a melhorar o humor e a sua situação geral. Também pode ser usado para o treino de socialização. No caso dos idosos, pode ser usado em pessoas com demência. Desde 2009 que o Paro é um dispositivo médico aprovado nos Estados Unidos pela FDA [Food and Drug Administration]. Trabalho nisto desde 1993 e em 1998 criei o primeiro Paro. Agora ele já está na nona geração e vamos introduzi-lo como dispositivo médico na Europa também, talvez no próximo ano. Temos muitas evidências, de inúmeros estudos feitos, das potencialidades terapêuticas do Paro.

O que mostram esses estudos?

Mostram, por exemplo, que ele pode ajudar a melhorar os sintomas da depressão, de ansiedade, a solidão, a dor ou distúrbios do sono. Está demonstrado também que ajuda a reduzir o stress, a baixar a tensão arterial e o ritmo cardíaco e tem benefícios na reabilitação da marcha ou da deglutição.

E como é que isso se explica?

Com a interação que se estabelece, porque melhora a sociabilidade e a comunicação. No caso de idosos com demência, com problemas de comportamento, como agressividade ou desorientação, há melhoras no humor e redução da ansiedade, da dor, depressão, ou esses comportamentos são mesmo suprimidos, quando interagem com o Paro. Na sequência disso é possível deixar de usar muitos dos fármacos que são utilizados para controlar aqueles sintomas e que têm efeitos secundários. O Paro não tem nenhum efeito secundário.

Quanto tempo é preciso usá-lo para de obter todos esses benefícios?

Há um efeito de curto prazo e outro de longo prazo. No primeiro, por exemplo, em situações de demência, o Paro ajuda a focar a atenção das pessoas e pode evitar de imediato comportamentos erráticos. Na depressão, os estudos mostraram que nas pessoas que interagem com ele durante 15 minutos, três vezes por semana, durante três meses, os sintomas melhoram significativamente. Muitos reduzem em 30% a medicação para a ansiedade, o que também diminui significativamente os custos com a medicação.

O Paro ainda não está aprovado na Europa?

Ainda não. Mas na Dinamarca já foi avaliado em unidades de cuidados de pessoas com demência, entre 2006 e 2008, e foram obtidos os mesmos resultados positivos no comportamento, humor ou redução de toma de medicação. Desde 2009 que já estão ali a usar o Paro nas unidades para pessoas com demência e no caso de crianças com problemas de desenvolvimento ou psicológicos.

As pessoas afeiçoam-se aos robôs?

Sim. O Paro não pode substituir as pessoas cuidadoras, mas pode substituir alguma medicação. Na Europa, há muita gente que não gosta de robôs. Mas eles são apenas instrumentos, neste caso para as pessoas com alguns problemas e para os seus cuidadores, porque são eficientes e facilitam a sua relação com as pessoas com demência por exemplo, porque as acalma.

Disse que há pessoas, nomeadamente na Europa, que não aderem facilmente aos robôs e têm até algum receio deles. É aquela ideia da máquina inteligente que pode tomar o poder e subjugar a humanidade. O que responde a estas pessoas?

Os robôs são apenas instrumentos. Se usarmos as máquinas e as tecnologias de forma eficiente e correta, não há qualquer problema e as pessoas acabam por apreciar os benefícios das novas tecnologias.

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