Miguel Neiva: "Quero 10 minutos com o Mark Zuckerberg para lhe falar do ColorAdd"

O código universal de cores ColorAdd, criado pelo designer Miguel Neiva, pode ser usado por 350 milhões de daltónicos em todo o mundo. Já chegou a 300 empresas, a hospitais e Metro do Porto

O código universal de cores ColorAdd, criado pelo designer Miguel Neiva, de 48 anos, para ser usado por 350 milhões de daltónicos em todo o mundo, foi ontem apontado como um bom exemplo de inovação social pelo comissário europeu Carlos Moedas e pela ministra da Presidência e Modernização Administrativa, Maria Manuel Leitão Marques, na conferência Gulbenkian sobre este setor. Neiva, que é um designer apaixonado, sonha ter o seu código instalado no Facebook, fundado pelo daltónico Mark Zuckerberg. Empresas como a Matel e os lápis Viarco já adquiriram a licença, o Metro do Porto, hospitais e escolas também.

O seu nome e o projeto Color Add foram referidos na cerimónia de abertura. Porque é que se lembrou de criar um código universal de cores que serve os daltónicos?

Bem, eu não sou daltónico e logo aí acho que o grande impacto ou o que originou o sucesso desta solução é, precisamente, eu não ser daltónico. Sou designer de formação e de paixão e sempre acreditei que o design tem uma competência maior do que desenhar bonitos objetos, tinha o poder de fazer o mundo melhor para alguém. O ColorAdd surgiu de uma tese de mestrado que desenvolvi, oito anos depois de me licenciar no Porto, partindo de uma ideia que eu tinha de que podia ficar daltónico um dia, o que é raro. Trabalhar com cores e não as ver seria constrangedor.

A cada cor primária corresponde um símbolo que o daltónico identifica. Há um mercado grande para este código universal de cores?

Se existem 350 milhões de pessoas daltónicas no mundo, a maneira mais fácil de chegar a elas é ser global e atingir a população mundial de 7 mil milhões de pessoas. Criámos um modelo de co-criação, trabalhamos com as empresas e entidades onde a cor é um fator de comunicação e são elas próprias que ensinam às pessoas como o código funciona. Por exemplo, a Matel introduziu o código no jogo Uno e na primeira semana teve um aumento de vendas de 66%. Os lápis Viarco também já o introduziram. Alguns hospitais em Lisboa e no Porto estão a fazer a orientação dos doentes com a ajuda do ColorAdd. Também já está no Metro do Porto e em breve vamos anunciar em Lisboa também em Lisboa, e já estamos a trabalhar com o Metro de Madrid. O Serviço Nacional de Saúde introduziu o ColorAdd na monitorização dos tempos de espera. Esta cooperação entre o setor empresarial do negócio e o setor social pode ter bons resultados.

E já pensou em falar com o Mark Zuckerberg para ter o ColorAdd no Facebook?

O Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, é um dos daltónicos famosos. Claro que quero ter 10 minutos com o Mark Zuckerberg para lhe falar do ColorAdd. Mas iria muito bem preparado porque provavelmente só teria essa oportunidade.

As 300 empresas que já aderiram pagam um valor fixo para terem o Color Add?

A empresas entram como parceiras, isto é um modelo de negócio social. Pagam um valor pela licença, que pode iur dos 250 aos 500 euros anuais, consoante a dimensão e o valor da empresa, para que seja justo. Mas não é exclusivo para ninguém. Ou seja, as concorrentes das que aderiram um dia também vão aderir. Porque pode ser aplicado ao vestuário, aos lápis, aos mapas das cidades, ao circuito turístico. Sabia que já há 250 quilómetros de praias em Portugal (incluindo a dos Galapinhos e a Nazaré) em que as bandeiras têm o código ColorAdd para os daltónicos poderem saber quando está vermelha ou verde? Quando fiz a investigação para o mestrado, um israelita daltónico disse-me que não tomava banho no mar porque nãoconseguia ver a cor da bandeira. Assim já podem.

A investigação que desenvolveu sobre o daltonismo para o mestrado, e que o levou a criar este código, permitiu-o conhecer daltónicos de diferentes países?

Sim. Eu sempre quis que a investigação para o mestrado tivesse aplicação prática. Por isso recolhi testemunhos de 146 daltónicos de países tão diferentes comoBrasil, Israel, Estados Unidos, Dinamarca, Portugal, Argentina, para ultrapassar a questão cultural e concluir que todos eles tinham os mesmos constrangimentos. Um dos testemunhos que tive foi o de um argentino que dizia que tinha um carro azul banana. Para ele a confusão era entre os azuis e amarelos. Ele sabia que o mar era azul porque as pessoas lhe diziam que era. Como ele via a banana da mesma cor que o mar, dizia que tinha um carro azul banana. Curiosamente, 7% dos testemunhos que recolhi são de mulheres. A estimativa mundial do daltonismo é que atinge 8 a 12% dos homens, porque é uma questão associada ao cromossoma X, e 0,5% a 2% das mulheres. O daltónico mais famoso foi o pintor Van Gogh, mas também o criador de Astérix, Uderzo. Encontrei o primeiro livro do Astérix num alfarrabista e na primeira e última prancha a terra aparecia sempre castanha (risos).

E como chegou à solução gráfica de converter cores em símbolos?

Bem, eu sabia que solução que ia criar tinha de ser sexy - como dizem os do marketing - e suficientemente séria, fácil de ser interpretada por toda a gente. Fui recuperar o conhecimento adquirido que trazemos da escola. Todos tínhamos uma caixa de guaches em crianças e explicavam-nos que aquilo eram as três cores primárias mais o branco e o preto. A cada uma das três cores primárias introduzi um símbolo gráfico que fosse fácil de representar e de se ligar entre eles. Com três símbolos apenas, o daltónico consegue identificar todas as cores: ele não as consegue ver mas fica sa ber que aquele sinal é vermelho e não verde ou que é azul e não amarelo. A cor é um fator racional de identificação, orientação ou escolha.

Nas escolas está a ter adesão?

Sim nós temos a empresa e depois a ONG ColorAdd Social, apoiada pela Fundação Gulbenkian, e dedicada ao trabalho com as escolas . Já chegámos a mais de 20 mil crianças e estamos a fazer o rastreio precoce do daltonismo nessas escolas. É importante porque muitas crianças daltónicas são vítimas de bullying, até por parte dos professores, por não distinguirem as cores.

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