"Homo sapiens". Uma revolução tecnológica há 320 mil anos

Descoberta no Quénia faz recuar no tempo, em dezenas de milhares de anos, a produção de ferramentas sofisticadas e, provavelmente, as trocas entre grupos distantes

À primeira vista seria apenas mais um punhado de lâminas laboriosamente talhadas em obsidiana (um tipo de rocha vulcânica), e de rochas negras e vermelhas próprias para a extração de pigmentos coloridos, mas o achado é muito mais do que isso. Recolhidos por um grupo internacional de arqueólogos e antropólogos em Olorgesailie, no Quénia, estes materiais contam uma história surpreendente: a sua datação faz recuar no tempo, em algumas dezenas de milhares de anos, o momento em que o Homo sapiens começou a usar tecnologias inovadoras em relação aos seus antepassados, e talvez a pintar, e a fazer trocas entre grupos a maiores distâncias.

Em três estudos publicados hoje na revista Science, outros tantos grupos de arqueólogos e antropólogos mostram que as lâminas em obsidiana e as rochas coloridas, bem como a camada de solo onde foram encontradas, em Olorgesailie, têm entre 300 mil e 320 mil anos. Ou seja, têm a mesma idade dos mais antigos fósseis de Homo sapiens que se conhecem, e que foram recentemente descobertos noutra zona de África, em Marrocos.

Por outro lado, o estudo do clima da época anterior ao uso de novas tecnologias que as lâminas de obsidiana indiciam, parece concorrer para a ideia de que há cerca de 300 mil a 320 mil anos houve uma oportunidade ambiental naquela região do Quénia para a inovação tecnológica e cultural.

Sabe-se que o sítio arqueológico de Olorgesailie, que já é estudado e escavado há décadas, foi habitado pelos antepassados dos humanos modernos desde há pelo menos 1,2 milhões de anos. Mas o novo achado e os estudos agora publicados parecem remeter para algo como um primeiro capítulo da história evolutiva do Homo sapiens. Embora não se tenham descoberto fósseis humanos dessa época no local, sabe-se que os humanos modernos já andavam por África pelo menos desde essa altura, como mostra a tal descoberta dos mais antigos fósseis de Homo sapiens, em Marrocos, anunciada em junho do ano passado.

No artigo publicado hoje pela equipa de Rick Potts, diretor do Museu Smithsonian de História Natural , em Washington, nos Estados Unidos, e desde há 30 anos um estudioso do sítio de Olorgesailie, os cientistas propõem que aquelas inovações tecnológicas, bem como novos comportamentos sociais que lhe estão associados, como trocas culturais e de bens com outros grupos humanos mais distantes, e a utilização de pigmentos, terão sido precedidas por grandes alterações ambientais, que terão propiciado aqueles novos comportamentos. Essas alterações passaram pela transformação daquele local árido em zona de pasto, com mais variabilidade de precipitação, pela extinção de animais de grande porte e a chegada de um tipo de fauna de menor dimensão.

"A mudança para um conjunto mais sofisticado de comportamentos, envolvendo maiores capacidades mentais e interações sociais mais complexas pode ter sido o que distinguiu a nossa linhagem de outras espécies humanas da época", diz Rick Potts, citado num comunicado do Museu Smithonian.

Foi a análise das lâminas em obsidiana que mostrou como elas foram uma inovação tecnológica. Até então, as ferramentas de pedra encontradas em Olorgesailie eram uma espécie de massas mal talhadas que, tudo indica, serviam para bater, e que eram feitas no tipo de rocha local.

As lâminas com cerca de 320 mil anos têm duas grandes diferenças: são talhadas de forma muito mais sofisticada e o material, a tal obsidiana, não é dali, mas de zonas que distam entre 25 a 65 quilómetros de Olorgesailie. A juntar a tudo isto, foram também encontradas no local inúmeras obsidianas não trabalhadas, o que indica, segundo os cientistas, que elas teriam sido transportadas para ali para serem depois talhadas, sugerindo uma rede de trocas com outros grupos na região.

Quanto aos pigmentos e às rochas de onde terão sido extraídos - elas apresentam sinais disso - os cientistas desconhecem em que foram utilizados. Mas, como nota Rick Pott, "o uso de pigmentos é em geral considerado como um sinal de uma comunicação simbólica complexa".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Rosália Amorim

"Sem emoção não há uma boa relação"

A frase calorosa é do primeiro-ministro António Costa, na visita oficial a Angola. Foi recebido com pompa e circunstância, por oito ministros e pelo governador do banco central e com honras de parada militar. Em África a simbologia desta grande receção foi marcante e é verdadeiramente importante. Angola demonstrou, para dentro e para fora, que Portugal continua a ser um parceiro importante. Ontem, o encontro previsto com João Lourenço foi igualmente simbólico e relevante para o futuro desta aliança estratégica.

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.