Flávio Almada: "Para aqueles agentes fardados nós não éramos pessoas"

Rapper e ativista, membro da Plataforma Gueto, confessa que não consegue esquecer o que se passou há dois anos. Flávio Almada, estudante de Mestrado de Estudos Internacionais no ISCTE, fala da humilhação que sentiu e dos atos de "tortura" protagonizados pelos "agentes fardados"

Quando recorda o que se passou na esquadra da PSP, o que vem primeiro à cabeça?

A primeira coisa que me vem à cabeça é a negação da humanidade aos africanos. Para aqueles agentes fardados nós não éramos pessoas. Nunca vou esquecer a cara do agente que nos disse que se pudesse exterminar-nos-ia todos, ou seja, que matava todos os africanos que ele chamou de "raça do caralho". Eu já tinha ouvido essas histórias por parte de muitos jovens. Mas sentir na pele é outra coisa. É um ódio que nos têm e que eu não sei explicar. Ficou patente que para a polícia portuguesa africano e criminoso são sinónimos, que podem ser torturados e humilhados, e os agentes perpetradores saem impunes. No máximo apanham uma pena administrativa. Isto é, quando o caso provoca escândalo.

O que aconteceu mudou a sua forma de se relacionar com os outros? E com a polícia?

Sim, influenciou bastante. Veio apenas confirmar o que já sabíamos. Para mim a polícia deixou de ser um sinal de segurança. Sempre que os vejo, lembro-me da tortura e da humilhação. Além disso, tenho de tomar muito cuidado por onde circulo à noite porque aqui é a Linha de Sintra e quando alguém se queixa da polícia costuma acontecer coisas estranhas. Meses após o sucedido, um jovem lá do bairro disse-me que os agentes queriam saber quem foi que apresentou a queixa. Ele disse-me que eles lhe tinham dito: isto não vai ficar assim. O pior disso tudo foi a narrativa à volta do acontecimento. Há sempre uma busca pela absolvição desses agentes que violam a lei. Dizem: é porque são ignorantes... vieram do interior... são malformados... mas há quanto tempo andam a fazer isso? Há quanto tempo os tribunais andam a acreditar em "contos de fardas"? O mais ridículo foi o argumento do Ministério Público que pediu a nossa prisão preventiva. Isto é, que devíamos ficar presos para não sermos considerados mártires. Isso é absurdo e demonstrava como funciona o sistema judicial português que não tem problemas em absolver o racismo.

Como é visto o facto de, passados dois anos, a investigação judicial ainda não estar concluída?

É importante que se faça justiça porque as pessoas vão deixar de acreditar na Justiça. E isso não é nada bom. Mas, pelos vistos, em Portugal a violência racista da polícia goza do privilégio da impunidade. É o que se passa nas ruas da Amadora. Em relação ao caso de 5 de fevereiro, os agentes que quase nos mataram (por pouco eu não tive um aneurisma) estão de regresso às ruas como se nada tivesse acontecido. E encontro-me com alguns deles de vez em quando. Devo acreditar na Justiça portuguesa?

Em causa estão suspeitas de crimes de tortura e racismo por parte da PSP. Até que ponto isto vos fez mudar a vossa confiança nas instituições oficiais?

Isso faz parte do cardápio da semana da PSP na Amadora. Há uma longa lista de casos. Em 2006, pensávamos que se soubéssemos das leis a polícia parava de nos chatear. Então organizou várias formações jurídicas aos jovens. Também se elaborou um manual com um conjunto de leis para situações em que se sabia que a polícia violava as leis. Então os jovens começavam a citar as leis a polícia. O resultado não foi nada agradável. Porque quando citavam as leis o ataque era ainda mais violento. Acreditar nas instituições oficiais é manifestação de síndrome de Estocolmo e sinal de dissonância cognitiva.

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