Alentejo já pensa em alterar culturas para "fintar" a seca

Perante a seca severa que afeta mais de 80% de Portugal, investigadores defendem a necessidade de a agricultura alentejana apostar em culturas tradicionais que gastem menos água

Se em vez de produzir milho nos cerca de cinco hectares que detém próximo de Alqueva Jorge apostasse em culturas de inverno, como trigo ou cevada, estaria a poupar mais de 30 mil metros cúbicos de água por ano. É que enquanto o hectare de milho, cultura de primavera-verão, consome entre seis mil e 9 mil metros cúbicos anuais, as outras culturas rondam os 500.

"Claro que conheço esta realidade, mas temos a questão do rendimento, que no milho é maior. Quem nos paga essa aventura?", questiona este agricultor alentejano, numa altura em que alguns dos seus colegas e investigadores já defendem que, perante a seca severa, é hora de investir em culturas sustentáveis, com menor consumo de recursos hídricos, para aproveitar melhor a água e aumentar a produção.

"Se pretendemos resolver o problema da seca com a rega, nunca vamos ter água suficiente", alerta Mário Carvalho, professor no departamento de Agricultura da Universidade de Évora, que se tem dedicado à investigação deste fenómeno, apontando que o caminho do Alentejo passa pela "maximização da produtividade da água", alegando que por ser escassa e cara tem de garantir elevadas produções. "Se a utilizarmos para regar culturas de outono-inverno conseguimos produtividade quatro a cinco vezes superiores às de regadio de primavera-verão", diz. Mas para que esta estratégia resulte em pleno é preciso garantir uma boa drenagem dos solos, para evitar que em anos de muita chuva não se perca produção nos regadios devido ao encharcamento dos campos.

O professor revela que o sistema está testado e que funciona em pleno entre o grupo de agricultores com quem tem vindo a trabalhar. "Tudo decorre de forma estável. Em anos de muita água a produtividade é garantida com consumos baixos e nos anos de menos água temos de aumentar consumos, mas estamos sempre a falar no máximo de 1500 metros cúbicos", diz o investigador, reportando-se, por exemplo, à produção de trigos, que compara aos 9 mil metros cúbicos consumidos pelo milho num ano seco como este. Mas também as forragens - alimentação para o gado - asseguraram uma produção acima dos valores médios do país. "Temos reservas alimentares suficientes para fazer face a esta seca", assegura.

E quanto à rentabilidade? Mário Carvalho responde que na zona de Alqueva o milho é facilmente trocado pelas culturas de outono-inverno, garantindo produções "muito altas", dando depois abertura à necessária rotatividade da terra que assegura a biodiversidade e o equilíbrio ao ecossistema. "Pode rodar com culturas forrageiras e depois com culturas hortícolas que gastam menos água e têm um valor económico superior", explica.

As garantias levam a própria reitora, Ana Costa Freitas, licenciada em Agronomia, a defender o regresso às culturas tradicionais de sequeiro do Alentejo (ver entrevista) para evitar que o ecossistema se torne muito dependente de água, enquanto Bernardo Albino, dirigente da Associação Nacional de Produtores de Cereais, também se coloca ao lado da proposta da academia alentejana.

"Tem futuro do ponto de vista do enquadramento ambiental e regional", diz, revelando que tem vindo "a acabar com culturas mais gastadoras de água", acrescentando que o efeito multiplicador é maior em culturas com menos necessidades hídricas. O dirigente diz que "mesmo a pessoa mais urbana percebe que numa região onde não chove a partir de abril uma cultura de primavera-verão terá água 100% artificial", admitindo que "faz mais sentido olhar com atenção para as culturas que utilizam água de forma natural. Depois há que represar a outra água e metê-la nas plantas seis meses mais tarde".

Joaquim Manuel Lopes, técnico agrícola da Associação de Agricultores do Distrito de Setúbal, também concorda com a recuperação de culturas tradicionais, mas admite ser difícil explicar as vantagens desse passo aos agricultores. "Vão exigir alternativas rentáveis", diz, avisando que o Estado deve entrar em cena e explicar aos produtores as vantagens de apostarem, por exemplo, no "trigo barbela", com uma história ancestral em Portugal.

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