"Adiar maternidade contribui para a diminuição da natalidade"

Maria João Valente Rosa é demógrafa, investigadora e dirige a Pordata, base de dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS).

O que significa atualmente ser mãe depois dos 50?

Ser mãe depois dos 50 não é uma situação que esteja a tornar-se normal, mas há um adiamento da natalidade e esse é um dos fatores que contribui para a diminuição significativa da maternidade. O período fértil da mulher é entre os 15 e os 50 anos, claro que há exceções e, com os avanços médicos, é possível acontecer depois dos 50, mas quanto mais nos aproximamos desse limite menor é a possibilidade de engravidar.

Temos menos filhos porque somos mães mais tarde?

Quanto nos aproximamos daquele limite biológico diminui a probabilidade de ter filhos. É menos provável ter um filho aos 45 do que aos 35, sendo a vontade a mesma. E se tenho um primeiro filho muito tarde diminui as hipóteses de ter o segundo.

Só por questões biológicas?

Essencialmente, mas há uma idade socialmente adequada para se ter um filho, que diria que é psicológica, e que varia consoante vários fatores, nomeadamente a instrução. O Inquérito à Fecundidade 2013 (INE/FFMS), dava conta de que a idade máxima para ter o primeiro filho para quem tem o 9.º ano é 29,4 anos, para quem tem o secundário 30,2 e, para quem tem o ensino superior, 33,1.

A idade das mães no nascimento do primeiro filho tem aumentado bastante, agora é 30,2 anos. Em 1990, era de 24,7 e, em 2000, 26,5. Há um adiar mas esse adiar tem um limite biológico. Se olharmos para as taxas de fecundidade, as mais elevadas são no grupo etários dos 30 a 34 anos.

Somos um país de filhos únicos.

A nossa questão não se situa tanto em ter o primeiro filho mas passar do primeiro para o segundo. O que nos diferencia é que somos mães tarde e ficamos pelo primeiro filho. No Norte e e Centro da Europa, as mães também são tardias, mas têm mais filhos.

Quais são as razões?

Existem vários fatores. Tem a ver com o prolongar dos percursos escolares, com o sair mais tardiamente da casa dos pais, com o fato de ser um projeto cada vez mais planeado, não acontece por acaso. As mulheres e os homens que querem ser pais tentam encontrar as condições ótimas, os melhores momentos para que os filhos nasçam nas melhores condições: sociais, profissionais, as expectativas de vida. Investe-se mais na qualidade.

Ser mãe aos 50 não é novo, é diferente de há 30/40 anos?

É preciso lembrar que aumentam os riscos, não só para a criança como para a mãe. A taxa de mortalidade infantil era muito elevada. Do ponto de vista biológico não existirá alteração, mas a idade de uma mulher com 45/50 anos hoje não é a mesma de há 40 anos, não só do ponto de vista das capacidades físicas e intelectuais mas também do projeto de vida, a esperança de vida conta. E a idade socialmente adequada também se vai adequando aos novos tempos. No passado existia quatro crianças, dois pais, uma avó ou um avô, agora é uma criança, dois pais e, normalmente, quatro avós e as vezes bisavós. É uma inversão total em relação ao passado.

Como vê a inversão nos últimos três anos de tendência de diminuição da fecundidade?

Diria que foram nascimentos adiados. No período de crise houve uma quebra muito grande da natalidade, o que estamos a assistir èé a concretização de algo que se adiou para três/ quatro anos.

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