A mulher que via partir os vizinhos

Duas vilas seculares, ao fim da Estrada de Benfica, aguardam não se sabe o quê. Se for demolição, o bairro e a cidade perdem uma história onde entram o bairro e a cidade. E Luiz Pacheco e Spínola e Maria Lamas e Lobo Antunes e, sobretudo, nós

Podíamos começar assim, exagerando pouco: "Estamos no ano de 2017 depois de Cristo. Toda a freguesia de Benfica já foi ocupada pelos patos-bravos... Toda? Não! Uma vila povoada por uma irredutível velhinha ainda resiste aos apagadores do passado." Seria um plágio descarado à abertura de todos álbuns do Astérix, mas a causa é boa. Defender uma histórica freguesia e homenagear uma simpática senhora. A dona Emília Cândida, filha de Eugénia Teolinda, talvez tenha, como Obélix, mergulhado na poção mágica que torna forte os simples. De comum, ainda, ela ter um gato, como o canito Ideiafix do gordo gaulês. De diferente, a elegância da dona Emília, de passo firme, casaquinho de bom corte mas coçado.

A aldeia gaulesa da dona Emília são duas vilas, geminadas, quase abandonadas e bonitas. A Villa Ana e a Villa Ventura, no fim da Estrada de Benfica, já a dois passos da saída da cidade, nas Portas de Benfica. Os nomes ainda se conhecem por lenda ou nos escritos notariais. Na fachada da segunda vivenda, só as letras "VI...V...T...A", as outras desistiram, caíram. As vilas são centenárias, foram mandadas construir pela herdeira de um casal que esteve emigrado no Recife, brasileiros de torna-viagem: a Villa Ana, em 1890, e a Villa Ventura, em 1910. Construídas quando aquele bairro de Benfica era quintas produtivas ou chalets de ricos.

Alinhadas em espelho, dois andares de cinco janelas por piso, ladeadas cada uma por um torreão de quatro águas e outro de duas. Toques de gosto de quem construiu para servir ou fazer inveja a quem passa: os torreões têm janelas redondas, em óculo, e as telhas das cumeeiras são rematas por friso de elementos decorativos. Benfica tem blogues a falar do seu bairro, Retalhos de Bem-Fica é um deles, que recolhem testemunhos de antigos moradores: "Do óculo do torreão, vimos o incêndio do Palácio de Queluz." Em 1934, via-se seis quilómetros adiante. Hoje, o horizonte acaba do outro lado da rua, nos prédios com varandas fechadas a alumínio. O conjunto das Villa Ana e Villa Ventura é formoso; a conservação, um desastre.

Esta semana, o condutor de um carro bloqueado por outro irritou-se com buzinadela insistente na Estrada de Benfica, em frente às duas vivendas, n.º 674. Ao chinfrim, a da esquina, a Villa Ana, permaneceu impassível. Ninguém a habita, está cercada por um tapume e um cartaz anuncia que a empresa proprietária, a Ormandy Portuguesa, vai fazer obras. Nos dois andares da Villa Ventura quase todas as janelas estão entaipadas, só as do 1.º direito têm cortinas. Foi lá que uma janela com cortinas se abriu de par em par. Uma cabeça branca espreitou. Emília Cândida, a última habitante das vilas que esperam não se sabe o quê. Talvez que Emília não mais abra a janela.

Emília Cândida diz que tem 84 anos, o seu BI diz 85 e ela não contesta: "Tiro sempre um ano." Na quarta-feira passada ela veio trazer comida ao gato, o último de uma chusma que vivia no jardim fronteiro, suspenso um metro sobre o passeio. O carteiro trouxe-lhe um envelope da Meo. Ela abriu-o e qualquer coisa a confundiu, talvez o valor, mais de 400 euros. O gato, aos pés, esperava que ela lhe desse de comer, mas a dona estava alheada. Ao menos, com os gatos é simples, não se lhes dá nome e chamamos-lhe gato. Emília decidiu ir saber da conta da Meo, afagou o seu gato sem lhe dar nome, e foi.

Na malinha de mão levava as contas arrumadas, os papéis da operadora, da eletricidade, da água e do aluguer, 30 euros e 88 cêntimos. Gás já não tem desde que um último vizinho estragou a ligação, agora é bilha. Na malinha levava a papelada da vida inteira, como anda sempre. A carta da proprietária que, nos anos 1990, vendeu à Ormandy o apartamento que alugava à Emília; a carta da Ormandy, em setembro de 2016, prevenindo-a de que lhe dava prazo para sair, por causa de obras; da Ormandy, no mês seguinte, amaciando a proposta: Emília só sairia da Villa Ventura quando as obras da Villa Ana permitissem que ela fosse para um apartamento desta, com garantia de voltar à vila inicial, "para um T0, talvez um T1".

Em todo o caso, na Villa Ana, de obras, só o tapume e sem janelas nem portas. Aparentemente não é muito aliciante a transformação das duas vilas, guardando-lhes a traça. Sem a única inquilina, o destino de ambas estaria traçado há duas décadas, ou talvez mais. Já teria havido demolição e mais um prédio, naquela esquina apetecida, entre a Estrada de Benfica e a rua de prédios novos, dos CTT e das Finanças.

A simples existência de Emília impediu até agora os destinos marcados. Nos anos 1950 e 1960, ela viu os vizinhos partirem, ficou e impediu, só por ficar, mais um prédio manhoso dessas décadas pobres. Em 1974 e 1975, ganhou vizinhos jovens e de vidas devassas, que ocupavam quartos e salas coletivas. Hélia Correia, que vivia no bairro, ruas mais acima, em 1985 escreveu a novela Villa Celeste, passado em "casas geminadas pintadas por igual de amarelão", sobre uma mulher que "ficou muito perturbada quando alguns [vizinhos] começaram a despedir-se dela". A capa tem uma mulher à janela com cortinas, espreitando. O livro foi editado por Luiz Pacheco.

Coincidência, o escritor Luiz Pacheco viveu na Villa Ana, casa dos seus avós no fim da década de 1940. No verão de 1950, o poeta António Maria Lisboa, seu amigo, ficou lá algumas noites, antes de partir para Paris, no sótão com lucarna. Nos anos de 1920, na mesma vila, viveu António de Spínola, então aluno do Colégio Militar, e que chegaria a marechal e primeiro Presidente na democracia.

Só essa convivência, embora não coincidente, entre o escritor libertino e o general de monóculo e pingalim mereceria indulto a impedir demolição. As duas vilas, só por existirem, permitem evocar o que não teve oportunidade de sobreviver. Olhem as duas, as gentis, bem desenhadas e ainda erguidas Villa Ana e Villa Ventura. E lembrem-se. À esquerda ficava o chalet, tipo bávaro, com traves de madeira a marcar a fachada, a casa do avô do escritor António Lobo Antunes. À direita, no prédio vizinho da Villa Ventura, viveu a escritora Maria Lamas (1893-1983), divorciada, cuidando das duas filhas.

A autora de As Mulheres do Meu País trabalhava no que fez sempre: ensinar a aprender sempre. E arredondava os fins de mês indo buscar ceroulas e camisetas à vizinha fábrica Malhas Simões para casear e pregar botões. Às vezes, voltava com operárias, para as ensinar a ler. Em 1962, Maria Lamas, com 68 anos, exilou-se para Paris. Em poucos parágrafos e sobre poucos metros foram citados cinco escritores portugueses - e tal porque se pôde ancorar a conversa (porque ainda existem!) em duas casas de uma freguesia que renasce. "Benfica Tem", dizem cartazes da Junta de Freguesia de Benfica. Tem passado, por exemplo - e é tão importante tê-lo.

Há mais de um século, das janelas, portas e lucarnas das Villa Ana e Villa Ventura, olhando em frente, do outro lado do caminho estreito e de terra que era a Estrada de Benfica, um tal Sport Lisboa e Benfica - esse, o primeiro com esse nome, fundido do Sport Lisboa e do Grupo Sport de Benfica, em 1908, o famoso Sport Lisboa e Benfica - teve o seu primeiro campo de futebol. Ali, no campo da Feiteira, linhas marcadas ao longo da estrada, de um lado, e da ribeira de Alcântara (o último afluente do Tejo, depois de este correr mil quilómetros), do outro, o Sport Lisboa e Benfica ganhou pela primeira vez ao Sporting (2-0) e jogou, pela primeira vez, com um clube estrangeiro (o Bordéus). Recorda-se isso porquê? Porque duas silhuetas de casas (ainda) o mostram.

O campo da Feiteira, o primeiro onde o Sport Lisboa e Benfica jogou. Sob o olhar da Villa Ana, a primeira vitória sobre o Sporting (2-0), em 1908

As redes das balizas eram as usadas na faina pelos pescadores da Trafaria. Isso não se vê hoje. Mas podemos ver nas fotos antigas de mais de cem anos, os lances e os golos com, ao fundo, a Villa Ana, sozinha, ou acompanhada pela Villa Ventura, a partir de 1910 - a olhar, a assistir, a dar-nos passado. Tão importante andarmos na Estrada de Benfica, hoje, e vê-las a guardar o nosso passado. Estarão elas guardadas em 2030?

Na quarta-feira, Emília Cândida foi à Meo, em Picoas, e soube que em agosto tinha ido ao Colombo e assinou o fim do contrato, que só acabava para o ano. Com aquilo da fidelidade e tal tinha de pagar os tais tantos euros... Assinou? Provavelmente, sim, a assinatura está lá e não há que duvidar da empresa. Talvez a atenção da Emília Cândida esteja cansada pelo tanto que nos deu, só por morar numa casa. Aliás, dá. Terá sido em vão a candura generosa da sua vida?

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