"58% dos incendiários agiram sob influência de álcool"

Cristina Soeiro é psicóloga da Polícia Judiciária e especialista na análise ao fenómeno nos incendiários. Classifica este ano como "atípico" mas pela área ardida, não pelo perfil dos detidos.

O facto de a maioria dos homens que ateiam fogo terem problemas cognitivos e demência alcoólica torna a luta muito inglória para o lado da justiça. "Há uma grande falta de articulação com a saúde mental", critica a psicóloga forense. Cada vez mais se aplica a prisão preventiva nestes casos "até porque não temos outra forma de controlo e as famílias também não".

Estuda o perfil do incendiário desde 1997. Que dados tem esse estudo?

Tem cerca de 600 entradas. Nessa amostra [que não inclui dados deste ano] há 8% de mulheres e 92% de homens. Serão mais ou menos 560 homens para 40 mulheres. A maioria são do Norte e Centro do país. Não os entrevistei todos. Até 2008 fizemos entrevistas completas aos incendiários, depois passámos a entrevistar os que se distinguiam: jovens, mulheres, ou pessoas que não tinham qualquer explicação para cometimento do crime. Portanto, terei entrevistado cerca de 300, juntamente com a equipa - três psicólogos, com reforço de estagiários.

Os 84 incendiários que a Polícia Judiciária deteve neste ano destacam-se do perfil-padrão do homem, solteiro, desempregado, iletrado e com problemas cognitivos?

Creio que não se destacam, mas os deste ano só os vou estudar no final do ano. O perfil ainda é esse: homem, solteiro, sem antecedentes criminais, com habilitações baixas - analfabetos ou 1.º ciclo - e com história clínica. Ateiam o fogo com chama direta. Aliás, o grupo dos que têm problemas psicológicos ou mentais corresponde a 55% do fenómeno dos incendiários florestais em Portugal. Nesse grupo há 17% de reincidências. Porque são pessoas que não são tratadas ou acompanhadas e que vêm de famílias com poucos recursos. Devia haver uma melhor articulação com a saúde mental. Agora, por prevenção, de há dois ou três anos para cá, os juízes estão a aplicar mais a prisão preventiva para estes casos. Relativamente aos que têm problemas mentais não temos mais nenhuma forma de controlo sobre eles. Muitas vezes as suas famílias têm poucos recursos e não têm como os controlar.

Devia haver mais penas de internamento em unidade psiquiátrica?

Podiam ser mais aplicadas. Ainda assim, é nos incendiários com problemas mentais que ainda se vê uma melhor aplicação da lei de saúde mental, mas em poucos casos.

A acrescentar a tudo isso há também o problema do álcool, não é?

Sim. Da nossa amostra estudada, temos 58% de homens que atearam fogos com influência alcoólica. E 44% dos homens incendiários têm demência alcoólica. Nas mulheres, apenas 2% agiram a atear o fogo sob influência do álcool. Há outras diferenças: as mulheres não ficam para ver o combate às chamas nem ajudam, enquanto os homens ficam.

Quantos ficam para ver o combate? E esses são pirómanos?

Em pouco mais de 500 homens, foram cerca de 80 os que ficaram no local a ver. São também pessoas com história clínica. Mas não são pirómanos. Aliás, essa classificação devia ser revista. Para um pirómano, o comportamento de utilização do fogo não depende de nada mais a não ser o prazer de ver arder. O que nós temos são indivíduos que acumulam esse gosto com demência alcoólica, problemas cognitivos ou outras motivações. Não temos pirómanos no estudo do perfil do incendiário. Nos que ficam a ver estão também alguns ex-bombeiros.

Que aspeto vai privilegiar quando começar a estudar os incendiários deste verão, no final do ano?

Neste ano vamos dar importância ao fenómeno do incêndio no feminino, até porque temos um aumento que justifica analisar melhor. Quadruplicaram face ao ano passado - são oito casos. As que vi têm um quadro depressivo, problemas amorosos com companheiros atuais ou ex-companheiros e questões relacionadas com partilhas de bens ou conflitos associados com responsabilidades parentais. São mulheres com poucas competências sociais, com dificuldades em resolver os problemas pessoais. Muitas vezes são domésticas. O comportamento de incendiarismo acaba por ser quase de libertação ou de chamada de atenção em muitas dessas pessoas. Excluindo o grupo de indivíduos que têm uma intenção mais instrumental, porque querem limpar a mata para passar o gado ou por outros motivos, grande parte é para chamar a atenção.

Há muitas mulheres com depressões diagnosticadas?

Sim, há, ao contrário do que acontece nos homens. O problema do incêndio na floresta tem de ser olhado de forma integrada. Não sendo indivíduos com antecedentes criminais graves ou não tendo história clínica, pode usar-se a justiça restaurativa. E nos clínicos devia haver um tratamento continuado. Isso exige articulação de meios.

Algum caso no feminino que recorde?

Sim, uma velhota da zona centro. Vivia com o marido numa casa isolada mas só falava com as galinhas, o marido não lhe falava. Ateou o fogo naquele dia e estava contente por ter bombeiros, polícia e muita gente para falar. É o isolamento.

E não deparou com suspeitos que foram pagos para atear os fogos?

Sim, mas são poucos. Temos alguns casos em que os indivíduos afirmam ter recebido montantes pequenos de outros para fazer aquilo. Mas não temos ao longo destes anos provas de crime organizado. Foi algo que já se debateu muito. Até 2016 o perfil do benefício explicava 3% do fenómeno. Neste grupo é mais frequente encontrarmos homens com 20 a 35 anos. Receberam dinheiro ou estavam a limpar um terreno seu e aquilo perdeu o controlo. Uma mulher que há 15 dias foi detida foi negligência com o seu próprio terreno, por exemplo. Muitas vezes são usados para vizinhos cometerem vinganças sobre outros.

Os incendiários que agem por vingança ou retaliação representam que parte no contexto global dos 600 indivíduos estudados?

São 42% do total dos incendiários estudados. São os de 46 anos ou mais. Mas este perfil das vinganças tem vindo a diminuir. Os homens com mais capacidade de análise, que é o caso neste grupo, percebem que a retaliação não leva a lado nenhum. Nas mulheres é que é um fator mais preponderante.

Também já entrevistou incendiários com formação superior?

Em 600 casos, encontrei apenas dois estudantes universitários. Um deles, que entrevistei, um estudante da zona centro, tinha dificuldades de integração na universidade, de interação social e de sucesso. E depois o isolamento e o fechamento levaram ao resto. Felizmente o incêndio não teve muitas repercussões. Estes casos são raros e correspondem também a jovens com história clínica, nomeadamente com depressão. Isto é um comportamento expressivo. A maior parte dos incêndios tem que ver com uma motivação expressiva, emocional, não é um crime instrumental.

Jovens maiores de 16 anos que ateiam fogos, por vezes em grupo. Que motivações têm?

Também temos encontrado menores de 16 mas, esses casos depois são encaminhados para o Tribunal de Família e Menores. Os nossos, da região centro (Coimbra e Leiria, Viseu), são jovens que não têm objetivos de vida. A motivação é a ação, é ir fazer isto porque é excitante. Ou então são miúdos que vivem na aldeia e estão completamente isolados de tudo. Eu entrevistei uns dois ou três que eram assim. No Reino Unido, por exemplo, a maior parte dos incêndios são provocados por jovens. Em Portugal temos uma amostra mais heterogénea porque é incêndio florestal.

Quais são então as idades preponderantes dos incendiários em Portugal?

A maior parte dos incendiários têm entre 20 e 35 anos. Depois segue-se o grupo dos 36 aos 45. Mas ainda temos um grupo substancial de indivíduos com mais de 46 anos. A amostra é heterogénea no crime de incêndio florestal. Se somarmos os que têm mais de 46 anos aos que têm mais de 56 ficamos com tantos como no grupo dos mais jovens. Outra observação a fazer é que o crime de incêndio florestal contraria o comportamento criminal em geral. Ao contrário do que acontece aqui, a maior parte dos crimes ocorrem até à faixa etária dos 35 anos. Com mais de 35 anos tendemos a reduzir a prática dos comportamentos mais violentos. Mesmo os psicopatas cometem menos crimes. As pessoas estabilizam para o bem e para o mal. Mas nos incendiários não, há de todas as idades.

Exclusivos

Premium

Leonídio Paulo Ferreira

Nuclear: quem tem, quem deixou de ter e quem quer

Guerrilha comunista na Grécia, bloqueio soviético de Berlim Ocidental ou Guerra da Coreia são alguns dos acontecimentos possíveis para datar o início da Guerra Fria, que alguns até fazem remontar à partilha da Europa em esferas de influência por Churchill e Estaline ainda o nazismo não tinha sido derrotado. Mas talvez 29 de agosto de 1949, faz agora 70 anos, seja a melhor opção, afinal nesse dia a União Soviética fez explodir a sua primeira bomba atómica e o monopólio da arma pelos Estados Unidos desapareceu. Sim, foi o teste em Semipalatinsk que estabeleceu o tal equilíbrio do terror, primeiro atómico e depois nuclear, que obrigou as duas superpotências a desistirem de uma Guerra Quente.