"Alentejo não sabe a água que tem"

Reitora da Universidade de Évora, Ana Costa Freitas, defende que a agricultura pode poupar mais água com algumas alterações

Tem defendido a necessidade da agricultura alentejana apostar em culturas tradicionais que gastem menos água. Esta solução é um passo decisivo para encarar a seca?

Mesmo em Alqueva, que foi uma obra fantástica na região, estamos a fazer culturas de regadio com uma água que é cara e escassa. Provavelmente, teríamos maior eficiência se fizéssemos algum regadio em culturas de sequeiro, que poderiam ter uma produtividade maior com menor gasto de água.

Seria um grande risco para uma região como o Alentejo?

Sim, porque sabemos que uma parte do Alentejo, neste momento, não tem água e que está a ficar cada vez mais abandonado. Depois há Alqueva onde, eventualmente, se estão a produzir algumas coisas a preço mais caro daquele que poderíamos estar a praticar se produzíssemos outro tipo de culturas.

Tem conversado com agricultores, recordando que é licenciada em Agronomia e com experiência na área?

Deixei de fazer investigação há algum tempo, mas acompanho o trabalho do Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais Mediterrânicas, onde estão os engenheiros agrónomos. As experiências realizadas confirmam o grande aumento da produtividade das culturas tradicionais com pouca rega, que pode ser a solução para agricultura do sul do mediterrâneo.

Além da agricultura, que estratégia definiu a Universidade para ajudar a encontrar uma solução no combate à seca no Alentejo?

Temos falado muito da necessidade de fazermos o cadastro das florestas, mas o cadastro de água no Alentejo também não está feito e é muito necessário. Há zonas afetadas pela seca extrema e o Alentejo não sabe a água que tem, nem em quantidade nem em qualidade. Há métodos de georreferenciação e geofísicos que nos permitem saber quais são os lençóis de água, onde estão e a que profundidades. Como é que podemos ir captar água se isso não está feito?

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.