Ingleses no Algarve: empresários receiam os pacotes de "tudo incluído" e bar aberto

As últimas noites na Oura foram mais "tranquilas" mas já se faz contas à nova invasão de ingleses - cerca de 1800 - esperada para a próxima semana. Empresários queixam-se deste tipo de turismo, que "não tem grande peso na promoção da região"

Regresso à normalidade em Albufeira. Muito turismo, muitos copos, animação em cada esquina, mas sem o cenário de "guerra" verificado na última semana. Pelo menos assim se deverá manter a zona da Oura até meados da próxima semana, altura em que chegam novos grupos de jovens turistas ingleses - são esperados perto de dois mil - aos quais se poderão juntar largas dezenas de holandeses - confirmados quatro mil até meados de agosto. O DN andou pela noite algarvia e do que se passou no passado fim de semana, quando britânicos lançaram o pânico e obrigaram à intervenção das forças de segurança, apenas presenciou as queixas dos comerciantes e as críticas dos empresários aos pacotes baratos com tudo incluído, e aqui leia-se álcool o dia todo.

Mas a polícia também está agora mais de prevenção, com patrulhas espalhadas pelas esquinas, de modo "cirúrgico", preparada para intervir mal surja qualquer distúrbio fora do normal e promete apertar o cerco, através de elementos a cavalo e com cães naturalmente treinados para o efeito. A GNR tem um pelotão com 30 militares da Unidade de Intervenção para patrulhar Albufeira e Quarteira e a partir de hoje conta com um reforço de 193 militares para vigiar só a Rua da Oura e evitar o sucedido.

"Era malta da pesada, com constantes provocações, encontrões e ofensas", relata ao DN um dos poucos lojistas daquela rua que aposta no artesanato. Houve roubos em supermercados, ficaram algumas contas por pagar, e quando se chegou às agressões nem as autoridades escaparam. Mas as pessoas preferem não entrar em muitos detalhes - nos hotéis que circundam a Oura ninguém quis comentar e os empregados dos bares da zona refugiam-se na tese de que os incidentes foram "casos isolados".

O DN foi informado de que não há registo de danos nas unidades hoteleiras circundantes - do Clube Praia da Oura ao Hotel da Aldeia, passando pelo Vilanova e pela Torre da Aldeia -, pelo que o recurso às seguradoras não foi necessário. Habituados, anualmente, a receber grupos e a lidar com situações menos próprias, as unidades hoteleiras há muito que se prepararam - com recurso a seguros de recheio - para minimizarem os custos de eventuais estragos que possam surgir.

Algarve Invasion 2017

O que terá levado, então, os jovens ingleses do programa Algarve Invasion 2017 a provocar tamanho alvoroço? O barato pacote da viagem, com um "tudo incluído" que estimula os excessos, e, claro, o "bar aberto" de que usufruíram, mediante pagamento prévio e anteriormente estipulado. A isto acresce o estatuto social - maioritariamente de classes sociais baixas. "O inglês quer embebedar-se e andar à pancada. Se o ambiente estiver animado, é até cair para o lado", desabafa Pedro Marreiros, antigo guia turístico e agora proprietário de um restaurante nas imediações, um filho da terra habituado a conviver de perto com os visitantes. "O holandês é diferente, tal como o português. Podem beber muito e querem divertir-se, mas o objetivo passa por um final de noite agradável, de preferência junto de companhia. Já o adolescente inglês, nestas situações, nem pensa em engates."

As queixas dos empresários

"São necessárias medidas inibidoras, porque tudo isto prejudica a imagem da região", alerta Desidério Silva, presidente da Região de Turismo do Algarve. O auge verificou-se na madrugada do último domingo, quando várias centenas de jovens ingleses, a cobro do programa Algarve Invasion 2017, começaram a provocar distúrbios no interior do Bar Liberto"s, sem que os seguranças os conseguissem travar. A presença da GNR não minimizou o turbilhão: os agentes foram agredidos com bancos, garrafas e tudo o que estivesse à mão, e só o recurso a balas de borracha teve algum efeito dissuasivo.

Reiss Brightly, um cidadão inglês de Hackney (Leste de Londres), de 23 anos, é o mentor desta denominada "invasão ao Algarve". A troco de 675 euros, garantiu uma semana de festa, tipo "sete dias sem parar de sol, mar e álcool", incluindo voos, alojamento e entrada em alguns estabelecimentos com bar aberto. Aos seus clientes, a maioria de bairros suburbanos da capital britânica, incutiu o espírito do "é tudo nosso", onde nem falta o "summer link ups", uma gíria de rua para dar conta de encontros sexuais.

A esmagadora maioria dos comentários de empresários da região algarvia é unânime em reconhecer que o esquema de viagens com "tudo incluído" não tem grande cabimento num mercado de "características únicas e qualidades naturais, em que a oferta diversificada e o nível da hotelaria e da gastronomia são fatores motivantes para vender o nosso Algarve", como garante Reinaldo Teixeira, presidente do conselho de administração da Garvetur, a empresa-âncora de um grupo que associa quatro dezenas de empresas de serviços do imobiliário turístico, residencial e de investimento. "O tudo incluído não tem grande peso na promoção da região. Incidentes desse tipo são casos isolados, pontuais, que devem merecer análise cuidada da entidade responsável."

A desenfreada corrida às bebidas, que começa nos hotéis e atinge o auge durante a madrugada, é a principal causa destes "comportamentos desviantes e de risco", segundo Elidérico Viegas, o presidente da Associação de Hotéis e Empreendimentos do Algarve (AHETA). "O bar aberto, os horários desajustados, o ruído e o som contribuem para isso. O Algarve é um destino de família, que pretendemos cativar, e, sem colocar de fora os jovens, os bares não podem funcionar assim", prossegue Elidérico, aludindo a um tema que, sustenta, "está já esgotado em muitos locais de Espanha, para evitar este tipo de desacatos".

Hotéis e restaurantes sofrem também na pele com esta invasão descontrolada de gente jovem, mas, curiosamente, as unidades hoteleiras nem se queixam muito, sobretudo aquelas que dão guarida aos grupos de adolescentes, quiçá por disporem de mecanismos prontos a acionar, que podem levar à expulsão dos prevaricadores.

De resto, são imensos os hotéis e estabelecimentos similares - os mais baratos - que acolhem os ingleses e os holandeses, na zona da Oura. "Quando aqui chegam, deitam-se e dormem todo o dia. Às vezes há barulho, mas não passa disso", confidencia ao DN o rececionista de uma unidade de três estrelas. Os que ficam em hotéis ligeiramente mais distantes do centro do turbilhão deparam-se frequentemente com a nega dos taxistas, que preferem perder uma viagem do que ter de "aturar as bebedeiras".

Nas zonas próximas da Oura, o ambiente é diferente, como sucede no Restaurante Lusitano, de Pedro Marreiros. "Organizo jantares para grupos de ingleses, chegam a ser 30 pessoas, mas de outro tipo. Gostam de comer e beber bem, é raro passar das marcas", conta, assinalando que os distúrbios não se verificam só nos meses de verão. "No inverno são frequentes as despedidas de solteiro, com grupos mais pequenos, que passam aqui um fim de semana prolongado. E também há complicações", adianta, referindo-se a "cenas vergonhosas e ridículas" que embaraçam os outros turistas. A troco de uma centena de euros, ou nem isso, chegam à quinta feira e despedem-se no domingo, depois de andarem literalmente nus na via pública. "É mau para nós. Cada vez há mais bares e menos restaurantes e passar na rua da Oura, mesmo de carro, pode tornar-se um perigo", revela o jovem empresário.

O preço da fama

O que têm então em comum nomes como Albufeira 66, Momba, La Bamba, King Kong, Legends, Lucky, Thirsty Turtle, Madness, Albertus, Blue Star, Liberto"s, Âncora e tantos outros? Os bares e locais de diversão da Oura, que albergam milhares de turistas diariamente, não têm mãos a medir, sobretudo a partir das 22.00. A malta entra e sai constantemente, quase sempre de copo na mão, espalha-se pelos passeios e pela rua, bastas vezes dificultando o tráfego, e, aliciada pelas "miúdas jeitosas", bebem mais um copo. Nas duas últimas noites, verdade se diga, sem distúrbios de monta, muito embora seja corriqueiro a ambulância do INEM percorrer a rua e dar guarida a algum(a) com menos estômago para os copos.

"Sabe qual é o mal? Aqui tudo é notícia! Se houver agressões e pessoas feridas lá em baixo [no centro de Albufeira, a zona mais antiga da cidade] nunca se fala nisso", relata-nos, em tom firme, o vendedor de farturas e churros que tem a rulote instalada no cimo da Rua da Oura, no outro lado da avenida perpendicular. "Os ingleses? Andaram aí,mas não tenho razões de queixa. Até me pagaram adiantado e tudo", afirma, ao mesmo tempo que coloca mais óleo na fritadeira.

A zona paga também o preço da fama. Por ser badalada, por fazer muito negócio - não é por acaso que a maioria dos bares pertence ao empresário Florival Palma, natural da região - e ter milhares de visitantes. Obviamente, não está tudo bem assim. "Para os bares e hotéis é complicado este tipo de situações. Ninguém gosta de desordens. São casos pontuais, os verificados com os ingleses, mas é preciso harmonia nos equipamentos e um trabalho meritório das forças de segurança, para o qual o turismo tem de contribuir e a tutela vai fortalecer nos momentos e nos sítios certos", opina Reinaldo Teixeira, conhecido empresário da região.

A este propósito, Liberto Mealha, o dono do Liberto"s, possivelmente o mais mediático bar da Oura, queixa-se do inconveniente do aparato que o seu estabelecimento sofreu há uma semana e que, por tabela, se propaga na proximidade. "As pessoas assustam-se, em especial os casais que aqui passeiam com os filhos", diz, apelando a uma "maior fiscalização e a normas de conduta" que respondam a este tipo de problemas. Controlo, aliás, é a palavra mágica, no dizer de Elidérico Viegas, o presidente da AHETA. "Há balcões de venda de bebidas, em plena rua, durante toda a noite, e bares que são verdadeiros guetos. Tem de existir um controlo eficaz", concluiu.

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