"Identifico mais situações de comportamento alimentar desajustado após a pandemia"

No Dia Nacional de Luta contra a Obesidade, o DN convidou a psicóloga Rute Agulhas a analisar o excesso de peso na sequência do confinamento imposto pela pandemia e de como os comportamentos podem provocar o descontrolo na balança.

A obesidade tornou-se uma consequência da pandemia? Hoje no seu consultório recebe mais pessoas com excesso de peso do que antes da covid-19?

Identifico mais situações de comportamento alimentar desajustado após a pandemia, muitas vezes em clientes que já acompanhava antes e em quem posso observar o antes e o depois. Esta alteração nos padrões alimentares reflete-se, não apenas em excesso de peso, mas também em comportamentos desadequados para controlo do mesmo (p. ex., induzir o vómito, períodos de jejum muito prolongados), configurando, em algumas situações, perturbação bulímica. Naturalmente, falamos de situações com um forte impacto na saúde psicológica da pessoa, seja ela criança, adolescente ou adulto, com diminuição da autoestima, alteração da perceção da imagem corporal, sintomas ansiosos e depressivos, isolamento social...

De que forma a obesidade se tornou a doença do século XXI?

Por um lado, assistimos a um estilo de vida mais sedentário, em frente aos ecrãs. Este estilo de vida, aliado à pressão pela produção e pelos resultados e à competição (a nível escolar e profissional) associa-se a um aumento de ansiedade que, muitas vezes, potencia a ingestão de alimentos como uma forma de compensar emoções mais desagradáveis. Aquilo que muitas vezes se chama de "fome emocional", procurando na comida um conforto e uma satisfação que não conseguem obter-se de outras formas, mais saudáveis.

Ainda a nível profissional, nos adultos, destacar o desrespeito que muitas empresas e chefias têm pela vida e pelo tempo pessoal do funcionário, entrando pela sua casa dentro com assuntos profissionais a qualquer hora do dia ou da noite e em todos os dias da semana. Esta ausência de fronteiras claras entre vida profissional e vida pessoal potencia angústia, ansiedade, a sensação de que se está sempre em falta e a pressão para estar sempre disponível. Ora, naturalmente que isto acarreta um enorme stress, desequilibrando o bem estar psicológico e potenciando comportamentos mais desajustados como, por exemplo, a ingestão de comida em excesso e o aumento do consumo de substâncias (café, álcool, tabaco).

Como a obesidade e a psicologia caminham juntas? Fala-se muito hoje da "fome emocional" que desequilibra o peso, será essa uma das principais razões para que a obesidade tenha vindo a crescer?

Penso que já respondi acima.

Qual seria a política pública (A decisão ao nível do Estado/do ministério da Saúde, por exemplo) que poderia melhor contribuir para a redução da obesidade em Portugal?

Penso que o maior investimento deveria ser na prevenção primária, atuando ao nível da promoção dos fatores de proteção e na minimização dos fatores de risco, com medidas ajustadas às diferentes populações-alvo (p. ex., crianças, jovens, mulheres grávidas, idosos).

Um conselho prático ao leitor para cuidar do seu peso?

O primeiro passo para um processo de mudança envolve a tomada de consciência de um problema. Assim, sugiro ao leitor que tente, em primeiro lugar, ter uma ideia mais clara dos seus hábitos alimentares e da sua adequação (ou falta dela). Sugiro que faça um diário alimentar durante uma semana -- basta uma semana para podermos identificar eventuais áreas problemáticas que precisam de ser reajustadas.

Desenhe uma tabela com os 7 dias da semana e em cada um deles escreva de forma detalhada o que comeu/quantidades aproximadas ao pequeno almoço, a meio da manhã, ao almoço, ao lanche, ao jantar e à ceia. Não se esqueça de registar também os líquidos ingeridos. No final de cada dia, tente identificar o que correu bem (bons hábitos) e o que correu mal (erros identificados).

Agora, imagine uma escala de 0 a 10 para avaliar o seu grau de satisfação com o comportamento alimentar, em que 0 corresponde a uma avaliação muito negativa (nada satisfeito) e 10 corresponde a uma avaliação muito positiva (totalmente satisfeito). Para cada dia, pontue a sua auto-avaliação.

Quando chegar ao final da semana, pense...

1. Agora que olho para o meu diário alimentar percebo que...

2. Os bons hábitos que devo manter são...

3. Os maus hábitos que devo alterar são...

4. Vou definir um plano de mudança: o que vou tentar mudar? Como? Preciso de ajuda? Se sim, a quem posso pedir ajuda?

Ideias chave:

- Grandes mudanças começam com pequenas mudanças.

- Tente olhar cada comportamento desadequado como um deslize, e não como "voltar à estaca zero".

- Num processo de mudança é natural que existam avanços e retrocessos.

- Planeie as suas refeições com antecedência para minimizar o recurso a alimentos processados.

- Faça uma lista de compras antes de ir ao supermercado e não vá quando estiver com fome.

- Auto-reforce os comportamentos adequados - isso mesmo, dê um reforço a si mesmo! Um reforço é algo positivo que nos faz sentir bem e que aumenta a probabilidade de exibirmos um dado comportamento. Para algumas pessoas pode ser ver um episódio extra da sua série favorita, tomar um banho relaxante, ir ver o por do sol... e para si, o que pode ser um reforço positivo?

- Por fim, se considerar que precisa de ajuda especializada, peça essa ajuda. É um sinal de força, e não de fraqueza.

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