Hospital São João tem 95% dos doentes com VIH tratados

Serviço de Infeciologia já atingiu meta definida pela OMS para 2030. Dos 2500 doentes acompanhados pelo serviço, 95% têm a carga viral suprimida. A coordenadora da consulta diz ao DN que os resultados devem-se à prática clínica e à organização. "Nunca desistimos de um doente". O passo seguinte é melhorar a medicação.

Apesar da pandemia, 2021 foi um ano bom para o Serviço de Infeciologia do Centro Hospitalar Universitário do Hospital São (CHUSJ), no Porto, nomeadamente no que toca ao tratamento dos doentes com VIH/Sida. De acordo com a coordenadora da consulta para esta área, Rosário Serrão, dos 2500 doentes que acompanham, entre os quais 33 são crianças, 95% têm a carga viral suprimida. Ou seja, "têm o vírus não detetado".

Uma meta que a Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu como prioridade até 2030. "Até há dois anos, a OMS tinha como prioridade ter 90% dos doentes tratados. Depois, passou para 2030 e já o conseguimos", sublinha a médica. Um resultado que "só foi possível alcançar, graças à forma como trabalhamos e lidamos com o doente. Nunca desistimos de ninguém. Se o doente falta a uma consulta, falamos com ele, fazemos a remarcação e assim mantemos sempre uma ligação muito próxima", explica, justificando: "São muito poucos os doentes em quem não conseguimos suprimir o vírus. A grande dificuldade que temos com estes é na adesão às consultas ou na retenção nos cuidados de saúde".

Contudo, ressalva, esta percentagem tão elevada de doentes já numa fase da doença considerada crónica "é muito importante, não só para o doente - porque assim a doença não progride e não provoca alterações no seu sistema imunológico. Ou seja, não o debilita e a doença não evolui para o estadio de sida -, mas também em termos de saúde pública. Um doente que está tratado e tem o vírus suprimido é um doente que não transmite o vírus. É como se o doente tivesse uma doença crónica que está tratada. E sabemos que qualquer doença crónica tratada tem um melhor prognóstico de vida para o doente do que uma que não está".

Mas para se atingir esta fase é necessário que o diagnóstico não seja tardio, alerta Rosário Serrão. Ou melhor, que o diagnóstico não seja feito já numa fase tão avançada em que o próprio doente já tem outras doenças oportunísticas devido ao vírus do VIH, nomeadamente doenças neoplásicas. Por isso, a coordenadora da consulta do VIH/Sida do CHUSJ defende que a principal mensagem a passar, mesmo nos tempos de hoje, é que se ultrapasse o estigma da doença e se procure ajuda profissional, começando por se fazer testes de rastreio, que hoje são rápidos e gratuitos, tanto nos centros de saúde como nas organizações não-governamentais (ONG) que trabalham nesta área, Associação Abraço ou o CAD (Centro de Acolhimento e de Deteção VIH/sida).

"Um dos problemas em relação ao VIH/Sida ainda é o estigma, embora hoje seja muito menor do que há uns anos, mas o mais importante é que todos aqueles que pensam que podem ter tido uma relação de risco, já que hoje a maioria dos nossos doentes são infetados por transmissão sexual, é fazerem o rastreio", aconselha a médica.

"Nenhum doente deixa de ser atendido, mesmo não estando inscrito em centros de saúde"

Segundo explicou ao DN, há muito que trabalham com organizações não-governamentais e com quem têm uma boa comunicação. Portanto, "se o rastreio for feito numa destas entidades, automaticamente, por telefone ou e-mail, a situação é-nos comunicada e na mesma semana o doente tem uma consulta. Não deixamos de atender ninguém, seja cidadão português ou estrangeiro, mesmo que não esteja inscrito num centro de saúde. No site do hospital estão os contactos diretos do serviço, telefone e e-mail, por onde as pessoas nos podem contactar".

O Serviço de Infeciologia do CHUSJ acompanha doentes com VIH/sida há mais de 30 anos e ao longo deste tempo tem visto também o perfil do doente alterar-se. Nos primeiros anos, e à semelhança do que acontecia em todo o país e até internacionalmente, a maioria dos doentes eram consumidores de drogas endovenosas e pessoas homossexuais. Agora, "temos muito menos consumidores de drogas endovenosas e mais doentes infetados por transmissão sexual, homossexuais e heterossexuais", confirma Rosário Serrão, explicando que "os doentes que são diagnosticados já numa fase mais avançada da doença são sobretudo heterossexuais acima dos 50 anos". Quando perguntamos o porquê, a médica é explícita: "Muitas vezes, os colegas dos centros de saúde não colocam a hipótese de a infeção por VIH ser um diagnóstico e não pedem o rastreio".

Nos últimos anos, este tem sido um apelo lançado pelos especialistas nesta área a toda a classe médica, no sentido de estarem mais atentos e de colocarem com mais frequência a hipótese de infeção por VIH como diagnóstico. "Temos doentes que já nos chegaram com outras doenças oportunísticas e inibidoras de sida, e que têm de ser logo internados". Por outro lado, explica, embora a maioria dos doentes sejam pessoas homossexuais, estes fazem frequentemente rastreios, sendo possível detetar casos de forma precoce. "Há doentes que são diagnosticados quando ainda não têm sintomas e numa fase em que o seu sistema imunitário ainda está bem e com defesas". Para completar o perfil do doente, Rosário Serrão confirma que a maioria dos doentes são homens, "só 25% são mulheres".

Consultas em prisões, na comunidade e de prevenção

Mas a consulta VIH/Sida do Serviço de Infeciologia do CHUSJ não se fica pelo acompanhamento de doentes apenas entre as paredes do hospital. A coordenadora da consulta explicou ao DN que desenvolvem outros projetos junto da comunidade no sentido de contribuírem cada vez mais para uma forte redução e controlo da disseminação da doença.

"Temos uma consulta que funciona desde 2018 para acompanhar doentes com VIH e com hepatites B e C em estabelecimentos prisionais e, mais recentemente, desde novembro do ano passado, temos uma consulta de pré- exposição (PrEP) na comunidade, que surgiu de uma parceria com a Associação Abraço, no Porto. Nós vamos ao centro de rastreio da Abraço para observar os doentes", acrescentando que se trata de " uma consulta descentralizada que conta com a presença de um médico infeciologista e de um enfermeiro do CHUSJ". Através desta consulta é possível aos doentes realizarem, também de forma descentralizada, exames auxiliares de diagnóstico e obterem a medicação de uso exclusivo hospitalar, tentando-se assim aumentar o acesso aos cuidados de saúde.

De acordo com os dados disponibilizados ao DN pelo CHUSJ, no último ano foram realizadas 324 consultas nos estabelecimentos prisionais, sendo que 97 foram primeiras consultas. Neste momento, todos os reclusos identificados com VIH encontram-se a realizar terapêutica antirretrovírica (TARc) e cerca de 94% está com carga vírica do VIH não detetada. Dos doentes com co-infeção pelo vírus da Hepatite C, 7 (64%) já fizeram tratamento, 1 (9%) está atualmente em tratamento e 3 (27%) estão numa fase de estudo para caracterização da Hepatite C e início de tratamento, assim que possível.

Em relação à consulta de pré-exposição, para a prevenção da doença, Rosário Serrão diz que o serviço iniciou há uns anos a disponibilização da profilaxia e, neste momento, "já conta com mais de 300 pessoas em seguimento. O objetivo é prevenir e reduzir o risco de contrair a infeção pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH)".

Durante a pandemia, e numa altura em que o sistema central de registo e de acompanhamento de doentes com VIH/Sida não conseguia dar resposta, "o CHUSJ desenvolveu ainda um processo de monitorização através do Serviço de Inteligência de Dados, considerado inovador, que permitiu às equipas de saúde e de gestão continuarem a acompanhar com rigor o estado de saúde dos seus utentes, através da monitorização da adesão às consultas e aos tratamentos, bem como ao sucesso clínico das intervenções. Esta ferramenta garantiu, ainda, que todos os utentes tivessem obtido resposta terapêutica atempada", explicaram ao DN.

António Sarmento, diretor do Serviço de Infecciologia, e Rosário Serrão, coordenadora da consulta do VIH/Sida, não têm dúvidas de que, com estes resultados, a unidade está a par de qualquer outro centro internacional. Em relação à prática clínica, ambos os médicos reforçam como foi importante a organização dos serviços do hospital, nomeadamente do serviço de farmácia hospitalar, para que durante a pandemia e os confinamentos gerais, nenhum doente ficasse sem consulta, sem a realização de exames e sem a sua medicação.

"O acompanhamento destas pessoas nunca foi interrompido, tendo mesmo o serviço aumentado a sua atividade clínica desde então", diz António Sarmento, reforçando que "o objetivo de não deixar ninguém para trás, apesar da covid, nomeadamente os mais vulneráveis, foi conseguido".

Agora, e quando questionada sobre a meta atingir a seguir, Rosário Serrão responde prontamente: "É a simplificação da terapêutica. Neste momento, já estamos muito focados e a trabalhar na medicação menos tóxica, com menos efeitos colaterais a longo a prazo. Numa terapêutica que seja mais fácil de tomar e que seja mais bem tolerada, para darmos mais qualidade de via ao doente".

anamafaldainacio@dn.pt

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