Habitue-se à ideia: substituir carne por insetos vai ser um passo necessário rumo à sustentabilidade

Substituição da carne, reeducação juvenil e apoio do poder político. São estes os três fatores chave para tornar a alimentação humana mais saudável e sustentável, defendem investigadores

Para os especialistas, não há volta a dar: a sustentabilidade terá de passar forçosamente por uma redução drástica do consumo de carne. E os insetos surgem como fontes alternativas de proteína que podem mesmo começar a ter de fazer parte dos hábitos alimentares num futuro próximo, acredita Ana Isabel Costa, investigadora principal em Marketing e Comportamento do Consumidor, da School of Business and Economics da Universidade Católica Portuguesa, e uma das oradoras do evento Dare2Change, sobre os desafios do setor agroalimentar, que decorreu na Arena SuperBock, no Porto.

Opinião partilhada por Luís Miguel Cunha, Investigador Integrado no GreenUPorto - Centro de Investigação em Produção Agroalimentar Sustentável. "Temos de ser capazes de ultrapassar a barreira da repulsa", disse em relação à utilização de insetos na dieta mediterrânica, acrescentando que "desde 2013, tem existido um aumento do grau de aceitação por toda a Europa em relação a esta substituição".

Para Ana Isabel Costa, "comemos melhor quando estamos em casa" e, por isso, a pandemia tornou os hábitos de vida da sociedade portuguesa mais sustentáveis, acrescentou.

Traduzindo em números, 17,7% das pessoas alteraram os seus estilos de vida alimentar, por terem uma de duas condições muito importantes para o fazer: tempo. O tempo é, para a investigadora, um dos pontos essenciais para que se desenvolvam estilos de vida mais próximos do que os investigadores consideram ser sustentável.

A outra condição está mais ligada à condição socioeconómica de cada pessoa. Para se promover a sustentabilidade alimentar, os produtos à disposição do consumidor devem ser acessíveis ao mesmo. Caso contrário, nunca irá existir uma mudança nos padrões alimentares da sociedade, defendeu a investigadora.

Reeducação jovem

Nenhuma aposta pela sustentabilidade alimentar pode ser feita sem ter em conta as novas gerações. Ana Isabel Costa afirma que "temos que educar as crianças para que o ato de cozinhar possa ser divertido". Desse modo "estaremos a educar uma criança para, de uma forma pedagógica, fazer mais refeições em casa".

Luís Miguel Cunha concorda e sugere: "Temos que fazer com a alimentação aquilo que fizemos com a questão da reciclagem. Começar nos mais novos e educá-los para a sustentabilidade alimentar".

Tal como em qualquer outra mudança estrutural, também aqui o poder político tem que desempenhar um papel chave nesta reorientação alimentar, defendem os investigadores.

Segundo dados do Sistema Nacional de Saúde, em 2019 quase um terço (29,6%) das crianças portuguesas apresentava excesso de peso. Deste modo, ambos os investigadores consideram que é necessário que exista uma aposta política concreta na diminuição destes números.

Também aqui, os insetos podem ser a solução. Muitos dos insetos contêm exatamente a mesma quantidade de proteínas e minerais da carne, sendo constituídos, ao contrário do que acontece com a proteína tradicional, por gorduras mais saudáveis. A ideia foi defendida por Ana Isabel Costa, tendo por base um estudo da Organização das Nações Unidas.

Tratar da obesidade infantil é "educar os futuros adultos de amanhã" o que iria criar uma "dinâmica de evolução muito positiva na sustentabilidade alimentar" disse Kees de Gooijer, Diretor da TKI Agri& Food.

"Enquanto não se encarar a questão da alimentação como uma questão verdadeiramente política e relevante, será difícil que algum hábito seja alterado", acrescentou.

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