Governo cria plano nacional para reabilitação cardíaca

Só 8% de doentes com enfarte fazem reabilitação. No Dia do Coração, é criado grupo de trabalho para levar a cabo projetos-piloto

O Governo vai apostar num programa nacional de reabilitação cardíaca. O objetivo é reduzir a mortalidade, internamentos e melhorar a qualidade de vida de pessoas que sofreram enfartes ou outras doenças coronárias. Em Portugal, até agora apenas 8% dos doentes com enfarte do miocárdio têm acesso a este tipo de reabilitação e a meta que se pretende atingir é a dos 30% até 2020, tentando aproximar o País da taxa média de participação europeia que já é superior aos 30%.

A criação do grupo de trabalho que vai definir os critérios para este programa nacional e que vai acompanhar os projetos-pilotos é publicada hoje em Diário da República, precisamente no Dia Mundial do Coração. Dia em que também é apresentado o relatório do Programa Nacional para as Doenças Cérebro-Cardiovasculares 2017, que mostra que a mortalidade por AVC e enfartes está a descer e aproximar-se das mortes provocadas por cancro (ver infografia).

No despacho a que o DN teve acesso, o Governo reconhece que os programas de reabilitação cardíaca (RC) reduzem "a mortalidade e as hospitalizações, melhoram a qualidade de vida"e o retorno ao trabalho. Ao mesmo tempo, lê-se no documento, reduzem o risco de novas situações cardiovasculares, o que não acontece com os doentes que não têm acesso a esta intervenção. Por isso, "considera-se relevante a definição de Programas de RC e a sua implementação a nível nacional, de forma faseada, através do desenvolvimento de projetos-piloto, do seu acompanhamento e avaliação", refere o despacho.

Os principais candidatos aos programas de reabilitação cardíaca são doentes que sofreram enfartes, revascularização ou angina crónica, insuficiência cardíaca e todos os doentes submetidos a cirurgia cardíaca, incluindo transplante. Mas , neste momento, apenas uma pequena parte está a ter acesso a este tipo de intervenção. "Por um lado são causas culturais e de formação, desde doentes a médicos. Falta educação para a atividade física e havia o temor de que o exercício poderia provocar aos doentes. Estes, por outro lado, também não estavam predispostos para o fazer. Normalmente, já não praticavam exercício e achavam que podia ser prejudicial. Por outro lado, não há oferta para a RC. Não há financiamento. A nível de hospitais ainda há o bloqueio do espaço, mas mais complicado é conseguir-se fazer equipas multidisciplinares", explica Miguel Mendes, coordenador do grupo de trabalho que agoraé criado.

Este responsável gostava de ter no terreno cinco projetos-piloto a partir do verão do próximo ano: dois no norte, dois no sul e um em Coimbra. "Irão trabalhar no modelo, fazer avaliação de resultados e de custos e uma forma de replicar a sua aplicação em todo o país", afirma ao DN. Com larga experiência nesta área, Miguel Mendes acredita que é possível alcançar os objetivos e lembra que, apesar de tudo, a percentagem de doentes a aceder a esta intervenção tem aumentado.

Mortes por AVC descem

"A continuada adoção de medidas estratégicas preventivas e a melhoria dos diagnósticos, nas áreas do enfarte agudo do miocárdio e do Acidente Vascular cerebral (AVC), permitiram atingir, em 2015, uma proporção de óbitos de doenças cardiovasculares de 29,7%, um dos melhores valores das últimas décadas", aponta o relatório do Programa Nacional para as Doenças Cérebro-Cardiovasculares 2017, que é apresentado hoje.

Mas o grande destaque vai para a redução das mortes por AVC, que em 2015 matou 6853 pessoas, menos 1440 que em 2013. "É impressionante a redução que se conseguiu. Atribuo-a muito à introdução de um conjunto de novos fármacos, os anticoagulantes. Os grandes benefícios nos últimos dois anos estão relacionados com isso", diz ao DN Rui Ferreira, diretor do programa nacional da DGS, explicando que esta nova classe de medicamentos permitiu prevenir a ocorrência de AVC. "É o espelho da prevenção, que nos mostra como é importante agir antecipadamente e de uma forma integrada", reforça.

Os resultados conseguidos no AVC fizeram descer a mortalidade nas doenças cérebro vasculares, que, em 2015, mataram 11 271 pessoas. Já a doença esquémica do coração, onde se inclui o enfarte, foi responsável nesse ano por 6853 óbitos. Mas nesta área há um dado que surpreende pela negativa. "Há uma menor redução da mortalidade por doença esquémica cardíaca, com um dado dissonante que é a mortalidade abaixo dos 70 anos, que me surpreendeu por até haver um agravamento", salienta o responsável, que não consegue explicar para já este resultado.

A eficácia das vias verdes Coronária e do AVC também melhorou. No AVC a janela de intervenção para um tratamento mais eficaz e para reduzir a mortalidade e morbilidade é de quatro horas e meia. "Uma coisa é ter um diagnóstico feito antes e ter tudo pronto para quando o doente chega ao hospital e entrar rapidamente dentro do esquema. Outra, é o doente ir ele próprio para a urgência. Mesmo que seja triado de forma prioritária vai perder tempo antes de ser identificada situação e corretamente encaminhado. Muitas vezes perde-se a janela terapêutica. Só se conseguem esses tempos com o acionamento das vias verdes", diz Rui Ferreira.

A prevenção continua a ser a tónica para a redução da mortalidade e uma das metas para 2020 é a diminuição do consumo de sal entre os 3% e os 4% ao ano, reconhecendo-se que este objetivo "assume extrema importância" na prevenção das doenças cardiovasculares.

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