Francisco e Cirilo pedem ação urgente para evitar nova guerra mundial

Encontro histórico em Havana termina com declaração conjunta a apelar à comunidade internacional para travar perseguições a cristãos

O Papa Francisco e o patriarca Cirilo, da Igreja Ortodoxa Russa, querem uma "ação urgente da comunidade internacional para prevenir nova expulsão dos cristãos do Médio Oriente". Ao mesmo tempo, pedem à comunidade internacional que "faça todos os esforços possíveis para pôr fim ao terrorismo valendo-se de ações comuns, conjuntas e coordenadas", mas de modo "responsável e prudente". E os cristãos devem rezar para que Deus "não permita uma nova guerra mundial".

A declaração conjunta dos dois líderes religiosos, naquele que é o primeiro encontro entre o bispo de Roma e o patriarca de Moscovo em mil anos de separação das duas Igrejas, foi assinada ontem, cerca das 17.00, em Havana (22.00 de Lisboa). No documento, Francisco e Cirilo dizem que, ao levantar a voz em defesa dos cristãos perseguidos, exprimem igualmente a sua "compaixão pelas tribulações sofridas pelos fiéis doutras tradições religiosas, também eles vítimas da guerra civil, do caos e da violência terrorista".

Os líderes das duas maiores igrejas cristãs recordam a violência que já causou milhares de vítimas na Síria e no Iraque, os milhões que ficaram sem casa e a urgência de restabelecer a paz civil. "É essencial garantir uma ajuda humanitária" às populações martirizadas, afirmam, apelando a que se faça tudo para libertar pessoas raptadas.

Francisco e Cirilo pedem que todas as partes se sentem à mesa das negociações, de modo a permitir o regresso dos refugiados, a cura dos feridos e uma paz duradoura. E prestam homenagem aos cristãos que foram já vítimas do martírio - os cristãos são, atualmente, a confissão religiosa mais perseguida no mundo. Os mártires "pertencentes a várias Igrejas mas unidos por uma tribulação comum, são um penhor da unidade dos cristãos".

A declaração, em 30 pontos, refere ainda "o êxodo maciço dos cristãos" do Médio Oriente, a preocupação com as ameaças à liberdade religiosa, a importância do diálogo inter-religioso e a responsabilidade dos líderes religiosos na recusa de "ações criminosas" em nome de Deus.

A integração europeia não deve recusar o respeito das identidades religiosas, e os países ricos não podem ignorar a sorte de milhões de migrantes e refugiados, nem a extrema necessidade e pobreza: "A crescente desigualdade na distribuição dos bens da Terra aumenta o sentimento de injustiça perante o sistema de relações internacionais que se estabeleceu."

O conflito na Ucrânia merece uma referência explícita: "Convidamos todas as partes do conflito à prudência, à solidariedade social e à atividade de construir a paz." E as igrejas devem "trabalhar por se chegar à harmonia social" e abster-se de participar ou agravar o conflito.

Neste encontro de "irmãos na fé cristã", como se definem, Francisco e Cirilo acrescentam que se encontraram "longe das antigas disputas" europeias e, por isso, sentindo "mais fortemente a necessidade dum trabalho comum entre católicos e ortodoxos".

A separação e as possibilidades de encontro entre as duas Igrejas é, aliás, o outro grande tema deste documento que põe fim a mil anos de tensão. Os dois líderes lamentam os conflitos do passado, manifestam-se conscientes das dificuldades do presente e esperam que o próprio encontro possa a restabelecer a unidade e ajudar a aplanar as tensões que ainda permanecem.

"Não somos concorrentes, mas irmãos", escrevem, dizendo que católicos e ortodoxos comungam da mesma visão sobre o papel da família, e que "devem aprender a dar um testemunho concorde da verdade".

Jornalista do religionline.blogspot.pt

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