Francisco Costa: "Em Lisboa vimos a boiar carros, nos concelhos limítrofes vimos a boiar pessoas"

As cheias de 1967 sempre preocuparam Francisco Costa. O geógrafo do departamento de geografia da Universidade do Minho estranhou a falta de estudos sobre o tema, e resolveu, com outros colegas, fazê-lo. E ajuda a perceber o fenómeno extremo e violento, que acontece uma vez por século. Foi há 50 anos.

O que aconteceu na noite de 25 para 26 de novembro de 1967? Foram as chamadas cheias rápidas...

Há aqui fenómenos importantes para perceber o que aconteceu. O ano de 1967 foi pouco chuvoso. Estamos a falar de cerca de 800 milímetros no total do ano. Aliás o princípio do outono também foi muito marcado por uma seca, como este ano. No início de novembro começou a chover, houve uma sequência de quatro ou cinco dias, depois com valores já muito significativos. Temos uma depressão convectiva que resulta do encontro de massas de ar com características diferentes, que se centrou em Lisboa e vale do Tejo. O que temos é um episódio excecional, anormal, que tem uma frequência em termos centenários de uma ou duas vezes por cada cem anos, com uma grande intensidade e concentração da precipitação de cinco horas, das 19.00 à meia-noite, em que aí se registaram valores superiores a 100 mm, quer no Monte Estoril quer em São Julião do Tojal, por exemplo.

Os locais em que chove mais, como o Estoril, não são onde há registo de mais mortes.

Exatamente. Temos de pensar que tem que ver com a questão das vulnerabilidades. Por um lado, temos as precipitações intensas que atingem regiões distintas, mas temos de pensar no que respeita às vulnerabilidades socioeconómicas. É uma Lisboa nos anos 1960 que é atingida por um fenómeno que é o êxodo rural maciço, que são pessoas que vêm do interior e vão viver para a região periurbana e naquela altura o que aconteceu foi que houve a construção de bairros de génese ilegal e de muitas barracas. Essa construção clandestina foi feita principalmente junto às linhas de água, de fortes limitações físicas e ambientais. Estamos a falar de terrenos que eram facilmente vulneráveis à inundação, à precipitação. E isso era mais visível nos concelhos limítrofes de Lisboa. Repare que no interior da cidade, o número que foi apontado na altura foi de três ou quatro mortos. Na cidade o que aconteceu? Nós vimos a boiar essencialmente veículos, enquanto nos concelhos limítrofes vimos a boiar pessoas, a serem levadas pela corrente de lama. Isso tem que ver com o não existir uma política de habitação, não estar preparado para esse movimento fortíssimo que foi ocupar bacias hidrográficas que tinham determinadas características físicas e humanas, eram suscetíveis - Odivelas, Quinta da Várzea, vale do ribeiro de Odivelas, Trancão, Póvoa, Jamor, Barcarena. Eram bacias de pequena dimensão, circulares, compactas, que levam a que haja convergência das águas e por isso muito suscetíveis a este tipo de desastre.

Quintas (Castanheira do Ribatejo) é a localidade onde se dá o maior número de mortos. O que aconteceu ali? A ideia que dá é que foi uma coisa muito rápida, não houve tempo de reagir.

Não houve tempo, foi uma coisa muito rápida, de minutos. E porquê? Dá-se a chuva, as águas começam a acumular e a dada altura saem do canal e começam a levar materiais que vão encontrando. Estamos a falar de terras sem qualquer tipo de proteção, transformam-se em enxurradas e quando chegam à aldeia aquilo já está num movimento de massa que vai levar as pessoas e destruir as casas. Temos ali dois montes com uma determinada altitude, com um determinado declive, uma encosta está situada a noroeste e outra a sudoeste. Depois temos o rio Grande da Pipa que corre num vale aluvionar, num leito de cheia, já na fase terminal, a chegar ao rio principal. Temos milhares de toneladas de água com material que o rio transforma num enxurro. A aldeia foi invadida por várias enxurradas, as que se formaram nas encostas e o rio acabou por apanhar os materiais porque o canal estava estrangulado e quase de certeza que as águas devem ter saído do canal do rio e seguido a direito pela estrada que vai dar até Quintas.

Qual o papel do rio Tejo nestas cheias?

O Tejo tem um papel muito reduzido que tem que ver com as marés vivas. Apesar de se terem verificado ocorrências em quase toda a península de Lisboa, percebe-se que é nas bacias em torno da capital que se observaram mais problemas (Póvoa, Jamor e Barcarena, Trancão e do rio Grande da Pipa). A altura em que ocorreu esse fenómeno rápido, de cheias rápidas, flash floods, estava a ocorrer uma maré alta. O que é que isso significa? Que o mar entra pelo rio Tejo e o Tejo vai transformar-se num obstáculo para o escoamento dos cursos de água mais pequenos. Muita gente que fala das cheias de 1967 acha que são cheias do rio Tejo. Não tem nada a ver com isso.

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