Filas do aeroporto? "Não atribuam responsabilidades ao SEF. São todas da ANA e do Governo."

Acácio Pereira, presidente do Sindicato da Carreira de Investigação e Fiscalização do SEF, elogia o novo ministro da Administração Interna e aconselha o Governo a dar um "passo ao lado" na ideia de extinguir aquele organismo. As consequências seriam "um desastre"

Acácio Pereira torna-se subitamente mais acalorado na conversa quando, já perto do fim, surgem as perguntas sobre as enormes filas de espera que têm sido registadas nos últimos dias nos aeroportos nacionais, sobretudo em Lisboa.

O problema, assegura, está na ANA - empresa gestora dos aeroportos - e não no SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras). As 16 boxes na Portela por onde os passageiros têm passar e ser vistoriados estão completas a cem por cento com agentes da polícia de fronteiras e o problema é que, segundo afirma, não é possível construir mais. Dito de outra forma: o problema só se resolve com um novo aeroporto, o que Lisboa tem já se esgotou.

Quanto às ideias do PS para a extinção do SEF - uma ideia aparentemente agora em modo de pausa - mostra-se naturalmente contra e aconselha o Governo, a cujo ministro da Administração Interna deixa grandes elogios, a dar um "passo ao lado." O importante - avisa - é que o Executivo nada faça sem ouvir todos os "players" envolvidos. E isto sendo certo, no seu entender, que faz sentido separar no SEF as atividades de polícia criminal em relação às outras que o organismo desempenha. O que não admite é ver agentes da PSP ou da GNR a fazer o que os agentes do SEF agora fazem - falta-lhes a "cultura específica" para isso.

Há umas semanas disse que a PSP e a GNR vão acolher, ficar, repartir, não sabemos bem ainda, o SEF, mas não estão bem vocacionadas para esta tarefa porque, e cito, "têm problemas estruturais de xenofobia e racismo". Quer esclarecer essas declarações?
Essas declarações foram retiradas de um contexto específico e é nesse contexto que temos de as ler, é uma nota que foi enviada ao senhor Presidente da república. Questões de racismo e xenofobia existiram em todas as forças e serviços de segurança, com maior ou menor intensidade, e a probabilidade de existir mais em forças grandes é maior do que em forças mais pequenas.

Isso é só a lei das probabilidades.
É só a lei das probabilidades, nada mais que isso, e o que foi dito na altura baseou-se em notícias recentes sobre alguns acontecimentos. O que nós dizemos é que não há nenhum ganho em transferirem as competências do SEF para a PSP ou para a GNR porque estamos a falar de forças de segurança de competência genérica. Enquanto o SEF é um serviço segurança de competência específica, vocacionado para uma determinada área. Portanto o facto de transferir as competências só por si não traz nenhuma vantagem acrescida. Problemas existem em todas as instituições, não há instituições perfeitas e, portanto, é necessário é melhorar as instituições e esse deve ser o foco principal.

Mas a morte de um cidadão ucraniano às mãos de colegas seus do SEF não devia ter levado, no seu caso como dirigente sindical experimentado, a uma maior prudência ao fazer uma afirmação como aquela?
Foram afirmações feitas num determinado contexto e é apenas nesse contexto que devem ser interpretadas e não isoladamente. Em relação ao facto em si, é um facto que condenámos na altura e continuamos a dizer que é um ato hediondo, é um ato criminoso, está na justiça e é aí que deve continuar a ser tratado. Mas não foi um ato de racismo, foi um ato puro de ilícito e nada mais do que isso.

"Continuamos a dizer que [a morte do ucraniano Ihor Homenyuk no aeroporto da Portela às mãos de agentes do SEF] é um ato hediondo e criminoso. Está na justiça e é aí que deve continuar a ser tratado. Mas não foi um ato de racismo, foi um ato puro de ilícito e nada mais do que isso."

Com a extinção anunciada e ainda sem novas decisões, como é que se vive dentro do serviço?
Vive-se uma indefinição muito grande e não sabemos se é o princípio do fim ou fim do princípio. Esta questão já se põe há bastante tempo, neste momento, mudámos de ministro, o ator político é outro e, na altura, na sequência desse ato isolado, do triste episódio do aeroporto de Lisboa, o ministro à data optou por uma fuga para a frente e optou por dizer que então se ia extinguir. Mas sem nenhuma sustentação, sem nenhum estudo, não havia nada disso.

E o que sente agora é o Governo a recuar?
Não, para já não faço nenhuma análise sobre isso. O que posso dizer é que estamos perante um ministro da Administração Interna distinto, alguém que tem um sentido de Estado muito grande e já o demonstrou. Tem uma sensibilidade política muito grande nesta área e, portanto, há dias disse numa conferência que organizámos, que estas questões deviam ser vistas e feitas com serenidade e tranquilidade. Até porque estamos numa área fundamental do Estado de Direito que é a segurança dos cidadãos, não é propriamente uma coisa de menos importância. Portanto, qualquer decisão nesta matéria, devem ouvir-se todos os atores intervenientes, não só os intervenientes políticos, mas também os intervenientes na área da justiça. Também os demais atores no espetro da segurança interna, e se no futuro se pensar bem, talvez esta lei que extingue o SEF possa ser melhorada e daí resulte um benefício para o país e para os cidadãos, que é aumentar a capacidade deste serviço de segurança e aumentar aquilo que é a segurança garantida aos portugueses.

"O que está [no programa de Governo] é a separação orgânica das funções policiais e administrativas. E nessa questão convergimos todos, convergimos os funcionários, o sindicato, os trabalhadores, os partidos políticos."

A extinção do SEF não estava no programa do Governo, estava apenas a separação de funções policiais com funções administrativas. No seu entender, foi o caso do ucraniano assassinado no aeroporto que fez acelerar esta decisão?
Ainda bem que me faz essa pergunta porque é importantíssima. Quando se diz que no programa do Governo não está, no programa do Governo não está, o que está é a separação orgânica das funções policiais e administrativas. E nessa questão convergimos todos, convergimos os funcionários, o sindicato, os trabalhadores, os partidos políticos.

Mas ficarem as duas estruturas debaixo do mesmo chapéu?
É uma questão que poderia ser analisada, mas depende do modelo. Seria um modelo eventualmente estudado e se se chegasse à conclusão que era o mais adequado. Mas não se falava numa extinção, falava-se numa separação orgânica e nisso, como lhe digo, estamos todos de acordo.

O SEF ficaria com o quê? Com a parte administrativa de receção de emigrantes ou com a investigação criminal?
A interpretação que faço é que seria dividir o SEF em duas partes distintas: uma seria a componente administrativa e a componente policial ficaria do outro lado, era a interpretação que fazia do programa de Governo e a interpretação que faço.

Mas o SEF ficava com qual?
O SEF ficaria com a parte policial, naturalmente.

De alguma forma estavam a reivindicar a parte melhor e a deixar a parte mais aborrecida, digamos assim, para outras forças?
Não se saberia qual era o modelo, não há aqui partes mais importantes ou menos importantes, todas elas são importantes. Era a documentação de cidadãos ou era a parte policial, mas todas elas são importantíssimas. Todas estas áreas têm demonstrado a capacidade do Estado português em responder nesta área tão importante como é o controlo das fronteiras, a questão dos migrantes e a questão do asilo. São áreas importantíssimas e, nomeadamente, numa delas temos muito bons resultados apresentados, que é na questão do tráfico de seres humanos. O SEF foi talvez das únicas polícias ou mesmo a primeira, a conseguir de alguma maneira resultados positivos nesta matéria e essa é a prova da necessidade de um serviço como este para garantir que Portugal continue a ser um país seguro e que o tráfico de seres humanos seja algo que fique à porta das nossas fronteiras.

"O falecido Jorge Coelho, numa situação da queda da ponte de Entre-os-Rios, ele diretamente não tinha nenhuma responsabilidade mas assumiu essa responsabilidade política. E penso que, na altura, deveria ter sido feito o mesmo, quer pelo ministro, quer pela direção do SEF, nomeadamente a sua diretora na altura, deviam ter-se demitido."

Admitiu já nesta conversa que o anterior ministro, Eduardo Cabrita, fez uma fuga para a frente na sequência da morte de um cidadão ucraniano no aeroporto de Lisboa. Nessa altura, o próprio serviço, os seus inspetores, os seus funcionários, deveriam ter feito o quê para recuperar a imagem de um serviço que ficou danificada?
Temos de ver vários planos: o plano político, o plano político-administrativo do SEF e dos demais funcionários. O que lhe posso dizer é que, no plano dos demais funcionários, estes continuaram sempre a fazer o que sabem de melhor que é garantir a segurança das nossas fronteiras, o controlo do tráfico de seres humanos e a proteção das vítimas. Na altura, e já o disse publicamente, a direção do SEF e o poder político deveriam ter assumido as suas responsabilidades políticas. Não basta dizer que se é diretor ou ministro para se dizer que é responsável, é preciso executar essa responsabilidade política. Dou-lhe um exemplo: o falecido Jorge Coelho, numa situação da queda da ponte de Entre-os-Rios, ele diretamente não tinha nenhuma responsabilidade, mas assumiu essa responsabilidade política. E penso que, na altura, deveria ter sido feito o mesmo, quer pelo ministro, quer pela direção do SEF, nomeadamente a sua diretora na altura, deviam ter-se demitido. A situação era de uma gravidade muito grande e essa era a melhor forma de proteger todo o processo e de dar credibilidade ao mesmo.

O senhor é sindicalista, é dirigente sindical, representa inspetores, mas é também inspetor e com funções até de responsabilidade. Três colegas seus foram condenados por esta morte, mas outros que estavam ao serviço nessa noite e que nada fizeram para socorrer este cidadão ucraniano continuam a trabalhar no aeroporto. Isso deixa-o a si, enquanto profissional, enquanto sindicalista, enquanto inspetor, enquanto ser humano, confortável?
A resposta é muito clara: não, não deixa. Aliás, sou humano, sou cidadão e preocupo-me com a proteção das pessoas. Não estou a condenar essas pessoas, porque têm direito à presunção de inocência até à decisão transitar em julgado, mas naturalmente não me deixa satisfeito e deixa-me numa situação desconfortável. Importa aqui dizer que a generalidade dos inspetores que prestam serviços no SEF são pessoas competentes, dedicadas e são pessoas que têm o interesse público à frente daquilo que são os seus desígnios no dia-a-dia.

O Governo diz acreditar que os bons profissionais do SEF vão continuar o seu bom trabalho, na PJ, na PSP ou na GNR. O que é que pode correr mal? Que especificidade do trabalho dos inspetores do SEF corre maior risco de ficar comprometida?
Todas as estruturas têm uma cultura própria, o SEF tem uma cultura própria, a PSP tem uma cultura própria, a GNR tem uma cultura própria, a Polícia Judiciária tem uma cultura própria. Naturalmente, estamos a dividir competências por três entidades distintas se este processo for avante. No que é o controlo de fronteiras, fala-se que seria transferido para a PSP e para a GNR, mas isto nos demais países recomenda-se que seja a mesma entidade a controlar as fronteiras. Portanto, nessa medida, já estamos a ver aqui uma dificuldade acrescida e nem é preciso ir muito longe, nem é preciso o processo estar iniciado, para vermos nas páginas dos jornais a concorrência entre a PSP e a GNR no controlo dos terminais de cruzeiro. Não há aqui um entendimento, há uma concorrência e acho que vamos ter menor qualidade de controlo se esta questão avançar.

"Tenho esperança que não se interprete como um passo atrás se houver uma alteração nesta decisão [de extinção] do SEF. Preferiria dizer que seria um passo ao lado."

É verdade que a maior parte dos inspetores do SEF querem ir para a PJ e não para a PSP ou GNR?
Não tenho dados concretos que me permitam dizer se são 20 ou 100, mas o que posso dizer é que o SEF foi criado à imagem daquilo que é a estrutura da Polícia Judiciária, a hierarquia é semelhante e os vencimentos são semelhantes.

E não é militarizada...
Não é de todo militarizada, portanto, será sempre mais fácil uma reestruturação que passe por uma entidade similar do que para as outras. Não é possível fundir coisas diferentes, tanto haverá sempre anticorpos e haverá sempre dificuldades em fazê-lo, tanto de um lado como do outro.

Para quem nos está a ler e ouvir, a extinção do SEF é dada como adquirida, foi uma promessa política, e nesta altura estamos em terra de ninguém. Como é que estão a trabalhar neste momento, sem saber qual é o rumo, isso tem complicado operacionalmente o vosso trabalho?
Se lhe dissesse que não, estaria a iludi-lo a si e aos portugueses. Trabalhar numa situação de indefinição não é bom para nenhuma das partes, mas tenho esperança que não se interprete como um passo atrás se houver uma alteração nesta decisão do SEF. Preferiria dizer que seria um passo ao lado e acho que seria ajuizado ouvir todas as partes, ouvir todos os intervenientes, ouvir todos os atores políticos e se se mantiver uma situação semelhante à que estava, penso que não é nenhum problema. Em democracia temos de perceber uma coisa muito clara: nem sempre se acerta nas decisões. Uma decisão, que se chegarmos à conclusão que não é a melhor solução, tem mais mérito para um governo assumir que não é a melhor e corrigir, do que persistir no erro.

E durante todos estes meses tem havido conversas entre o sindicato e o Governo e entre o sindicato e os sindicatos da PSP, da GNR e da PJ? Ou seja, os tais players de que falava têm estado em conversação, sobretudo com o Governo, ou não?
Como players temos dialogado com o Governo e também contribuímos publicamente para demonstrar que estávamos de acordo quando o ministro tomou a decisão de adiar a extinção do SEF porque não havia, naquela altura, condições objetivas para se poder avançar. O diálogo entre o sindicato e o Governo tem existido, tem havido uma postura diferente deste ministro e deste ministério, o diálogo entre os demais players e o Governo, tenho informação que também tem existido. O diálogo entre players, que são os sindicatos, não é prática esse tipo de reunião, aliás, não teria efeito nenhum objetivo e direto. Mas posso dizer-lhe que tenho mantido contactos e reuniões informais com todos os demais players, parceiros e sindicatos das demais forças e serviços.

Acabou de dizer que se houver uma decisão diferente, não deve ser visto como um recuo, mas como um passo ao lado. Objetivamente, que promessas é que o Governo ou este ministro lhe fizeram de que a extinção do SEF pode não acontecer, ou que a reestruturação do SEF pode não passar pela sua extinção?
Não me fez nenhuma promessa e tenho de ser muito claro para que não fiquem dúvidas no ar. O que têm sido as conversações com o ministério é o que é público e nada mais que isso, mas a minha esperança é numa tutela diferente, num ministro experiente que tem demonstrado que o interesse público está acima de todas as questões.

Mas que sinais ou impressões lhe deu este ministro para dizer isso com tanta convicção?
Não posso falar daquilo que não me é transmitido. Não tenho nenhum sinal, a não ser o que é público e nada mais que isso. O único sinal foi de adiar a decisão porque não havia condições à data, mas não tenho mais nenhuma outra decisão que lhe possa transmitir.

"Será um desastre [a extinção do SEF] porque vamos ter fronteiras menos seguras, vamos ter uma quebra daquilo que é o combate ao tráfico de seres humanos, vamos ter dificuldades acrescidas no que é o trato com os migrantes, vamos ter pior serviço ao cidadão."

Sente que este ministro tem mais peso junto do primeiro-ministro do que o anterior?
Acho que são pessoas diferentes e os momentos também são diferentes. A política não são só as pessoas, são as pessoas e os momentos.

O Observatório para a Segurança Interna disse que a transferência de competências será um desastre para a segurança do país. O que é que pode dizer que contrarie ou confirme isto?
Corroboro a opinião do Observatório para a Segurança Interna nessa matéria. Será um desastre porque vamos ter fronteiras menos seguras, vamos ter uma quebra daquilo que é o combate ao tráfico de seres humanos, vamos ter dificuldades acrescidas no que é o trato com os migrantes, vamos ter pior serviço ao cidadão. Vou dar-lhe um exemplo: fala-se agora num plano de contingência para o aeroporto de Lisboa e relativamente à questão das fronteiras, os inspetores do SEF são iguais aos outros cidadãos, mas têm uma formação específica que é diferenciada das demais. Portanto, têm uma formação de base que é reconhecida lá fora e cá dentro, e não podemos exigir aos colegas da GNR ou da PSP que se vão sentar a fazer esse serviço, com uma formação de três meses, que tenham a capacitação para poder desempenhar essa função devidamente. Neste momento, eles estão na primeira linha, não podemos esquecer que os aeroportos têm várias linhas de controlo e essas outras linhas são exercidas pelo SEF.

Inspetores do SEF denunciaram aqui na TSF, há umas semanas, que nesta altura a segurança nacional está comprometida devido, entre outras coisas, à falta de agentes. Confirma, desmente, acha que há dramatismo ou não?
Sempre denunciamos essa questão, é a falta de investimento nos recursos humanos, é uma questão recorrente e que tem sido aflorada ao longo do tempo.

Mas compromete ou não a segurança nacional neste momento?
Pode comprometer, porque temos pessoas a trabalhar cansadas neste momento, disso não há dúvida. Posso dizer-lhe que faço visitas frequentes a esses lugares e há dias fiz o exercício de lá estar à hora de entrada e de saída e vi, assustado, o estado físico das pessoas. As pessoas estão oito horas seguidas, praticamente, é um trabalho minucioso e muito duro e, naturalmente, a possibilidade de falha aumenta quando as pessoas estão sobrecarregadas. E há um stress grande e junta-se a isso a incerteza desta situação.

Mas o stress faz parte da profissão.
Faz parte da profissão, mas há um stress anormal face àquilo que são as necessidades do pessoal. É uma dimensão anormal face aquilo que são as exigências, os constrangimentos e face ao trabalho do dia-a-dia.

Sente que há um problema de exaustão?
Diria que estamos perto. Haverá situações em que se está perto da quase exaustão, não em todos os sítios, mas nos sítios de maior movimento. Como lhe disse, vou algumas vezes fazer a visita à entrada e à saída e nota-se, é perfeitamente percetível.

Uma espécie de herança ou testamento que o SEF deixará - com o SEF como o conhecemos hoje não sabemos o que irá acontecer -, quais são os principais alertas que PSP, PJ e GNR devem ter em conta, sobretudo em matéria de rotas migratórias e ameaças transfronteiriças?
A essa pergunta, o alerta que tem de ser dado não é a essas entidades, mas sim ao Governo. Acho que esta decisão de reestruturar o SEF tem de ser ponderada, bem pensada, têm de ser ouvidos todos os players e têm de ser vistas quais as vantagens e desvantagens. É engraçado que, até hoje, nunca ouvi uma justificação para a extinção do SEF, uma justificação objetiva. E se esta justificação não existe, os funcionários têm dificuldade em perceber, assim como os cidadãos também têm dificuldade em perceber, e apenas vejo uma justificação política e nada mais.

Mas pode admitir que haja resistências internas à mudança por mera inércia?
Não, não acho. A resistência que existe é porque há uma consciencialização que vamos perder uma especialização. Na sociedade, toda ela, a tendência normal é especializar, mas aqui vamos deixar de ter uma estrutura especializada para ter uma estrutura generalista. Acho que quando vamos ao médico e temos doença identificada, vamos ao médico especialista e aqui é exatamente a mesma coisa. Vamos ter um downgrade das funções, as funções exercidas pelos inspetores do SEF é de complexidade três na administração pública, ou seja, exigem licenciatura para o seu exercício. O que é certo é que, em termos gerais, vamos ter um downgrade, se esta questão for avante, vamos ter uma diminuição daquilo que são as exigências.

Era melhor que o Governo parasse, mandasse estudar, fizesse uma comissão, fizesse contas, e depois anunciasse o que vai fazer? O que é que diria ao Governo para tentar travar este processo?
Acho que das minhas palavras é fácil inferir que o Governo devia ouvir todos os players para tomar uma decisão acertada e que representasse um aumento da segurança e a melhoria de todo o sistema. Tenho esperança que, sendo o ministro José Luís Carneiro uma pessoa avisada politicamente e um democrata com sentido de Estado, garantidamente procurará fazer o que será melhor para o país. E, na minha perspetiva, o que será melhor para o país é que se melhore a lei que fala da possibilidade de extinção do SEF. Melhorar a lei permite ajustar às necessidades do país no momento e, como disse, tomamos decisões a nível individual e político e mais tarde podemos concluir que não são as melhores. E é meritório ter uma decisão acertada, mas diria que ainda é mais meritório assumir que a decisão não era a melhor e alterar.

E que esperança tem que isso possa acontecer?
Sou um otimista por natureza e por isso é que sou presidente de um sindicato. Como otimista, tenho esperança de que a solução seja aquela que responde às exigências do país, e que seja repensado e mantido o SEF.

Tem esperança, mas não tem garantias?
Se fosse ministro, podia garanti-lo, mas como sou apenas presidente do sindicato, tenho esperança que isso possa ocorrer.

Acha que é um bom tempo para se decidir coisas dessas enquanto se assiste, por exemplo, a explosões de procura turística e enormes filas no aeroporto?
O tempo, a conjuntura política internacional e o aumento do turismo, na minha perspetiva, recomendaria prudência e que esta questão fosse analisada ponderadamente. Penso que o momento é o pior possível. Temos uma guerra na Europa, temos milhares de refugiados, temos o aumento do turismo em Portugal, portanto, penso que será o pior momento possível.

E acha que este debate público sobre se se extingue, reformula, reestrutura, etc., serve para não pôr no topo da agenda a necessidade de mais quadros no SEF?
Numa determinada altura, sim. Neste momento, não há forma de iludir a falta de pessoal e, naturalmente, se o serviço for para continuar, então tem de ser dotado dos meios. Neste momento, não tem os meios necessários para poder proceder com os seus objetivos.

"O aeroporto de Lisboa não tem capacidade para crescer nem tem condições para aumentar o número de boxes [do SEF]. Não atribuam responsabilidades ao SEF quando não as tem. A responsabilidade única é da ANA e do Governo."

Portugal tem sido notícia nos últimos dias por longuíssimos tempos de espera no aeroporto em relação aos serviços do SEF. Os trabalhadores do SEF estão cientes do prejuízo que isto causa à imagem de Portugal? Isto é um problema de falta de quadros do SEF ou é um problema dos aeroportos que não têm capacidade para abrir gates e instalar postos do SEF?
Essa pergunta é interessantíssima no atual contexto. O aumento do tráfego internacional tem demonstrado que este problema se põe um pouco por todo o mundo, mas acentua-se mais em Portugal, porque o aeroporto não tem capacidade de aumento das boxes.

O aeroporto tem 16 boxes, todas elas ocupadas, haveria quadros no SEF para ocupar 20 ou 25?
Mas essa é outra questão. Não podemos reduzir a questão a se o SEF tem ou não tem. O SEF, neste momento, está a fazer um plano de contingência e estão a alocar-se pessoas para trabalhar nos aeroportos de Lisboa, Faro e Porto. O que lhe posso dizer é que o aeroporto de Lisboa não tem capacidade para crescer, nem tem condições para aumentar o número de boxes. Não atribuam responsabilidades ao SEF quando ele não as tem nesta matéria, a responsabilidade única é da ANA e do Governo. É lamentável, e tenho aqui um dado que identifica bem esta questão, que é que o aeroporto de Lisboa tem 55 lojas de marca depois do controlo de segurança e tem 16 boxes. Portanto, isto demonstra bem qual é o interesse e o que é mais importante. Depois há outra questão: a ANA, e não sei de quem é a responsabilidade pelo novo aeroporto, mas já o deviam ter construído que já ouço isso desde miúdo. O que é certo é que nunca mais essa solução é ajustada e, entretanto, temos aqui um aeroporto sobrecarregadíssimo. E pior que isso é que concentram os voos num determinado espaço temporal muito curto e eu compreendo a necessidade da TAP, como é um hub, de fazer a transferência de passageiros para o resto da Europa. Ou seja, os voos chegam aqui e depois passam para o outro lado, mas o que é certo é que o aeroporto não tem capacidade. Digo-lhe o seguinte: o aeroporto, com as 16 boxes abertas, e tendo cerca de um minuto por passageiro, consegue processar essas 16 boxes abertas entre 800 e 1000 passageiros. Temos picos de passageiros de 2500, de 5000 e temos períodos de quase 10 mil passageiros a um determinado momento, portanto, é impossível haver capacidade de resposta. E há uma coisa que é preciso dizer aos portugueses: seria muito fácil praticar uma política de abrir porta, ou seja, os inspetores do SEF não cumprirem os critérios mínimos. Mas não, os inspetores do SEF fazem o controlo de segurança. E é esse controlo de segurança, sobretudo, que tem contribuído para ter um Portugal seguro, porque no dia em que deixarmos de ter um Portugal seguro, não vendemos turismo. Vendemos segurança e no dia em que deixarmos de ter um país seguro, ninguém quer saber de Portugal e nunca mais ninguém aqui vem.

Tem sentido pressões por parte do Governo ou dos operadores turísticos para que o SEF melhore essa resposta no aeroporto? Ou seja, disse que a responsabilidade não é do SEF, mas a perceção é de que a responsabilidade é do SEF.
Essa é uma análise perfeita, porque a perceção que se tem é que a responsabilidade é do SEF. Andou-se a encobrir o problema e a forma mais fácil foi culpar o SEF e não se assumir as responsabilidades. Dou-lhe um exemplo: outros aeroportos do mundo têm um sistema que é áreas distintas para desembarque de passageiros e nós defendemos a existência destas áreas diferenciadas já há muito tempo, nomeadamente para voos problemáticos.

O que são voos problemáticos?
São voos onde há um risco maior, quer de segurança, quer migratório, dependo da sua origem. Mas a resposta que obtivemos foi ao contrário, porque criou-se uma área distinta, mas foi para os passageiros do Reino Unido, do Canadá e dos Estados Unidos. Diria que é quase racismo comercial, uns têm um tratamento diferenciado para melhor e os outros são concentrados neste sítio que não tem condições, que está em rutura e que não tem capacidade para responder, mesmo que o serviço colocasse lá mais inspetores a trabalhar.

Admite que aquele plenário de há poucas semanas, quando estava a chegar uma quantidade absurda de passageiros como já referiu, foi uma espécie de resistência passiva do SEF a dizer que também podem complicar se quiserem?
Não acredito, não tendo sido eu o vocábulo, não me parece que tenha sido isso. Estou convencido de que não foi isso e que tem mais a ver com a questão da instabilidade que se vive. Isto ficou demonstrado e não é um plenário ou uma situação dessas que prejudica ou deixa de prejudicar. O prejuízo existe, como lhe disse, pela incapacidade de drenar. Se há uma vantagem desta questão toda, é que me parece que as pessoas acordaram para a necessidade de construir uma nova estrutura ou, pelo menos, melhorar esta. Não sou especialista em aeroportos, mas posso dizer que este é um aeroporto herdado do tempo das nossas colónias, era para transportar militares e passageiros que lá viviam, e acho que nunca houve uma verdadeira evolução. Estamos atrasados 50 anos em relação aos outros países e se queremos continuar a competir no mercado global do turismo, devemos continuar a apostar em políticas de segurança que tenham o SEF como motor e, nomeadamente os operadores turísticos, devem apontar baterias não a culpar o SEF, mas a apontar à verdadeira causa que é a falta de infraestruturas que respondam às necessidades do país.

joao.p.henriques@dn.pt e pedro.cruz@tsf.pt

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