Esboço de acordo de Paris é "inconsistente"

Segundo especialistas, "o acordo em cima da mesa é um documento entre débil e perigoso, muito longe de uma agenda para salvar a humanidade"

Cinco especialistas em clima denunciaram hoje que o conteúdo do último esboço do acordo da conferência de Paris é "inconsistente" com o objetivo de limitar a subida da temperatura a dois graus e tentar que não ultrapasse 1,5 graus.

"A nossa frustração [relaciona-se com o facto de] os compromissos propostos pelos países para cumprir as metas são absolutamente insuficientes e inconsistentes, e o acordo em cima da mesa é um documento entre débil e perigoso, muito longe de uma agenda para salvar a humanidade", defendeu o diretor do Instituto Potsdam de Estudo do Impacto Climático alemão, Hans Joachim Schellnhuber. Opinião semelhante têm mais quatro cientistas climáticos.

"Se se começa um acordo dizendo que a sua meta deve ser não ultrapassar os dois graus de aumento da temperatura, esse texto deve marcar um caminho de compromissos e metas racionais para atingir esse objetivo, caso contrário, demonstra vontade política mas falta de realismo e de verdade", disse, por seu lado, o diretor do Centro Tyndall de Investigação Climática, Kevin Andersen.

Os investigadores realçaram que, para atingir o objetivo fundamental que os países propõem com o acordo do clima de Paris, de limitar a subida da temperatura do planeta, "a economia mundial deve estar descarbonizada em 2050" e para que não aumente mais de dois graus as emissões devem descer, pelo menos, cerca de 70% em 2050 em relação aos níveis de 2010.

Esta referência a uma redução de 70% das emissões mundiais em 2050 aparecia no texto de acordo até quinta-feira e era defendida pela União Europeia e pelos estados mais vulneráveis ao aquecimento, mas foi eliminada do último rascunho.

"Se queremos estar a salvo dos graves riscos das alterações climáticas, precisamos da descarbonização total da economia em 2050, e que os países comecem a trabalhar a partir de segunda-feira" nesse sentido, segundo Steffen Kallbekken.

Aquele objetivo "pode ser conseguido", mas não esperando até 2020, quando entraria em vigor o acordo de Paris, mas sim reduzindo as emissões entre 10% e 15% antes dessa data, com um pico em 2020, e caminhando até à meta de emissões zero em meados do século, acrescentou Hans Joachim Schellnhuber.

Os especialistas consideram que, para ser consequente com a sua finalidade, o acordo tem de falar em acabar com a queima de combustíveis fósseis, já que 90% das reservas devem manter-se no solo para que a temperatura não aumente mais de dois graus.

Também realçaram que o acordo que se tenta agora alcançar em Paris é "mais débil" que aquele analisado, sem êxito, em Copenhaga, em 2009.

"Há muitas possibilidades de que este texto melhore nas próximas 24 horas, mas o nosso receio é que até a referência à neutralidade climática em meados no século desapareça", acrescentou o diretor do diretor do Instituto Potsdam.

Os representantes de 195 países mais a União Europeia estão há duas semanas em Paris, na conferência do clima (COP21), para conseguir um acordo vinculativo para a redução emissões de gases com efeito de estufa.

O final da conferência estava inicialmente previsto para hoje, mas foi adiado para sábado.

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