"Isabel II serviu um porto no almoço em que estavam os monarcas do mundo"

A família luso-britânica Symington é dona de marcas como Graham's e Cockburn's, mas tudo começou em 1882 quando o escocês Andrew chegou ao Porto. Paul e Charles Symington falam da ligação ao Reino Unido e do respeito por Isabel II, que quinta-feira faz 90 anos.

Como surgiu esta ideia de um vinho do Porto Graham's para celebrar os 90 anos de Isabel II?

Paul Symington (P.S.) - Há uma tradição anglo-portuguesa em volta do vinho do Porto. No exército britânico, por exemplo, qualquer regimento quando faz um daqueles jantares anuais o brinde à rainha é sempre feito com vinho do Porto. O mesmo acontece nos navios: o brinde ao monarca é feito com um porto. Também quando a rainha recebe chefes de Estado serve-se um vinho do Porto. Aconteceu recentemente com o presidente chinês em Londres e até foi um nosso. Assim, é natural que se celebre este aniversário com um vinho do Porto especial.

O Paul recorda-se da rainha na primeira visita ao Porto em 1957?

P.S. - Tinha 4 anos...

Mas tem alguma memória?

P.S. - A única memória, e foi porque a minha mãe me disse, foi ser proibido estar presente quando a rainha veio para a feitoria [risos]. Sei também que estive na casa da família Cálem na Foz para ver a rainha passar. A minha irmã mais velha, sim, lembra-se.

É curioso que o vosso antepassado Andrew Symington tenha chegado a Portugal no século XIX quando reinava Vitória e agora Isabel II bate o recorde de longevidade dessa monarca. Acreditam que Isabel II, tal como a trisavó, já garantiu um lugar na história?

Charles Symington (C.S.) - Isabel II tem sido exemplar. Tem mantido uma postura inspiradora. E mesmo na época em que vivemos, com os Estados cada vez mais democráticos e grande transformação social, a rainha tem o apoio a cem por cento do povo. Acho que a história a descreverá como uma grande monarca.

A popularidade de Isabel II é o mais eficaz antídoto contra o republicanismo nas Ilhas Britânicas?

C.S. - A monarquia é natural lá. Não me recordo de alguma vez ter encontrado um inglês que tivesse algo de mau para dizer da rainha.

O vosso antepassado era escocês, vocês são portugueses e também ingleses. Como se consideram?

P.S. - A minha mãe é de Lisboa. A do Charles é portuguesa, a mulher também. O meu cunhado é português. Estamos aqui junto ao Douro e esta é a nossa terra. Mas temos essas origens, que acarinhamos, e também do ponto de vista empresarial sabemos que as Ilhas Britânicas são um mercado importante para o vinho do Porto. Vamos muitas vezes a Inglaterra fazer provas. É vital para o futuro. Por isso também o enorme respeito pela rainha. Ela faz parte da alma do Reino Unido.

Referi a origem escocesa porque a Escócia é a parte do Reino Unido que ameaça separar-se. Como veem a possível independência?

P.S. - Acho que seria triste a desintegração do Reino Unido. Existe há séculos e obviamente há diferenças. O escocês sente-se bastante diferente do inglês e tem orgulho no seu país, mas isso não significa que o Reino Unido não faça sentido. E o voto no referendo - acho que foram 55% contra a independência - foi para que se mantenha como está.

C.S. - Estamos a viver numa época invulgar, de separatismos, basta olhar também a Catalunha. Mas no caso da Escócia duvido que saia mesmo. É uma ameaça, mas no fim acredito que fique no Reino Unido.

Por falar em ameaça, o que pensam do brexit, a eventual saída do Reino Unido da União Europeia?

C.S . - Pessoalmente tenho pena se vier a acontecer. Como disse, sou meio inglês e meio português, acho muito melhor que a Inglaterra esteja integrada na União Europeia. Mas há o perigo que aconteça. Na Inglaterra, realmente há muita gente que está contra a União Europeia.

Esta desconfiança em relação à União Europeia tem que ver com a tradicional opção do Reino Unido de seguir o próprio caminho?

C.S. - Cada Estado tende a apontar o dedo à Europa quando as coisas correm bem e cala-se quando acontece o contrário. Nunca ouvi britânicos a elogiar a União Europeia mas também creio que o Reino Unido nunca teve o envolvimento desejável e por isso também pode ser responsabilizado pela situação.

O brexit é mau para Portugal? Afetaria, por exemplo, as exportações de vinho do Porto?

P.S. - Há riscos. Se o Reino Unido sair haverá impostos novos sobre as importações, a que se soma o risco cambial que já existe. Não só por isso, também não estou a favor de o Reino Unido sair. Mas francamente gostaria de ver Bruxelas a funcionar de outra forma. Gostaria de ver reformas de fundo na maneira como a comunidade é gerida. E estou a pensar mais nos interesses de Portugal quando digo isto. Acho que as imposições feitas a Portugal têm sido muito rigorosas. O apertar do cinto pode ser necessário, mas depois tem de haver outras políticas.

Acha que Portugal tem mais razões do que o Reino Unido para se queixar da União Europeia?

P.S. - Sim. Eu como o meu primo Charles nascemos aqui. As nossas famílias são uma mistura. Sentimo--nos totalmente europeus. E portanto estamos, e eu muito especialmente, a favor da comunidade europeia. Mas as reformas necessárias não foram feitas e há muitas áreas cinzentas. Portugal, que obviamente beneficiou muito com a integração europeia, nos últimos seis ou sete anos tem sofrido muito. É preciso a Europa criar uma nova visão.

Falem-me da origem da família. Andrew chegou ao Porto em 1882 e por via do casamento ligou-se a famílias com séculos de ligação ao vinho do Porto. Como foi isso?

P.S. - Beatriz, com quem Andrew casou, era meio portuguesa, meio inglesa. E a parte inglesa da família estava cá já desde o século XVII.

Porque Andrew veio para o Porto?

P.S. - Havia cá várias empresas escocesas, incluindo a Graham's. Mas o negócio principal deles era o têxtil, e o têxtil tinha muita ligação com Glasgow, de onde a família era originária. Ele veio para cá rapaz e trabalhou na área do têxtil da Graham's e passados dois anos saiu e foi para a área dos vinhos. Mas a ligação da Escócia com Portugal e o vinho do Porto é curiosa. Muitas das empresas têm nomes escoceses.

Mais escoceses do que ingleses?

P.S. - Sim, sim. Mas porque veio ele? Não havia nenhuma ligação, a não ser que a família Graham tinha cá já umas fábricas grandes. Poderia ter ido parar à Índia ou à Argentina.

E como acontece esta aquisição que muitas décadas depois a família Symington faz da Graham's?

P.S. - Isso é acidente da história. Quase nunca acontece. Os nossos pais, meu e do Charles, e os tios, acabaram por comprar a empresa para onde o avô tinha vindo trabalhar.

C.S. - Com 19 anos.

P.S. - É interessante ter acontecido. Ninguém pode planear, mas aconteceu à Graham's algo que é comum em empresas familiares. E nós estamos conscientes disso. Há normalmente um período de grande crescimento, depois um de consolidação e depois, se não se planear muito bem, as empresas começam a desfazer-se. E no nosso setor, nos 37 anos que estou aqui, já vi isso acontecer várias vezes. E é muito triste empresas familiares com grande tradição, ou porque a gerência correu mal ou por simplesmente não haver sucessão, serem compradas. E nós tentamos fazer o melhor para manter a continuidade. O Charles tem filhos, e estão aqui. Os meus também, embora no Reino Unido atualmente. Todos temos vontade de dar essa continuidade porque temos orgulho na bisavó Beatriz, que era portuguesa, e no que fazemos.

Algum elemento da família real já esteve nas vossas caves em Gaia ou nas quintas no Douro?

P.S. - A princesa Diana esteve cá no Porto quando o nosso tio James era presidente da feitoria inglesa. E foi ele que a recebeu e ao príncipe Carlos. E ele, claro, conversou com eles, mas nós ficámos cá atrás [risos]. Com a rainha não tivemos ainda esse prazer. O nosso primo Johnny, sim, foi apresentado, porque há uns anos recebeu uma medalha da rainha.

E em relação ao futuro da família real? Carlos rei convence-os?

C.S. - É uma pessoa com um perfil diferente do da rainha, disso não há dúvida, mas vai ser um bom rei.

P.S. - Concordo com o Charles sobre o príncipe. E gostava de voltar um pouco atrás, àquilo que o meu primo disse também sobre a rainha. Tem--se visto estes escândalos todos na banca e na política, mas a realidade é que, por estranho que possa parecer haver hoje reis e rainhas, o facto de Isabel II estar completamente separada desses mundos tem sido excelente para o Reino Unido. Porque ela passa por cima disto. Não precisa de dar favores ou receber favores, E essa independência é muito importante, como o Charles referiu,

E isso é mais mérito de Isabel II ou da instituição monárquica?

P.S. - É dela. Em parte até pode ser da instituição, mas tem havido reis que se meteram em sarilhos. Mas Isabel II começou muito jovem. Quando esteve cá no Porto pela primeira vez tinha 31 anos. E já era a quarta visita oficial. E quando assumiu o trono disse que ia dedicar a vida a essa tarefa. Todos os presidentes dizem o mesmo. Dizem sempre que vão ser presidentes de todos, mas depois há as ajudas que é preciso recompensar. Mas Isabel II passou por cima disso tudo. E esse respeito que o Charles referiu é notável. Mesmo os franceses, que são muito republicanos, falam de La Reine. E aqui em Portugal, quando se fala da rainha, só há uma.

E o facto de ser também a líder da Commonwealth, chefe de Estado de países como o Canadá ou a Austrália, também ajuda à aura?

P.S. - Sim. Fala-se pouco disso. Mas é apaixonante ver a rainha a liderar um grupo de países, ex-colónias, que estão juntos por partilharem o sentido da lei, onde os direitos são respeitados e a democracia existe.

Como reage quando ouve dizer que o Reino Unido, tal como a França, é uma potência em decadência? Que agora quem conta são os Estados Unidos e a China?

P.S. - Realmente eram poderes da primeira linha e hoje em dia não são. A Rússia, os Estados Unidos, a China e eventualmente a Índia é que são. Mas a cultura e a criatividade da França e do Reino Unido continuam a dar a estes países um peso muito grande nos fóruns mundiais. A Europa continua a dar muito ao mundo, das invenções às tradições, como os nossos vinhos. O que é que se bebe na Ásia? Um vinho do Porto, um bordéus. Pode já não haver império, nem colónias, mas continua a haver certa inveja das nossas tradições. E isso aplica-se a Portugal, como ao Reino Unido e a França.

C.S. - A Europa desunida não tem grande futuro. E mesmo nessa matéria de poder internacional a Grã--Bretanha vai perder se sair mesmo da União Europeia. Já não é o tal British Empire do século XIX [risos].

O Paul falou do vinho do Porto nos brindes à rainha. Mas é só nas elites que é consumido? Os ingleses comuns bebem porto?

P.S. - Bebem sobretudo no Natal. E é uma coisa que nos preocupa. Há duas grandes tradições britânicas: o vinho do Porto nas cerimónias do Estado e no Natal. O português tem o bacalhau na consoada, o inglês o vinho do Porto. Antes havia consumo de vinho do porto ruby nos pubs. Fazia parte da cultura. Hoje vende--se menos nos pubs mas mantém-se nos jantares. Por isso estamos confiantes, sobretudo nos Reserva, LBV, 10 Anos e 20 Anos e Vintage.

Tiveram de pedir autorização à rainha para lançar este Graham's 90?

P.S. - Não. Tivemos de pedir autorização, isso sim, ao Instituto do Vinho do Porto, que tem umas regras muito firmes sobre números e datas nas garrafas. Em termos da rainha, o nosso parceiro no projeto é a Berry Bros e o dono é atualmente o chefe da cave real. Quando a ideia surgiu, nós pedimos-lhe para saber se seria aceite. Ele falou com quem devia e a resposta foi que estavam de acordo com o conceito. Mas não se trata de maneira alguma de uma aprovação oficial. A nossa empresa tem de ter muito cuidado, os nossos vinhos são regularmente servidos nas cerimónias oficiais e a casa real não quer que ninguém abuse da ligação.

A China, cujo presidente bebeu um porto vosso à mesa com a rainha, é já grande compradora?

P.S. - Não. Nem para o setor nem para nós. Está a começar. Mas vai ser um trabalho árduo. Mas o facto de um vinho do Porto ter sido servido quando o presidente da China foi ao Reino Unido conta. Na China foi publicada a ementa e estava lá um vinho do Porto. Por acaso era um nosso, um Warre"s Vintage 1977. No dia seguinte chegaram encomendas.

Fazem ideia se a rainha é grande apreciadora de vinho do Porto?

P.S. - Bem [risos], ela serve sempre vinho do Porto nas cerimónias, portanto suponho que aprecie.

C.S. - Deve ser. Há um outro porto que lançámos em 2012 no jubileu de diamante da rainha, o Graham's 1952, e ela fez questão de servi-lo no almoço no Castelo de Windsor em que estavam praticamente todos os monarcas do mundo.

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