"É preciso olhar para além da insuficiência cardíaca"

A Miocardiopatia Amiloide por Transtirretina (ATTR-CM) é uma das possíveis causas de insuficiência cardíaca, cujo diagnóstico precoce é fundamental para prolongar o tempo e qualidade de vida do doente. É assim fundamental que tanto a sociedade em geral como os profissionais de saúde estejam bem informados sobre a doença para que o diagnóstico e o acompanhamento adequado do doente seja iniciado o mais cedo possível.

Ao contrário do que acontece com outras doenças cardiovasculares - como o enfarte agudo do miocárdio, conhecido como ataque cardíaco, ou o acidente vascular cerebral (AVC) - que, ao longo dos últimos anos, e fruto de campanhas informativas e do reforço da prevenção, reduziram a sua incidência, a insuficiência cardíaca (IC) continua a crescer e é hoje um problema de Saúde Pública no mundo ocidental pelo impacto que tem na vida dos doentes e na sociedade. Para Carlos Aguiar, cardiologista que dirige a Unidade de Insuficiência Cardíaca Avançada e Transplante Cardíaco do Hospital de Santa Cruz, "hoje percebemos que o quadro desta doença é preocupante, temos uma noção mais exata da sua prevalência, suspeitamos mais da sua presença e fazemos mais diagnósticos, mas também conseguimos tratar melhor do que antes".

No entanto, Carlos Aguiar alerta que, em Portugal, "há muita gente por diagnosticar". Apesar da estimativa da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, que aponta para a existência de cerca de 400 mil portugueses com insuficiência cardíaca, o cardiologista acredita que "não estarão [todos] diagnosticados e, por isso, é importante que, se suspeita da doença, quando clinicamente justificado, se façam os exames necessários para chegar a um diagnóstico".

Adicionalmente, completa Dulce Brito, cardiologista no Centro Hospitalar Lisboa Norte (CHLN), e professora na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, é muito importante garantir um diagnóstico precoce que determine a causa desta doença. "É preciso olhar para além da insuficiência cardíaca", diz. Uma afirmação que vai ao encontro do tema da talk Olhar para além da insuficiência cardíaca, uma iniciativa do Diário de Notícias, com o apoio da Pfizer, que ontem foi transmitida em direto no site do jornal.

Com o objetivo de explicar qual a dimensão do problema da insuficiência cardíaca em Portugal e no mundo, clarificando que doença é esta, Carlos Aguiar e Dulce Brito foram os convidados especiais para esta conversa. Abordando em especial a Miocardiopatia Amiloide por Transtirretina (ATTR-CM), uma das possíveis causas de insuficiência cardíaca que reduz progressivamente a qualidade de vida e os anos de vida do doente e que, se não for tratada, pode causar uma morte prematura, os clínicos tentaram clarificar quais os sintomas que apresenta e de que forma pode ser diagnosticada.

Feito o diagnóstico da insuficiência cardíaca, é fundamental encontrar a sua causa para que a terapêutica possa ser a mais adequada. "Precisamos de conhecer a razão pela qual está a aparecer o mau funcionamento do coração, para saber como melhor tratar a pessoa", explica Carlos Aguiar, caso contrário os sintomas serão aliviados ou minimizados, mas o foco do problema mantém-se.

É preciso estar atento aos sinais de alerta

Mas, que doença é esta, cujo nome é complicado de reter e de pronunciar? Trata-se de uma patologia que não é tão rara como dantes se pensava e que muitas vezes está relacionada com o envelhecimento "Sabemos que a idade provoca a alteração de uma proteína que se chama transtirretina", explica Dulce Brito. Esta proteína acaba por desagregar-se e transformar-se em pequenas fibrilhas que se depositam em vários órgãos, entre os quais o coração. Manifestando-se por norma acima dos 60 anos, estas alterações da transtirretina ligada ao envelhecimento pode levar ao aparecimento de sintomas como cansaço, falta de ar ou inchaço nos tornozelos, provocado pela retenção de líquidos, mas que por si só não permitem um diagnóstico, uma vez que são comuns a outras patologias. Numa fase mais avançada, acrescenta Dulce Brito, "começamos a não tolerar estar deitados porque sentimos congestão dos pulmões, falta de ar, uma vez que o coração não consegue dar vazão ao sangue que recebe. Trata-se de insuficiência cardíaca".

Outros sintomas que podem indicar que estamos perante Miocardiopatia Amiloide por Transtirretina são, como destaca a cardiologista, reumático nas mãos ou dormência nas articulações, síndrome do túnel cárpico (punho), ou até dores nas costas, manifestações que podem aparecer muitos anos antes do problema cardíaco e que são também muito frequentes com o avançar da idade.

Precisamente, devido à dificuldade em fazer um diagnóstico rápido, Carlos Aguiar recomenda que se a pessoa se sentir cansada, sem encontrar uma explicação para esse estado e, sobretudo, "se esse cansaço piora com o tempo ou se nota que faz retenção de líquidos, deve procurar um médico". Esta visita ao médico, com a descrição deste tipo de sintomas, irá precipitar a realização de alguns exames simples, como o eletrocardiograma ou o ecocardiograma, que ajudarão a fazer o diagnóstico. "Através do ecocardiograma conseguimos perceber se o coração funciona bem e, se não, qual é o seu grau de incapacidade", explica Dulce Brito. Este exame permite igualmente avaliar se as válvulas cardíacas estão bem, ou até se o coração está grande. Por outro lado, acrescenta a cardiologista, "também podemos pedir análises mais específicas do coração, como os péptidos natriuréticos".

Diagnóstico precoce é essencial

Descoberta a causa da insuficiência cardíaca por Miocardiopatia Amiloide por Transtirretina, de que forma é gerida a doença e quais os desafios? Antes de mais, explica Carlos Aguiar, é fazer o diagnóstico o mais cedo possível. "Uma das coisas que infelizmente tem caracterizado esta doença, é que o diagnóstico é frequentemente atrasado três ou quatro anos". E, quanto mais cedo o diagnóstico e o tratamento avançarem, melhor, tal como acontece em qualquer outra patologia. Segundo o cardiologista, há estudos que revelam que os doentes percorrem vários médicos, de diversas especialidades, em busca de um esclarecimento para a sua patologia. Por isso, alerta, "a primeira coisa a fazer, é reconhecer que isto existe". Dulce Brito acrescenta: "O alerta que o Dr. Carlos Aguiar referiu não se deve estender apenas à população leiga, mas também aos nossos colegas que possam não lidar tão frequentemente com este tipo de situação".

Dulce Brito salienta ainda que, quer a insuficiência cardíaca por si só, quer a ATTR-CM, se podem manifestar, por exemplo, através de hipertrofia do ventrículo esquerdo - o que pode ter diferentes causas -, "muitos colegas podem não estar alerta para que possa corresponder a ATTR-CM". A cardiologista explica que os profissionais de saúde têm que pensar nessa possibilidade em vários contextos, desde a medicina geral e familiar, à medicina interna, cardiologia, reumatologia, ortopedia ou outras especialidades. "O mais importante é ter uma suspeita, porque a partir daí é tudo mais simples. Este é o tipo de patologia em que se não há suspeita, passa-nos ao lado", acrescenta Carlos Aguiar.

Os médicos recordam que, doentes e profissionais de saúde devem estar atentos aos sintomas já apontados, tais como o cansaço, a falta de ar, o inchaço nos tornozelos e pés, ou até dores reumáticas e na coluna, e que qualquer destes sinais deve desencadear a realização de exames de diagnóstico. "A boa notícia é que, hoje, estes exames são muito menos invasivos. Dantes, em algumas situações, era necessário retirar uma amostra do tecido cardíaco", salienta Dulce Brito.

Sem um acompanhamento clínico adequado, a progressão da insuficiência cardíaca reduz, ao longo do tempo, a independência do doente e exige períodos de internamento cada vez mais frequentes. "A maioria das pessoas com insuficiência cardíaca sente notória limitação para fazer coisas habituais. Essa é uma das dimensões desta patologia crónica que acaba por ter bastante impacto na qualidade de vida dos doentes", afirma Carlos Aguiar.

Informar e apoiar para combater a doença

A literacia sobre o tema é, na opinião de Dulce Brito, fundamental. No entanto, a professora alerta para os perigos das fontes de informação. "Sei que as pessoas consultam muito a internet, o que é compreensível, e tem o seu lado bom de nos manter informados das coisas, mas por outro lado, tem um lado perverso que é o facto de às vezes não sabermos interpretar a informação". Em todo o caso, acrescenta, "o conhecimento do doente e do público em geral, é um grande poder que cada um adquire. Ter mais conhecimento ajuda-nos a lidar melhor com este tipo de situações".

Uma fonte credível, e que pode ser útil é o website www.heartfailurematters.org da Sociedade Europeia de Cardiologia, grupo de cientistas que também tem doentes a representar as pessoas com patologias cardíacas, recomenda Carlos Aguiar.

"Os doentes ajudam a construir materiais, que depois são traduzidos em várias línguas, e é possível consultar esses materiais que são uma fonte segura, validada cientificamente, e escrita em linguagem de doente para doente, o que é muito importante", acrescenta o clínico. Em Portugal, a Sociedade Portuguesa de Cardiologia disponibiliza igualmente um conjunto de informação acessível à população em geral.

Quer como fonte de informação e de esclarecimento de dúvidas, quer como local de partilha de experiências, as associações de doentes são locais de apoio, igualmente muito importantes para o acompanhamento dos doentes e dos seus familiares. A Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca (AADIC), da qual Dulce Brito é membro do conselho técnico-científico, é uma destas entidades que nasceu para apoiar quem sofre destas patologias, e onde se inclui a Amiloidose cardíaca enquanto causa de insuficiência cardíaca. "As associações de doentes têm um peso enorme e um papel muito grande no apoio que proporcionam", diz a cardiologista. Ou seja, "comunicando com outras pessoas que têm o mesmo problema, há uma partilha de experiências, de dúvidas, de expectativas, de resultados, há diálogo e sabemos que não estamos sós, que há outras pessoas com a doença", defende.

As associações de doentes podem apoiar os doentes em termos logísticos, jurídicos, de facilitação de encontrar um caminho, de acesso a medicamentos, e de disseminação de informação. Para saber mais, a cardiologista recomenda uma visita ao site da AADIC, em www.aadic.pt.

Em jeito de mensagem final, Dulce Brito e Carlos Aguiar reforçam a importância de estar atento aos sintomas e, em caso de suspeita de que pode ter esta doença, dirigir-se de imediato ao médico de família. Afinal, quanto mais cedo for feito o diagnóstico e iniciados os tratamentos adequados, melhor será a resposta e maior será a esperança de uma vida com qualidade.

Não deixe de assistir à conversa entre os dois cardiologistas, na íntegra:

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG