Dos insetos às bactérias, da covid às praias. A Saúde Pública vigia tudo

É a área da saúde que tem como prioridade toda a população. E não tem reforços no Verão, a equipa é a mesma de todo o ano, mas só o aumento de pessoas na região é um fator para a vigilância redobrada. Por isso, montam armadilhas para identificar insetos, analisam águas, areias e alimentos, ao mesmo tempo que continuam a vigilância à covid-19, à legionella, à tuberculose e a fazer rastreios ao cancro. As equipas da Saúde Pública não param, de verão ou de inverno. O DN termina aqui esta série de reportagens sobre como se está a prepara o Algarve para este Verão.


A tarde avança naquela sexta-feira de fim de maio. No Laboratório Laura Ayres, situado à entrada da cidade de Faro, os técnicos finalizam mais um dia de trabalho. As amostras recolhidas ao longo do dia serão analisadas quer na área clínica, quer na área da saúde pública, as duas em que está dividida a sua resposta. A criação do laboratório "é um motivo de orgulho" para quem escolheu esta área da medicina e ali trabalha. O nome que lhe deram diz tudo - Laboratório Laura Ayres, o nome de uma das figuras mais importantes na Saúde Pública que o país já teve, uma médica, professora universitária e virologista, nascida há 100 anos em Loulé, completados no dia 1 de junho.

A visita guiada que nos fazem, liderada pela farmacêutica e responsável técnica do laboratório, Aida Fernandes, reflete o espírito a que nos dizem serem fiéis diariamente: um espírito de missão, de gosto pela Saúde Pública e pela vontade de fazer bem e cada vez melhor. "Não somos muitos, temos falta de alguns meios, mas fazemos todos e, por vezes, com grandes sacrifícios pessoais, o que podemos", sintetiza Ana Cristina Guerreiro, médica de saúde pública há muito, que ainda privou com Laura Ayres, uma das pessoas que a inspirou, e que desde 2012 é a autoridade de Saúde Pública na região algarvia.

"O nosso laboratório tem duas grandes áreas, a clínica, onde damos resposta na área das análises, fazemos todo o tipo de exames que qualquer outro laboratório privado ou convencionado faz, dando resposta ao centro hospitalar do Algarve. Fazemos a vigilância à tuberculose e os rastreios aos cancros da mama, do cólon e do útero (HPV). Na área da saúde publica a vigilância é dividida entre a monitorização das águas balneares, praias, piscinas, consumo humano, insetos, legionela e alimentos", explica-nos.

Na verdade, programas que a Saúde Pública leva a cabo durante o ano inteiro e não só no verão, porque a região tem especificidades próprias, mas nesta época alguns têm de ser reforçados. É o caso do "programa de vigilância de doenças transmitidas por artrópodes (insetos) ou o programa de controlo da doença do legionário", explica Ana Cristina Guerreiro. "São dois programas muito fortes que temos na região há muitos anos e dos quais fomos pioneiros em relação ao país",a firma.

No caso das doenças provocadas pelos insetos, o programa foi criado no início da década de 2000, porque é das regiões com maior tendência para o aparecimento de insetos e de alguns vírus oriundos de outras partes do mundo. A delegada de Saúde recorda que foi o aparecimento de dois casos do vírus do Nilo, em 2004, que reforçaram a ideia de que este programa tinha de ser posto em prática.

Agora, "já o temos muito bem oleado. Monitorizamos os mosquitos e depois a doença. Fazemos o que se chama uma vigilância etimológica". Um tipo de vigilância que obriga a que durante o ano inteiro haja postos fixos, com armadilhas, em determinados pontos da região, nomeadamente junto ao aeroporto, portos, marinas para identificar os insetos que circulam na região.

"Nestes postos temos de ter armadilhas sempre, porque a sua vigilância decorre mesmo da lei internacional. Depois, entre maio e novembro esta vigilância é reforçada com armadilhas em pontos considerados problemáticos ou que nós sabemos que podem constituir uma fonte de alerta para os mosquitos que aí vêm e para as doenças que podem trazer", sublinha Ana Cristina Guerreiro.

Neste momento, sabem que há na região "vários mosquitos capazes de transmitirem doenças, incluído o aedos Albopictus, que é competente na transmissão de Dengue e de Zika, mas, felizmente, nunca tivemos nenhum caso deste tipo de doença transmitida na nossa região. Mas há esse risco e por isso vigiamos", explica a médica.

Armadilhas ao nascer do sol e ao pôr do sol

Muitas vezes, ainda o calor não chegou e já os técnicos de saúde ambiental, que integram as equipas da Saúde Pública, andam ao nascer do sol pelos campos e pelas cidades a colocar armadilhas aos insetos, porque a metodologia de análise assim o exige. O objetivo, além da identificação dos que aí vêm e as doenças que podem trazer, é saber em que quantidade e a dimensão que podem atingir no Verão. O normal é começarem a chegar a partir de maio e irem embora quando novembro se aproxima e a vigilância é feita de Vila Real de Santo António a Portimão. "Ainda não abrange a região toda, mas um dos nossos objetivos é ir de uma ponta à outra do Algarve", refere a médica.

Mas quer este ano ou em qualquer outro, Ana Cristina Guerreiro lembra que é possível prevenir a presença deste tipo de inseto, mesmo no verão, desde que se diminua a quantidade de fatores criadores de insetos, como, por exemplo, "um vaso de flores com um prato para a água", afirma a rir.

"É muito simples, mas as pessoas esquecem-se disso. O aedos albopictus adora a água que fica na base dos pratos e desenvolve-se rapidamente". Outra situação é evitar alguns dos reservatórios de águas para os animais, como banheiras antigas e outros, onde são muito comuns em zonas de animais de grande porte, como cavalos.

À medida que tais situações vão sendo detetadas, "os técnicos ambientais vão fazendo a educação da população para o efeito que estas podem ter", mas a informação também é passada às autarquias para que evitem elas próprias a criação de reservatórios que aumente o número de insetos. O importante, sublinha Ana Cristina Guerreiro, é a população não esquecer que quando vem para o Algarve deve trazer repelente e colocá-lo diariamente ou quem recebe visitantes dar-lhes condições e habitações protegidas com janelas de rede, por exemplo.

Da vigilância das águas às baleias e golfinhos

A Saúde Pública sabe que o verão acarreta vigilância redobrada, sobretudo no litoral, e há muito que é desenvolvido "um programa de vigilância das águas balneares e das zonas envolventes". Este ano as preocupações são a redobrar, "sabemos que vamos ter uma afluência elevada. As praias vão estar sobrelotadas e temos de monitorizar as águas, as areias e a proliferação de algas. No ano passado, tivemos um problema com as algas, que embora fossem de um tipo inofensivo eram em quantidade excessiva que deixam um cheiro nauseabundo nas praias", explica a delegada de Saúde.

Mas assim que surge uma situação tudo é analisado e a informação partilhada com as autoridades marítimas, ambientais e também da saúde. "Trabalhamos em articulação para podermos tomar as melhores decisões no caso de ser necessário interditar uma praia ou zona", refere, dando um exemplo: "Durante o verão é normal o aparecimento de baleias ou de golfinhos mortos na areia e isto implica a intervenção da autoridade marítima, mas também da saúde pública, porque "uma situação destas pode trazer múltiplos problemas à saúde da população e ao ambiente". Este ano, ainda não tiveram de lidar com nenhuma situação destas, "mas ainda agora estamos no início", avança a médica.

As piscinas são um problema no verão e fora dele. Aliás, "fora de época é quando temos mais problemas porque muitos condóminos não as enchem, deixam águas paradas, e isso é ótimo para a bicharada e para os problemas de pele que aparecem depois", alerta. Quanto ao verão, e embora seja feita a vigilância das águas, "os grandes estabelecimentos de turismo sabem quais são as regras e cumprem-nas para melhor servir os hóspedes", conclui.

Das temperaturas aos alimentos e à Legionella

Quando se fala de verão, fala-se de aumento das temperaturas e a Saúde Pública tem um programa específico para as monitorizar, ao longo do ano, mas o foco é o Verão. "O programa é de monitorização de temperaturas extremas e adversas e sempre que se aproximam ondas de calor temos de informar a população, porque "o calor desidrata". E basta "um idoso descompensar a sua doença crónica por causa do calor e de não estar hidratado podemos ter um grande problema mais complicado", sublinha Ana Cristina Guerreiro.

No interior do Algarve, onde estão os concelhos com maior densidade de população idosa, a educação para a situação das temperaturas é uma preocupação. "Temos de estar sempre a alertar os idosos para a necessidade de beberem água, para terem as casas frescas, de procurarem lugares refrigerados, sombras, de não apanharem sol nas horas em que está a pique e para usarem sempre protetores solares". No entanto, e como destaca, estes concelhos também servem para a população em geral, para estabelecimentos hoteleiros, unidades de saúde e lares, onde "há sempre que lembrar que devem ligar ares condicionado e fazer a sua manutenção para manterem um ambiente fresco".

Mas o aumento das temperaturas impõe também uma vigilância reforçada dos alimentos por parte da Saúde Pública, que é feita de forma aleatória nos estabelecimentos de turismo, em restaurantes, cafés, bares nas cidades ou nas praias, ou quando é feita alguma denúncia. E a delegada de saúde alerta: "Muitas situações de intoxicação acontecem nesta altura porque os alimentos que as pessoas levam para as zonas de lazer nem sempre vão bem acondicionados. É preciso que sejam transportados em recipientes com gelo e colocá-los em áreas frescas."

A vigilância da doença do legionário, provocada pela bactéria legionella, é outro dos programas anuais, mas com foco também no verão. Recentemente houve uma atualização da legislação para a monitorização desta bactéria e Ana Cristina Guerreiro sabe que nem todas as entidades estão a par das regras que têm de cumprir, mas sabe também que a maioria dos empresários já faz a sua monitorização.

"Não lhes interessa terem problemas desta ordem e sabem que nós fiscalizamos", embora assuma que esta vigilância nem de longe nem de perto chega a todos, porque "são inúmeros estabelecimentos. Só podemos fazer uma vigilância aleatória", que é feita em entidades de turismo, mas também de saúde e de outras. "Esta vigilância é importante e conseguimos mantê-la mesmo com a vigilância à covid-19. E até agora os resultados têm sido cada vez melhores".

Não há que enganar, este ano será mais um verão com o SARS-CoV-2 a ensombrar as férias. A sexta onda começa a atenuar mais ainda ninguém sabe bem o que pode acontecer. "O clima não é tão propício ao vírus, está provado que é vírus sazonal e que a sua atividade é mais durante o frio, portanto esperamos que agora comece a diminuir a atividade", diz a delegada de Saúde. Mas a vigilância ao vírus e à doença tem de ser mantida, a par com todos os outros programas. A sorte é que o aparecimento da pandemia trouxe a esta área um reforço de profissionais.

Uma das maiores falhas é não termos viaturas para trabalhar

Neste momento, o departamento e unidades de Saúde Pública Unidades do Algarve contam com um total de 133 profissionais, 50 no laboratório, 36 no ACeS Central, 28 no ACeS do Barlavento e 19 no ACeS do Sotavento, mas ainda faltam meios, não só humanos como técnicos e outros. Ana Cristina Guerreiro admite mesmo que uma das principais falhas no departamento que dirige "é a falta de viaturas. Temos de fazer muitos quilómetros para percorrer a região e, muitas vezes, os técnicos têm de usar as próprias viaturas e às suas custas para realizarem o seu trabalho".

À Saúde Pública, falta ainda um sistema de Georreferenciação, considerado fundamental para o setor, mas independentemente de tudo isto e de o vírus da covid ainda pairar, a Saúde Pública está preparada para responder ao verão. "O importante é que os visitantes também saibam lidar com esta época do ano e procurem praias que não estejam sobrelotadas, que tenham atenção ao calor, à ingestão da água e dos alimentos e que se previnam contra os insetos". Nesta época, o Algarve vai ter postos de enfermagem nas praias, mais consultas de recurso e horários alargados nas urgências básicas no Litoral. E o INEM 32 ambulâncias no terreno.

O Algarve em números

467 495 - Habitantes espalhados por 67 freguesias de 16 municípios.

526 914 -Utentes inscritos nas unidades do Serviço Nacional de Saúde. Destes, 90 143 não têm médico de família.

7000 -Profissionais de todas as áreas nas unidades de saúde. O Centro Hospitalar Universitário do Algarve reúne 5092. Destes, 480 são médicos graduados e 364 médicos internos (844), 1087 enfermeiros, 12 farmacêuticos, 389 técnicos de diagnóstico, 544 assistentes técnicos, 1225 assistentes operacionais 135 técnicos superiores 21 informáticos e 39 de outras áreas. Os cuidados primários reúnem 1924 profissionais, destes fazem parte os profissionais das unidades de Saúde Pública, 133.

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