Dos duches à loiça. Como poupa uma família numerosa

Emília Narciso, mãe de três crianças entre os 3 e os 11 anos, deixou de pagar 30 euros por mês de água para gastar, em média, 23. A família reduziu o desperdício ao mínimo

"Se podemos gastar dez, porquê gastar 20?" É esta a filosofia de vida de Emília Narciso, consultora informática, de 40 anos, mãe de três crianças: Miguel, de 11 anos, Martim, de 6, e Manuel, de 3. Aplica-a em tudo, nomeadamente no consumo de água. Lá em casa, não há banhos demorados, descargas do autoclismo durante a noite, água a correr enquanto lavam os dentes ou máquinas de lavar em programas que não sejam os ecológicos. "Sabemos que a água é um bem escasso e que cada vez a população está a aumentar mais. Neste ano é flagrante, mas há vários anos que já adotei algumas medidas", diz ao DN.

Ao contrário do que já acontece em 173 municípios do país, em Oeiras, onde vivem, não há tarifa especial para famílias numerosas. "E é um dos concelhos onde a água é mais cara", lamenta Emília, que há alguns anos pagava, em média, 30 euros de água por mês. "Agora gastamos, em média, 22 ou 23 euros. Já conseguimos reduzir um bom bocado", refere. Reconhece que "antigamente se gastava mais porque havia algum desleixo", mas com pequenos cuidados conseguiram reduzir a fatura.

Há meia dúzia de anos, Emília decidiu colocar duas garrafas de 0.75 cl dentro de cada autoclismo para poupar "um litro e meio de água em cada descarga". As crianças também se habituaram a não fazer descargas do autoclismo durante a noite. "À medida que crescem, consigo sensibilizar mais facilmente para a necessidade de consumir menos água. Na escola também falam sobre o tema. E eles veem as notícias na televisão", afirma. E passaram a usar copo para lavar os dentes: "Cada um tem o seu. Enchem apenas metade e é só isso que usam."

Não há banhos de imersão lá em casa. "Só duches. E muito mais rápidos do que antigamente." Há alguns dias, Miguel surpreendeu a mãe: "Disse-me que queria um balde para poder aproveitar a água que vai saindo enquanto não aquece." É o único que toma banho sozinho. Se ultrapassar os cinco minutos, a mãe bate à porta. "E ele já sabe que é para sair." Emília dá o exemplo. "Se eu não o fizesse, eles não entendiam porque é que tinham de o fazer."

Para reduzir o desperdício, a consultora informática só utiliza as máquinas nos programas ecológicos. "Lavo as peças grandes no lava- -loiça e tudo o resto vai para a máquina no programa ecológico. Tal como faço com a de roupa, só a meto a lavar quando está cheia. Demoram mais, mas gastam menos água", explica. Do lado de fora da casa, "a torneira só está a dois terços para a pressão não ser tão grande dentro" da habitação. Desta forma, justifica, evita "estar sempre a dizer para não abrirem a torneira toda, uma vez que já entra menos caudal".

Na opinião de Emília, a existência de uma tarifa para famílias numerosas em Oeiras "seria uma forma de compensar, de ajudar" estes agregados, que, naturalmente, já têm despesas maiores devido ao número de pessoas em casa. "Se baixasse cinco euros por mês, ao final do ano já fazia alguma diferença. Isso não significava que as famílias fossem gastar mais", adianta.

173 tarifários familiares

De acordo com a Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN), existem atualmente 173 tarifários familiares em Portugal, tendo os primeiros surgido em 2002, em Coimbra e em Sintra. Isto quer dizer que mais de metade dos municípios (são 308 no total) já têm tarifas especiais, mas, nos restantes, as famílias numerosas continuam, segundo Ana Cid Gonçalves, presidente da APFN, a ser penalizadas. "Em vez de ser avaliado o consumo per capita, é o total da habitação. Isto faz que as famílias paguem um preço bastante mais elevado quando este tarifário não existe. Por vezes, o mesmo copo de água tirado da torneira de uma família numerosa pode custar o dobro ou o triplo do preço de um copo de água tirado de uma casa onde vivem menos pessoas", lamenta.

Ana Cid Gonçalves ressalva, no entanto, que há municípios onde o tarifário familiar não é necessário, porque "o preço não evolui de acordo com os escalões". "Apenas é preciso se houver penalização consoante o consumo", explica. Nas zonas onde isso acontece, a APFN tenta fazer "uma ação pedagógica para explicar de que forma as famílias numerosas são penalizadas". A representante diz que "para todas as dimensões familiares deve existir equidade", até porque há agregados com quatro elementos "que em alguns municípios já são penalizados".

Atendendo a que as famílias numerosas já têm um conjunto de despesas essenciais maiores - "e são essencialmente famílias de classe média" -, o facto de haver penalização no consumo de água "é uma situação extremamente injusta e que representa uma sobrecarga muito grande nos orçamentos familiares". Além disso, frisa a presidente da APFN, associado a este custo estão outros como o saneamento básico e os resíduos urbanos.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG