“Diagnóstico precoce deve ser uma aposta”

Diretor do Serviço de Infecciologia do Hospital Curry Cabral, participou no primeiro estudo sobre a população infetada com VIH com mais de 50 anos

O desafio é coordenar os antirretrovirais com medicação para as doenças que surgem pela idade (doença cardíaca, renal ou problemas ósseos). Diagnóstico precoce da infeção é outra arma para a longevidade dos doentes, sublinha Fernando Maltez.

Quais foram as principais conclusões do estudo Aging Positive?

Os resultados do nosso estudo confirmam uma realidade que não é exclusiva do nosso país. E que é que os doentes infetados com VIH vivem mais tempo, envelhecem e em sequência disso aparecem-lhe as doenças que surgem noutras pessoas não infetadas. Existe uma proporção importante de doentes seguidos em Portugal, que consideramos mais idosos, segundo os padrões internacionais, por estarem acima dos 50 anos. Dentro dessa população, além do acompanhamento do VIH, existe um acompanhamento complicado pelas comorbilidades das pessoas mais idosas. Ou seja, tem os problemas renais, ósseos, cardíacos, do sistema nervoso central, que têm também os indivíduos não infetados. O que implica que temos de saber manejar muito bem a medicação que tem que ser conjugada com os antirretrovirais.

As comorbilidades mais comuns são iguais às das pessoas não infetadas?

As comorbilidades são semelhantes na sua apresentação clínica às da população não infetada. Mas são diferentes na sua patogénese. Temos de coordenar a medicação antirretrovirais e a infeção com as comorbilidades. Diria que são iguais, mas mais complexas.

Com a evolução científica e de tratamentos é expectável que os doentes com VIH vivam mais anos com qualidade de vida?

Temos à nossa disposição terapêuticas antirretrovirais suficientemente eficazes e potentes para que estes doentes tenham sobrevida idêntica à de indivíduos não infetados. O que é preciso é que eles adiram aos cuidados de saúde e aos tratamentos.

Uma das dificuldades é precisamente manter estes doentes em tratamento. Sabe-se que dois em cada dez infetados não são acompanhado nos serviços de saúde...

Já temos hoje as armas terapêuticas necessárias para ter a infeção controlada. Desde que os doentes adiram isso permite-lhes que possam ter vidas longas, com sobrevida idênticas à dos indivíduos não infetados. Mas esse é um ponto. Penso que neste momento onde deve incidir mais a luta contra a infeção deve ser no diagnóstico mais precoce, nas medidas de prevenção e intensificação educação para a saúde, na melhoria dos doentes aos cuidados de saúde e na retenção nos cuidados de saúde.

O que leva estes doentes a manterem-se longe dos serviços de saúde?

São fatores de natureza social e económica que prejudicam este acesso. Pode ser a geografia, a pobreza, por má coordenação dos serviços de saúde, por estigma. A incidência de novos casos tem vindo a diminuir em Portugal desde 2008, mas ainda assim, mantemos uma incidência superior à da Europa Ocidental. Temos infetados diagnosticados em fases muito avançadas e numa altura em que os resultados da terapêutica não vão ser os mesmos. Estes casos são diagnosticados tarde porque das duas uma: ou não sabiam que estavam infetados e chegaram muito tarde aos serviços de saúde ou muitos sabiam e não quiseram recorrer aos serviços por estigma, pobreza ou falta de literacia para a saúde.

Quais os desafios da população idosa com VIH?

Procurar que o diagnóstico seja o mais precoce possível. E depois é preciso manejar bem, tratar bem e estar atento ao rastreio, à prevenção e ao tratamento destas comorbilidades.

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