"Devíamos estar melhor... e cada vez estamos pior"

O DN foi ver como se vive nas terras onde todos os dias morrem pessoas. E não nascem. Outros migram. Têm um quarto da população de há 60 anos, embora todos eles atraiam turistas

A Unidade Móvel de Saúde está parada na Junta de Freguesia de Vaqueiros, onde já foi a Extensão de Saúde local. Mas esta carrinha é diferente das outras, tem um médico além de um enfermeiro e de um socorrista/motorista. Estamos na vila de Alcoutim, no Algarve, a que mais população perdeu na última década, muitos emigrados para França. A equipa vai de monte em monte ver quem não se pode deslocar, praticamente todos. "60% da população tem mais de 65 anos e 50% do nosso trabalho é na casa dos utentes", caracteriza o médico José Manuel Tavares, que desafiou o enfermeiro Joaquim Seabra para este projeto, que a autarquia apoiou.

José Tavares, 60 anos, viu no despovoamento e no envelhecimento do concelho uma oportunidade de ser mais útil. "É uma situação privilegiada. Há montes no meio das serras com quatro a cinco pessoas, ontem vi uma mulher com 101 anos. Imagine alguém que está a uma hora de viagem do centro de saúde, não tem carro, e que todos os meses tem de fazer o controle médico. Vamos a casa das pessoas, entramos no coração das pessoas."

Há consultas nas salas dos utentes, em escolas desativadas, nos centros de dia e nos lares, nas casas de povo. E todos os meses há 90 montes a percorrer, para medir a glicemia, a tensão e o colesterol e passar receitas.

Joaquim Seabra, 55 anos, o enfermeiro com quem José Tavares trabalhou dois anos no Centro de Saúde de Monte Gordo, foi o parceiro ideal para o projeto, iniciado em janeiro. De manhã estão no Centro de Saúde de Martim Longo, a única freguesia do concelho com médico, e, à tarde, deslocam-se aos montes onde falta tudo, sobretudo cuidados de saúde. Até às 16.00 respondem à Administração Regional de Saúde (ARS) e depois à Câmara Municipal de Alcoutim (CMA).

O enfermeiro Seabra regressou ao sítio onde esteve há 20 anos. "Vai conhecer um enfermeiro pelo qual o povo tem um carinho terrível", avisou o médico. Acrescenta Inácia Valente, 84 anos, "nascida, criada e casada em Vaqueiros": "Ele é uma maravilha e quando aqui chegou disse "estou na minha terra"." A mulher acaba de saber que os níveis de diabetes, o colesterol e a tensão estão bons, falta o resultado do INR (índice para avaliar a coagulação). "Tenho de fazer este exame todos os meses para ver se o sangue está grosso, antes tinha de ir a Alcoutim ou a Martim Longo."

Seabra voltou à terra onde encontrou semelhanças com o país onde nasceu: Angola. Regista algumas melhorias, mas entristece-se "com o impacto do envelhecimento, por ver as aldeias a definhar". Explica: "Vivi o tempo da estrada antiga [agora há a IC27 para Vila Real], entrei em sítios sem casa de banho, também fazia a serra, não podia recusar esta proposta."

De costas voltadas para Espanha

O concelho sofre do mesmo mal das regiões do interior e que, estando na raia, viraram as costas a Espanha, não vendo isso como uma oportunidade. Perdem pessoas e serviços públicos, como centros de saúde, escolas, correios e tribunais. As terras ficam mais velhas, os solos mais desertificados e as populações mais pobres. Alcoutim é o concelho mais despovoado do país e um dos mais envelhecidos (ver ficha).

O diagnóstico é conhecido de Helena Freitas, a coordenadora da Unidade de Missão para a Valorização do Interior, recentemente criada. Está a ouvir as pessoas para definir um programa dentro de seis meses, com a certeza de que inverter a situação não é tarefa para a duração de um mandato governativo.

"Temos dois países: o do litoral, onde se concentra a atividade nacional, e o do interior fronteiriço, de tendência rural, despovoado. A faixa atlântica inspira-nos modernidade enquanto a Ibéria nos inspira a um passado, o que não é verdade, não é uma tendência secular. Espanha tem a capital em Madrid, que é uma cidade do interior, e Portugal virou-se para o Litoral. Espanha tem várias cidades de média dimensão, nós temos a capital e uma cidade de média dimensão. E não olhámos para a centralidade que o interior representa em relação a Espanha. É possível criar uma unidade, alargando as redes económicas, sociais e culturais com a sociedade espanhola."

Aquela é uma das estratégias defendidas por Helena Freitas para atrair investimento, população e riqueza para o interior. E que o presidente da Câmara Municipal de Alcoutim, Osvaldo Gonçalves, também defende (ver entrevista). O concelho é limitado pelo rio Guadiana e a minutos do município espanhol de Sanlúcar, com o qual iniciaram eventos conjuntos como a XI Feira de Doces d"Avó, que neste ano juntou gastronomia dos dois países. Atraiu muitos turistas, como acontece ao logo do ano, mas não permanecem ali umas férias.

Consultórios fechados

Voltando a Vaqueiros, a Unidade de Saúde Móvel tenta colmatar a falta que faz a Extensão de Saúde, encerrada em outubro de 2013, alegadamente porque as instalações estavam deterioradas. A autarquia propôs pagar as obras de reabilitação mas não avançou por não ter a garantia de que seria destacado um médico, explica Osvaldo Gonçalves. É José Tavares que vai à povoação, que tem 497 habitantes (Censos 2011).

"Fazemos as análises e saímos da carrinha logo com os resultados. É bom mas só temos médico uma vez por mês, agora só há em Martim Longo, nem sequer Alcoutim, a sede de concelho, tem médico (desde janeiro, são os clínicos dos centros de saúde próximos que dão uma ajuda). Devíamos estar melhor e cada vez estamos pior. Levo a receita, mas não há farmácia, peço a alguém para me comprar o medicamento ou vai o meu marido. Felizmente, temos carro, a maioria das pessoas não tem", queixa-se Maria Rita Simplício, 71 anos e dois filhos: uma a viver em França e um em Faro.

A primeira triagem é feita pelo socorrista/motorista Rui Silva, 51 anos, há dois anos e meio na Cruz Vermelha de Tavira. "São os meus idosos", diz enquanto distribui sorrisos, beijos e marca cafezinhos. "A experiência de vida destas pessoas é o mais importante. E há sempre uma boa disposição de quem nos recebe." Além de receitas antigas para a cura de maleitas, que Rui aplica - "aprende-se muito" -, como o chá de hipericão para a tensão, a flor de eucalipto que após dez dias em álcool alivia as dores musculares. E, muitas vezes, acabam por almoçar na casa dos utentes.

Os mais doentes vão à consulta ou à enfermagem. Onde foi a Extensão de Saúde é, agora, a casa da Junta de Freguesia de Vaqueiros e é no gabinete do presidente da junta que José Tavares vê os utentes. Joaquim Seabra observa os utentes na sala de reuniões. Não é por falta de gabinetes médicos, que ali continuam e estão equipados, "mas por falta de autorização da ARS para os abrir", critica Daniel Neves, o presidente da junta. "A ARS fechou esta extensão na mesma altura que a de Odeleite e de Azinhal [Castro Marim]. Constituímos um grupo com as três juntas, propusemos fazer as obras, até que desistimos porque não havia vontade política. Os nossos utentes passaram para Martim Longo e mais de metade da população não tem transporte, a viagem de táxi custa 54 euros. Nessa altura, cheguei a estar 50 dias à espera de uma consulta."

José Tavares nasceu na Argentina, filho de portugueses, e veio para Portugal há 15 anos. "Fui sequestrado na Argentina, tenho seis filhos, não podia continuar. Como os meus pais tinham regressado, decidi recomeçar naquele que também é o meu país." Aterrou em Lisboa, não gostou da confusão. Lembrou-se da reportagem que vira na Argentina sobre a falta de médico em Barrancos (Beja), uma terra que lhe pareceu "pacata". Ligou para a autarquia, foi contratado. Fazia medicina familiar e gastrenterologia e renovou o título em medicina familiar, a sua paixão.

Viveu sete anos em Barrancos antes de trabalhar no Algarve, em Tavira e em Monte Gordo. Está na área de Alcoutim há ano e meio e é o único médico do concelho. Foi destacado para Martim Longo, uma freguesia com 1030 habitantes e que era a mais populosa antes da constituição da União de Freguesias de Alcoutim e Pereiro, com a reorganização administrativa do território, em 2013.

Joaquim Seabra voltou a Alcoutim, "aos afetos". "Este é um trabalho de proximidade e fui acolhido da melhor maneira, como também precisava. Se continuar em Portugal, quero acabar a carreira com estas pessoas. É uma gratidão que estou a dar e a receber." As reticências devem-se à degradação que sente em relação à enfermagem, não só a nível das condições e do salário como da desvalorização profissional. Factos que levaram a esposa, também enfermeira, a emigrar para Inglaterra, ficando os três filhos com ele. Tem mais dois do primeiro casamento.

Não são apenas os prestadores de cuidados de saúde os ambulantes do concelho. Também os dos alimentos e as drogarias percorrem as terras em carrinhas para vender a quem não têm transporte para ir às compras. Dizem que o negócio já foi melhor. "Faço Góis, Martim Longo, Santa Justa, Pereiro, já fiz mais sítios mas as pessoas vão morrendo e ninguém vem para cá morar. Daqui a um ano ou arranjo um sítio fixo ou outro negócio. Não é que não se venda, não há é gente. As pessoas até fazem um esforço para comprar para que eu não deixe de vir."

Os lamentos são de Luís Figueira, de 43 anos, que já foi pescador e emigrante na Suíça, onde ganhou dinheiro para comprar uma carrinha para comercializar peixe, há 15 anos. Está em Góis (localidade que tem 256 residentes) e o que mais vende é o carapau e a sardinha, "o mais barato".

Escolas acolhem associações

No concelho só há duas escolas e até ao 3.º ciclo: em Martim Longo e Alcoutim. As 21 escolas do município que fecharam são agora associações, museus e até há duas transformadas em capelas. Quatro estão desativadas. As crianças têm transporte, almoço gratuito, além de um subsídio de 60 euros para a compra de livros. Os do Secundário vão para Vila Real, Tavira ou Mértola.

A autarquia atribui, ainda, um incentivo à natalidade de cinco mil euros por filho, dividido pelos três primeiros anos da criança e com reembolso das despesas que obrigatoriamente devem ser realizadas no concelho. A medida entrou em vigor em julho de 2014 e, em 2015, aumentaram de quatro para 13 nascimentos.

Martim Longo tem a escola, piscina e polidesportivo. Maria Júlia Cunha, 39 anos, três filhos, veio de Braga para se casar no Algarve. Vive num monte, em Arrizada. Reconhece que seria mais difícil viver no Norte com o que ganha. "Não conseguia ter três filhos, aqui vive-se razoavelmente porque temos apoios para estudarem." Trabalha nas piscinas das 08.00 às 14.30, é o seu terceiro POC - Programa Ocupacional de Emprego, pelo qual recebe uma bolsa de 419 euros. Antes esteve no centro de dia. O marido trabalha na câmara.

O que é que faz falta a Maria Júlia? "Emprego, transportes. Se preciso de ir a Faro tenho de ir de manhã e regressar à noite. E as crianças não têm atividades fora do tempo de aulas. No verão não têm nada em que se ocupar, vejo pelos meus três filhos, não têm transporte para os trazer à piscina. Os mais velhos vão morrendo e os que adoecem não têm os filhos para cuidar deles. De resto, é um sítio bom para viver, calmo."

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