Dados facilitam gestão da informação e do conhecimento na saúde

A tecnologia pode e deve ser um aliado na prestação de cuidados de saúde. Contudo, a componente humana e o contacto entre médico e utente não pode ser desvalorizado, nem perder-se na teia digital.


Queixas de utentes sobre o pouco tempo de consulta, a falta de atenção dos médicos, do computador que separa os clínicos de quem procura assistência, ou do tempo que o registo informático retira à conversa, essencial para o contacto e a sensibilidade - a base da Medicina - que levam a diagnósticos adequados, são frequentes entre a população. Culpa-se a tecnologia que é, frequentemente, responsabilizada por alguma desumanização na Saúde. Mas, afinal, os meios tecnológicos são facilitadores ou obstáculos na prestação de cuidados?

"A tecnologia é um grande aliado na Saúde", defende Francisca Moutinho, ex-presidente da Associação de Estudantes do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS). Para a coautora da tese Gestão da Informação e do Conhecimento, desenvolvida no âmbito do projeto Transformar o SNS, dinamizado pela Fundação para a Saúde - SNS, a que o Diário de Notícias se associou, o uso eficaz da tecnologia traz enormes benefícios quer na prestação de cuidados, quer na gestão dos sistemas de saúde. "Os futuros gestores profissionais devem ser formados para ter uma visão diferente da tecnologia, adaptada à Saúde, de forma que possa ser feita uma utilização mais eficaz dos meios tecnológicos em prol dos utentes".

"A pandemia veio ensinar-nos muita coisa sobre como é possível aceder facilmente aos nossos dados", lembra Fancisca Moutinho, ex-presidente da Associação de Estudantes do ICBAS.

No entanto, para que possa haver uma melhor gestão da informação e do conhecimento, a literacia em Saúde é um dos pontos-chave. Os cidadãos têm de estar mais informados para saber gerir melhor a sua saúde o que, na opinião de Francisca Moutinho, pode ser feito através de campanhas de informação massificadas. A vacinação contra a covid-19 é um dos exemplos que aponta: "A pandemia veio ensinar-nos muita coisa sobre como é possível aceder facilmente aos nossos dados".

Ao longo dos últimos dois anos, os portugueses em geral foram capazes de fazer a gestão da sua vacinação contra a infeção pelo vírus SARS-CoV-2 através de plataformas informáticas. Adicionalmente, hoje é possível ter acesso ao Boletim de Vacinas e a um conjunto de outras informações clínicas através da aplicação ou do portal SNS24. "Um primeiro passo para a meta de ter uma plataforma única a que o utente tenha acesso", diz Francisca Moutinho, o Processo Eletrónico Único e a interoperabilidade de sistemas de que tanto se fala.

Espaço Europeu de Dados acelera mudança

A colocação da Saúde, pela primeira vez, como uma prioridade ao nível da União Europeia (UE) é, na opinião de António Pinho, uma oportunidade para mudar e para acelerar a transformação digital do setor em Portugal, "fundamental para o país estar na frente da inovação". Para o presidente da 2.ª edição do curso de Gestão em Saúde do ICBAS e coautor da tese debatida no 10.º Podcast da série Transformar o SNS, disponível a partir de hoje no site do DN, o Espaço Europeu de Dados, "é um projeto ambicioso, mas que trará vários benefícios".

O objetivo passa por centralizar os dados de todos os cidadãos dos países da UE, para que possam ser utlizados com diferentes finalidades. Para o cidadão, exemplifica António Pinho, pode significar ter um atendimento idêntico em Serviços de Saúde de diferentes países sem necessidade de duplicação de exames, enquanto para a investigação pode significar a realização de melhores estudos, com informação mais credível. Por outro lado, abre-se a possibilidade de obter diagnósticos com opiniões de clínicos de outros países, com partilha de experiências que, em última instância, beneficiam o doente. "Quanto mais acesso a informação dispersa, melhores diagnósticos conseguimos, garantindo em simultâneo a poupança de recursos, e uma melhor gestão dos sistemas de saúde", salienta.

Contudo, para que os dados possam ser utilizados da melhor forma, é necessário garantir a sua privacidade e anonimização, e criar regulação que garanta uma eficaz gestão desta informação. "A transformação digital da saúde tem de ser feita com cidadão no centro, e vista como um meio e não um fim", aponta.

Já para Francisca Moutinho, este "empurrão" da UE na priorização da digitalização em Saúde poderá ajudar a tornar realidade em Portugal a questão da interoperabilidade dos sistemas de que há décadas se fala.

"Tem de haver uma indicação, por parte dos decisores, e ser uma prioridade", defende. No entanto, acrescenta que é necessário criar um sistema de governança em Saúde que permita perceber qual o melhor caminho, definindo a articulação entre os sistemas (privado, público e social) porque "os dados em Saúde são extremamente valiosos".

Veja o vídeo do debate em cima ou ouça o podcast:

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