Cimeira do clima: tudo adiado para hoje. Quem paga o quê é a questão

Meta da temperatura melhorou, mas as metas vinculativas caíram. Acordo será um novo ponto de partida

Os prazos foram todos ultrapassados, com as inevitáveis maratonas negociais a cumprirem-se, para não fugir à tradição, mas se tudo correr como antecipou ontem o ministro dos Negócios Estrangeiros francês Laurent Fabius, que preside à cimeira do clima na capital francesa, hoje é, finalmente, o dia que será apresentado o texto definitivo do Acordo de Paris.

Ontem persistiam ainda vários pontos de divergência, como o dos mecanismos de controlo das emissões de cada país, ou de quem vai pagar a adaptação dos países em desenvolvimento às alterações climáticas, a partir de 2020. Os ricos não querem ser os únicos a pôr dinheiro nesse fundo que já está acordado, e que terá no mínimo cem mil milhões de dólares anuais, porque consideram que há países considerados em desenvolvimento que são são campeões da poluição e devem participar nesse esforço financeiro. Esta madrugada deve, por isso, ter sido longa para os negociadores.

A divulgação do documento definitivo está prevista para 08.00 (hora de Lisboa). E, pelas 13.00, os representantes dos 196 países hão de votá-lo - para o aceitar, ou não. No segundo caso, Laurent Fabius terá de pensar rapidamente numa estratégia e ainda disporá de domingo para salvar a conferência.

Apesar de persistirem várias questões importantes por fechar, ontem já havia, no entanto, algumas ideias concretas sobre o que vai constar no documento final.

Uma dos pontos centrais que já ficou acordado é o da inclusão no texto do limite da subida máxima da temperatura em 1,5 graus Célsius até final do século, em relação à era pré-industrial. Este valor não estava no texto que chegou COP, mas era um ponto que o grupo dos países em desenvolvimento queria que constasse no texto final e ele acabou por ficar lá inscrito.

Muitos saudaram a revisão em baixa deste valor, mas alguns especialistas não ficaram convencidos. Os mais críticos apontam, nomeadamente, falta de consistência a esse compromisso, por não estar estabelecida (pelo menos nesta altura) uma estratégia para lá chegar.

É o caso de Hans Joachim Schellnhuber, que dirige o reputado Instituto Potsdam para o Estudo dos Impactos Climáticos. Ele considera que "os compromissos propostos pelos países para cumprir as metas são absolutamente insuficientes e inconsistentes", e que "o acordo em cima da mesa [até ontem] é um documento entre débil e perigoso, muito longe de uma agenda para salvar a humanidade".

Para este cientista, e para os que secundam a s sua opinião, o principal problema tem a ver com a inexistência no documento de trabalho de metas concretas de redução de emissões de gases com efeito de estufa por parte dos países. Isso estava lá inicialmente, com a previsão de uma redução de 70% emissões de gases com efeito estufa até 2050, em relação aos valores de 2010.

Mas há quem não veja as coisas assim, até porque aquela meta não permitia limitar a subida da temperatura do planeta aos dois graus. Os compromissos que cada país entregou implicariam um aumento entre 2,7 e os 3,6 graus Célsius.

"O facto de agora estar inscrito o valor de 1,5 graus no texto, implica que aquelas metas ficam ultrapassadas", explica o professor e investigador da Universidade Nova de Lisboa Francisco Ferreira, que está em Paris, integrado na delegação portuguesa, a acompanhar as negociações. "Há coisas que melhoraram e outras que pioraram no texto que agora está em cima da mesa", sublinha. "O novo valor de 1,5 é um desses ganhos, bem como o facto de já estar inscrito o valor dos cem mil milhões de dólares anuais".

Mas Francisco Ferreira reconhece que "o caráter vinculativo está mais fragilizado no novo texto". No entanto, considera ele será um bom ponto de partida para o pós-Paris.

Da mesma opinião é Ana Rita Antunes, que coordena o Grupo Energia e Alterações Climáticas da Quercus, "Vamos ter um acordo que não agrada a todas as partes, mas que é o consenso possível e, sobretudo, o início de uma nova fase, porque a partir daqui pode haver mais ambição", diz. "Manter em 1,5 graus a subida da temperatura do planeta vai exigir a revisão de todas as metas de emissões dos países", sublinha. O facto de "o texto reconhecer também, pela primeira vez, que o combate às alterações climáticas também é uma questão de direitos humanos, é outro dado positiva no texto", conclui.

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