Chegar a um acordo sobre a natureza para poder sobreviver

Depois das alterações climáticas, os decisores mundiais juntam-se agora para definir metas e um plano de ação para a natureza na próxima década. Desde ontem e até 19 de dezembro, Montreal, no Canadá, recebe a COP15 onde ser quer estabilizar a perda de biodiversidade até 2030. O DN conversou com Marta Leandro, da Quercus sobre o que esperar dos próximos dias.

O que é que se pode esperar da 15.ª Conferência das Partes para a Diversidade Biológica (COP15)?

Deverá haver uma adoção de uma espécie de Acordo de Paris para a natureza, que previna esta perda de biodiversidade com que nos confrontamos. Os números são assustadores e nós gostaríamos que houvesse já, por parte das Nações Unidas, uma consideração de que o princípio de remuneração dos ecossistemas não permanece uma externalidade da economia. No fundo, que a preservação de todo o ecossistema pudesse ser traduzido por um valor económico uma vez que de acordo com a Comissão Europeia, mais de metade do PIB mundial tem origem na natureza. Gostaríamos que estes serviços do ecossistema passassem a fazer parte dos valores económicos, do sistema de mercado, e não continuassem a ser vistos como externalidades que não são contabilizadas. Passar a contabilizar na nossa economia quanto é que custa em termos da biodiversidade e da nossa saúde derrubar uma floresta, poluir um rio, não proteger uma paisagem, não proteger devidamente os recursos hídricos.

Nesta COP quer chegar-se a um acordo semelhante ao Acordo de Paris mas para a biodiversidade. Pensam que isso é possível ou ainda há muito a impedir esse acordo?

A questão passa sempre pela vontade política. Temos já os objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas que tentam pôr em prática todos estes princípios, mas depois não existe uma suficiente vontade política que garanta que de facto a Terra e os seres vivos que nela habitam são protegidos, e esta avassaladora perda de biodiversidade não se mantenha nas próximas décadas. Nós podemos correr o risco de uma sexta extinção em massa que porá em causa a nossa sobrevivência como espécie humana.

Alguns países assinam acordos para proteger a biodiversidade mas também acordos que são prejudiciais à biodiversidade. Como é que se pode avançar quando há estas contradições?

A questão da consistência e da vontade política são aqui perfeitamente cruciais. Vemos a nível da União Europeia que temos um PRR que deveria ter por base os princípios da sustentabilidade da não agressão e da não destruição dos sistemas naturais. Mas vemos em Portugal projetos que são comparticipados por estes fundos de recuperação que não vão conduzir a uma verdadeira transição verde. É o casa da barragem do Pisão que vai destruir uma área de montado muito grande, que vai financiar mais agricultura intensiva e superintensiva e conduzir a um empobrecimento e desertificação do solo. Não compreendemos como é que a União Europeia tem o Pacto Ecológico Europeu, tem a Estratégia Europeia para a Biodiversidade 2030, e depois acaba por financiar projetos que não travam a perda de natureza.

Tem sido feito um grande investimento financeiro para combater as alterações climáticas. É necessário e tem sido feito este investimento para a biodiversidade?

Existe um objetivo político desta cimeira, e seria importante haver um compromisso sobre ele, que é a Meta 30 por 30, que é tentar ter 30% de território e de mares protegidos até ao final desta década. É preciso investir na conservação e no restauro dos ecossistemas que estão já muito vulneráveis. Alguns cientistas acham que esta meta deveria até ser mais ambiciosa e já se fala em ter pelo menos metade dos oceanos protegidos para garantir o mínimo de stocks biológicos em termos de pesca. É preciso que os países que são mais predadores dos recursos naturais sejam aqueles que estão mais comprometidos em avançar com estes objetivos.

A conservação é cara mas não conservar vai ter efeitos muito mais perniciosos.

Os países em desenvolvimento estão novamente em desvantagem.

São países mais vulneráveis, com menos formas de garantir financiamento, em que muitas vezes há conflitos entre proteção dos recursos e sobrevivência das populações. Estamos a falar de prioridades e níveis de desenvolvimento muito diversos. Era importante que houvesse equidade como agora na COP27 em que foi acordado um financiamento entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento. Um dos pontos débeis desta cimeira é não haver evidências de como é que vamos angariar os recursos financeiros necessários para fazer conservação da natureza e proteger a biodiversidade.

sara.a.santos@dn.pt

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