Chefes são os principais autores de assédio sexual no trabalho

Enquanto em 1989 os colegas de trabalho eram os principais agressores, em 2015 os superiores hierárquicos/as ou chefias diretas eram quem mais cometia assédio sexual no local de trabalho

"O patrão, quando eu trabalhava no restaurante, estava sempre com observações ao meu corpo e com convites nada normais... e se nos encontrássemos, podíamos sair, a tua vida podia estar melhor, e pensa nisso, quando é que a gente vai aqui... e quando é que a gente vai ali... e a fulana, que era a esposa, não tinha de ficar a saber". Este é testemunho de uma mulher, de 43 anos, empregada num restaurante, que foi vítima de assédio sexual. A. partilhou o seu caso no âmbito de um estudo sobre assédio moral e sexual no local de trabalho, que deu origem a um livro, apresentado esta segunda-feira em Lisboa.

O estudo, promovido pela Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE) e desenvolvido pelo Centro Interdisciplinar de Estudos de Género do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, dá a conhecer a dimensão desta realidade no local de trabalho e as suas características e compara os resultados com os de uma investigação levada a cabo há mais de 25 anos com mulheres em Portugal.

Em 1989, "os/as autores/as eram maioritariamente colegas de trabalho (57%) enquanto em 2015 são superiores hierárquicos/as ou chefias diretas (44,7%)", seguindo-se os/as colegas (31.3%) e os clientes, fornecedores/as ou utentes (29.2%). Anália Torres, a investigadora que conduziu o estudo, diz que esta mudança tem a ver com as transformações que ocorreram nos locais de trabalho. "Hoje a distância entre trabalhadores e chefias, a reestruturação a que se assistiu, mudou os cenários de trabalho. Por outro lado, as mulheres estão mais no mercado de trabalho do que estavam antes em muitas áreas. O contacto é diferente", explicou ao DN.

Comparando os dois anos, a proporção de mulheres que refere situações de assédio sexual no local de trabalho diminuiu de 34% para cerca de 14%. "As mulheres eram mais assediadas do que são agora, também porque era um fenómeno menos denunciado. Agora, as mulheres reconhecem mais e rejeitam mais o assédio sexual", refere a investigadora. Enquanto em 2015 a maior parte das reações imediatas envolvia "o confronto do outro mostrando desagrado imediato (52%)", em 1989 fazer de conta que não se notou a situação era a reação mais frequente (49% das mulheres). Atualmente, apenas 22,9% das mulheres fazem de conta que não notam o que está a acontecer.
Quanto aos homens, os dados recolhidos em 2015 mostram que os autores/as mais frequentes dos episódios de assédio sexual são os superiores hierárquicos e as chefias diretas (33,3%), os/as colegas (31,3%) e os clientes, fornecedores/as ou utentes (29,2%).

No que diz respeito ao assédio moral, não é possível fazer uma comparação, uma vez que o estudo feito em 1989 incidia apenas no assédio sexual. "Mas as pessoas são sujeitas muitas vezes a situações verdadeiramente opressivas, porque, de facto, os empregadores querem criar situações para que as pessoas se despeçam e não tenham que lhes pagar indemnizações. É uma situação frequente. Como as pessoas estão em situações vulneráveis e têm medo de perder o emprego, há casos tenebrosos".

Portugal acima da média
Tanto no assédio moral como sexual, Portugal encontra-se acima da média dos países europeus. O primeiro atingia valores de 16.5% em 2015, quando a média na Europa era de 4.1%. Já no que diz respeito ao assédio sexual, a percentagem de população atingida era 12,6%, enquanto nos países europeus se situava nos 2% em 2010.

A grande maioria dos homens e mulheres vítimas de assédio sexual tem um vínculo precário e instável. "Isto é um mecanismo para pressionar as pessoas a fazerem coisas que não querem. E a aceitar situações. É chocante", frisa Anália Torres. No que diz respeito às reações, enquanto a maioria das mulheres mostra desagrado, 50% dos homens faz de conta que não nota o que se está a passar. De acordo com os autores da investigação, cerca de um terço dos homens diz ter reagido assim porque não sabia a quem recorrer e 25.6% tiveram medo de ser despedidos.

Quer no assédio sexual quer no moral, as mulheres são as principais vítimas. "Porque normalmente estão sempre em situações de maior vulnerabilidade no mercado de trabalho", justifica a investigadora.

Lançado manual de formação
Além do livro, será lançado um manual e material de formação sobre prevenção e combate ao assédio sexual e moral no local de trabalho, que, segundo Anália Torres, inclui pistas para as pessoas se defenderem a este nível. A investigadora adianta que "na Europa e nos EUA, os códigos de ética das empresas têm muito clarificada a ideia que estas situações não podem suceder", mas "em Portugal, só as multinacionais têm nos seus códigos de ética formas de prevenção do assédio."

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