Bazofo Dentu Zona: a comunidade no centro

É num dos bairros mais "marcados" da Grande Lisboa que existe uma loja que vende t-shirts e sacos de pano estampados no atelier de Vítor Sanches. À preocupação ambiental junta a vontade de mostrar o orgulho de ali viver.

Manter a loja aqui na Cova da Moura é manter a essência da Bazofo e daquilo que somos". É com esta paixão que Vítor Sanches fala da sua marca, a Bazofo, e que nos acompanha enquanto andamos pelas ruas e ruelas da Cova da Moura (Amadora), cumprimentando todos aqueles que passam por nós.

A Bazofo foi criada em 2015 e tem vindo a crescer ao longo dos últimos cinco anos sempre com a ideia de ser um canal que intervém na sociedade. "A expectativa da Bazofo não é a quantidade de pessoas que a veste, mas sim as ideias e valores que transmite", conta Vítor Sanches ao DN.
Bazofo é uma palavra que vem do crioulo e que significa alguém com estilo e atitude. É comum ouvir esta expressão nas comunidades cabo verdianas e dá orgulho e empodera a pessoa.

A marca tem à venda t-shirts e sacos de pano que são estampados no atelier de serigrafia Dentu Zona (expressão que significa no bairro) que surgiu de uma campanha de crowdfunding. Todos estes elementos têm nomes porque "Bazofo é mais do que uma t-shirt, estás a levar uma identidade, a representar algo que é forte da comunidade, e por isso é que acho que é importante dar nome e vida às t-shirts", diz Vítor. Alguns dos nomes incluem Somada, uma zona no interior da ilha de Santiago em Cabo Verde, Pé di badju, um pé de dança, e mesmo Zeca, o sócio de Vítor em todo este projeto.

Quanto aos desenhos nas t-shirts e sacos de pano, não tem sido uma coisa articulada e pensada, mas sim à medida que as ideias aparecem. A t-shirt Djunta Mô (juntar as mãos) tem uma foto das mãos de Vítor e Zeca, que foi tirada anos antes de a marca ser criada. A manufaturação conta com a ajuda de costureiras e outras pessoas da zona, especialmente em peças que sejam mais importantes. Um dos objetivos para o futuro é mandar vir apenas o algodão e fazer as t-shirts a partir da Cova da Moura, e quem sabe empregar alguém.

A Bazofo faz três tipos de camisolas, as da marca, encomendas para fora e as de militância, que Vítor considera uma das coisas mais importantes para si, pois fá-lo sentir como parte da sociedade e daquilo que acontece nela.

A sustentabilidade é importante para Vítor que explica: "Sou vegetariano há 25 anos, tenho isso comigo e transbordou de certa forma. Acho que pela minha própria consciência daquilo que se passa na minha comunidade eu não poderia fazer um produto que oprimisse outra comunidade." Ser sustentável passa também por garantir que o processo de colheita do algodão seja certificado e que a empresa tratar bem os trabalhadores.

Enquanto estamos sentado no atelier de serigrafia, rodeados de materiais para estampagem e de vários dos projetos da marca, a pergunta sobre como é trabalhar a partir da Cova da Moura é respondida sem hesitação. "Se a Bazofo estivesse em Lisboa, em termos de uma coisa forte, se calhar deixaria uma outra mensagem. Acho que a coisa mais importante da marca é a localização e a essência toda foi aqui que começou, aqui tem de ser o sítio base, o sítio casa".

Durante a pandemia recolheu cabazes e distribuiu máscaras para a ajudar a comunidade, e todas estas pequenas coisas protegem e empoderam as pessoas, "ao fim ao cabo nós vendemos t-shirts, mas ao mesmo tempo temos aquela responsabilidade de estar em paralelo com a comunidade." Também faz mercados, um cineclube, atividades para crianças e adultos, e até um passa sabi, em que se trazem de volta músicas antigas de Cabo Verde.

Vítor considera que Portugal precisa de mais projetos de pessoas negras e de outras etnias por ser empoderador e enriquecedor do país. Também estas dinâmicas permitem que as pessoas negras saibam de outras que têm os seus projetos. "Ficamos a saber o que os outros estão a fazer e só assim podemos empoderar-nos uns aos outros e às vezes pedir serviços. Em vez de recorrer a uma coisa que te põe em dívida, pode ser um serviço mais em conta, pelo menos é o que tentamos fazer aqui na Bazofo".

Quando está presente em mercados e feiras tenta fazer um trabalho de desconstrução dos preconceitos relativos à Cova da Moura. Conta sobre as coisas que faz e mostra que o bairro é um lugar seguro e positivo. "Isso tudo é uma desconstrução porque da próxima vez que pensarem na Cova da Moura, vão pensar em mim e ficam com a ideia de um espaço bom.", conta Vítor.

A cultura é uma das partes mais importantes de toda a marca e do espaço Dentu Zona, a loja onde se vendem os produtos da Bazofo e livros antirracistas, feministas e infantis. Para Vítor o couscous (espécie de bolo que se come em Cabo Verde), a fresquinha (sorvete), djunta mô, são cultura. "É importante imortalizar essas palavras ou ter esses conceitos sempre presentes porque isso está a passar a cultura dos nossos antepassados, o que eles criaram", diz Vítor.

Foi entre risos e conversas sobre a desconstrução do racismo e machismo, enquanto acompanhávamos Vítor na abertura da sua loja, que vimos que a comunidade é de facto o centro de todo este projeto. Nu sta djuntu (estamos juntos) liga estas pessoas que tentam sempre dar uma mão ao próximo.

S.S.
dnot@dn.pt

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